O Governo venezuelano anunciou a libertação de 300 detidos, entre os quais idosos, doentes e alguns presos políticos. O anúncio coincide com novos protestos e críticas e surge na sequência da morte de Víctor Hugo Quero.
O presidente da Assembleia Nacional venezuelana, Jorge Rodríguez, anunciou esta terça-feira a libertação de 300 detidos no país ao longo desta semana, num novo processo de libertações promovido pelo governo.
Durante uma sessão parlamentar em Caracas, Rodríguez afirmou que entre os beneficiados haverá pessoas com mais de 70 anos, detidos com problemas de saúde, mulheres grávidas ou a amamentar e detidos que se encontram presos há anos.
O dirigente chavista garantiu que o governo não exige nada em troca e apelou para que “se valorize o gesto”. “Não estamos a pedir nada a ninguém nem a exigir qualquer ‘quid pro quo’ com isto”, disse Rodríguez. “Apenas que saibam reconhecer o gesto e que, se em algum momento tiverem conhecimento de algum opositor que tenha cometido um crime contra o erário público, o denunciem e nós acompanharemos essa denúncia”.
Apesar de o chavismo negar há anos a existência de presos políticos na Venezuela, organizações de direitos humanos defendem que parte dos detidos abrangidos por este processo foi presa por motivos políticos. A ONG Foro Penal calcula que mais de 400 pessoas continuam na prisão por razões políticas no país sul-americano.
Venezuela: os presos políticos que estiveram mais tempo na prisão
Entre os já libertados contam-se três ex-agentes da extinta Polícia Metropolitana de Caracas, detidos desde 2003 por factos relacionados com a tentativa de golpe de Estado contra Hugo Chávez em 2002, segundo confirmou a ONG Foro Penal. São considerados os presos políticos que estiveram mais tempo encarcerados na Venezuela.
Foram igualmente libertadas Samantha Hernández Castillo, uma adolescente de 16 anos detida desde novembro, e Merys Torres de Sequea, de 71 anos, mãe do militar Antonio Sequea, acusado de participar na fracassada incursão marítima contra Nicolás Maduro em 2020.
Venezuela: críticas e indignação após a morte de um detido e da mãe
O anúncio surge numa altura de crescente pressão sobre as autoridades venezuelanas, depois de se ter conhecido a morte sob custódia de Víctor Hugo Quero, considerado preso político por organizações de direitos humanos.
As autoridades admitiram recentemente que Quero morreu em julho de 2025, enquanto se encontrava detido, embora a família tenha passado meses à sua procura sem receber informação oficial sobre o seu paradeiro.
Segundo a versão oficial, Quero morreu devido a uma “insuficiência respiratória aguda” provocada por um tromboembolismo pulmonar, depois de ter sido hospitalizado por problemas gastrointestinais. O governo garantiu que não informou antes a família porque o detido não tinha fornecido contactos.
A mãe de Quero, Carmen Navas, morreu no domingo, dez dias depois de as autoridades terem confirmado publicamente a morte do filho. Durante mais de um ano percorreu prisões, tribunais e organismos estatais, exigindo provas de vida e denunciando o seu desaparecimento.
O funeral em Caracas transformou-se numa manifestação simbólica contra o governo e reuniu familiares de detidos, ativistas e estudantes.
Na segunda-feira, dezenas de estudantes manifestaram-se em Caracas em memória de Navas e do filho. Alguns participantes gritaram “Não morreram, foram mortos!”, respinsabilizando o Estado venezuelano por ambas as mortes.
As novas libertações surgem meses depois de anteriores promessas de soltura feitas pelo governo e num contexto de pressão internacional sobre Caracas. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou recentemente que procurará libertar “todos” os presos políticos venezuelanos.
Embora o chavismo continue a negar a existência de presos políticos, o balanço mais recente da ONG Foro Penal indica que 454 pessoas continuam detidas na Venezuela por razões políticas, apesar das libertações realizadas desde janeiro.