De Atenas a Oulu, autarcas europeus integram grupo de 50 no mundo que se unem para proteger habitantes do calor extremo
Em julho passado, Antalya, na Riviera Turca, bateu recordes quando as temperaturas ultrapassaram uns abrasadores 46 ºC. Com mais de 2,6 milhões de habitantes – e milhões de turistas todos os verões –, esta cidade mediterrânica estava há muito habituada ao calor.
Mas algo tinha mudado.
“Nos últimos anos, o calor mudou de natureza: ondas de calor mais longas, mais intensas e mais frequentes, que colocam à prova os residentes, quem trabalha ao ar livre, os serviços de saúde e os milhões de visitantes que recebemos todos os anos”, afirma Melike Kireçcibaşı, responsável do Departamento de Alterações Climáticas e Resíduos Zero de Antalya.
Antalya não é caso único. O calor extremo é hoje o fenómeno climático mais mortífero do planeta, provocando quase meio milhão de mortes por ano.
A onda de calor de maio na Europa – que fez disparar as temperaturas em França para valores 10 a 15 graus acima do normal, bateu recordes históricos de primavera e causou mortes em todo o continente – foi descrita pelo responsável máximo da ONU para o clima, Simon Stiell, como um “recordatório brutal dos impactos em espiral da crise climática”.
Com a Organização Meteorológica Mundial (OMM) a alertar que está agora a desenvolver-se um fenómeno potencialmente poderoso de El Niño, chamado a amplificar este verão as temperaturas já em subida na Europa e para lá do continente, a pressão sobre as cidades para agir nunca foi tão forte.
Agora, no Dia Mundial do Ambiente (5 de junho), mais de 50 autarcas – de Atenas a Oulu, passando por Yangzhou – juntam forças. A nova iniciativa “50@50” do Programa das Nações Unidas para o Ambiente (PNUA) aproxima cidades para partilharem soluções testadas, pôr à prova os seus sistemas perante cenários futuros de calor e acelerar a ação antes que chegue a próxima onda de calor.
“O calor extremo já está a transformar o dia a dia nas cidades em todo o mundo”, afirma Inger Andersen, diretora executiva do PNUA. “A 50@50 ajuda os líderes locais a avançar mais depressa, partilhando soluções práticas que protegem as pessoas, reduzem as desigualdades e reforçam a resiliência urbana.”
Mapear a exposição ao calor para orientar a ação
Perante a subida das temperaturas, Antalya lançou o projeto CLIMAAX-MUHIR, apoiado pela UE, uma avaliação do risco de calor em toda a província que modela os perigos atuais e futuros.
“Os resultados foram preocupantes”, diz Kireçcibaşı à Euronews Earth. “As nossas projeções climáticas mostram um aumento acentuado da ocorrência de ondas de calor num cenário de elevadas emissões; alguns distritos poderão registar aumentos de várias vezes na frequência de ondas de calor até meados ou finais do século.”
O projeto identificou também onde se cruzam populações vulneráveis e calor extremo – e os resultados foram claros. Embora as zonas urbanizadas ocupem apenas 2,56% do território de Antalya, concentram cerca de 56% da população e as áreas de maior risco de calor na cidade coincidem quase na perfeição com os locais onde as pessoas efetivamente vivem. “É isso que nos indica onde devemos agir primeiro”, sublinha Kireçcibaşı.
Com base nestas conclusões, Antalya desenvolveu um Plano de Ação para o Calor que dirige infraestruturas de arrefecimento, sombra, espaços verdes, sistemas de alerta precoce e apoio de saúde aos bairros que mais precisam.
Requalificar os bairros mais vulneráveis
Abordagem semelhante está em curso em Atenas – outro participante na 50@50 –, onde um Atlas de Calor Urbano identifica as zonas em que se sobrepõem a exposição ao calor e a vulnerabilidade social. A iniciativa está a impulsionar a requalificação de Elaionas, um dos bairros termicamente mais vulneráveis da cidade, onde está a nascer um novo parque metropolitano com 215 000 metros quadrados.
Atenas comprometeu-se a plantar 5 000 árvores por ano; desde 2024, já foram plantadas mais de 12 400. Os avanços podem ser acompanhados em tempo real através da plataforma digital Athens Trees, concebida para reforçar a confiança pública e o envolvimento dos cidadãos.
“Em conjunto com hortas escolares, microflorestas, parques de bairro e elementos de arrefecimento nos espaços públicos, estas intervenções ajudam-nos a criar um ambiente urbano mais fresco e saudável”, afirma Elissaios Sarmas, diretor executivo da Develop Athens.
Ambas as cidades esperam que as suas técnicas de mapeamento de pontos críticos de calor venham a estar entre as contribuições mais fáceis de replicar na rede 50@50.
É precisamente essa partilha de conhecimentos o objetivo central da iniciativa. Com base no próprio exercício de simulação de 50 ºC – em que a cidade testou a resistência dos seus sistemas perante temperaturas que ainda não sentiu, mas que, segundo os cientistas, irá sentir – Paris está agora a ajudar a estender esse modelo a toda a rede.
“O calor extremo está a tornar-se um desafio determinante para as cidades em todo o mundo”, afirma Emmanuel Grégoire, presidente da Câmara de Paris. “As cidades têm de agir em conjunto para antecipar o calor extremo e proteger os seus habitantes. A cooperação é a nossa ferramenta mais poderosa.”
Ao longo do próximo ano, uma dúzia de cidades irá realizar os seus próprios testes de esforço face ao calor extremo, com o apoio do PNUA, do grupo C40 Cities Climate Leadership e da Câmara de Paris.
Calor extremo atinge do Mediterrâneo ao Círculo Polar Ártico
Talvez o sinal mais evidente de até onde chegou o problema do calor extremo venha de uma cidade perto do topo do mundo. Oulu, a maior cidade do norte da União Europeia, na Finlândia, fica próxima do Círculo Polar Ártico – e, ainda assim, também aderiu à 50@50.
No ano passado, a Finlândia suportou três semanas consecutivas com temperaturas de 30 ºC numa onda de calor “verdadeiramente sem precedentes”. Um rinque de patinagem no gelo no norte do país abriu portas a quem procurava refúgio do calor, enquanto os hospitais locais ficaram sobrecarregados. A onda de calor levantou também preocupações com o bem-estar das renas, em risco de sobreaquecimento.
“As ilhas de calor urbanas começam a formar-se e a tornar os espaços urbanos desconfortáveis”, afirma a arquiteta municipal Sanna Pääkkönen. O desafio é agravado pelo facto de a cidade finlandesa ter sido construída para um clima completamente diferente.
“A maioria dos nossos apartamentos, escolas, creches e locais de trabalho foi construída a pensar em invernos frios – e agora está a ficar demasiado quente no verão”, explica Pääkkönen.
Para além do calor, o Roteiro para o Clima de Oulu tem também de lidar com cheias e tempestades mais frequentes e com as perturbações que os ciclos de congelação e descongelação, cada vez mais irregulares, provocam em edifícios e infraestruturas concebidos para um permafrost estável.
Os urbanistas passam agora a ter em conta a luz solar, o calor e a sombra nos novos projetos urbanos – e investem em infraestruturas para bicicletas e peões para reduzir as emissões dos automóveis que alimentam a mesma subida das temperaturas a que tentam, à pressa, adaptar-se.
O fio condutor entre os mapas de calor de Antalya, os novos parques de Atenas e as regras de ordenamento revistas em Oulu é o mesmo: as cidades já não podem ser pensadas para o clima que têm, mas para o clima que aí vem.
O facto de uma cidade junto ao Círculo Polar Ártico estar agora a preparar-se para um calor de verão que nunca esteve preparada para enfrentar mostra a rapidez com que o problema avança. Acompanhar esse ritmo, defendem os organizadores da 50@50, exige que as cidades deixem de tentar resolvê-lo sozinhas.
Cidades que participam na 50@50
As cidades que integram a iniciativa 50@50 do PNUA distribuem-se por todos os continentes, exceto a Antártida. Eis a lista completa:
Antalya, Atenas, Balikesir, Barcarena, Barcelona, Barranquilla, Bauchi, Belo Horizonte, Blacktown, Bom Jesus do Itabapoana, Buenos Aires, Campinas, Cidade do Cabo, Casablanca, Contagem, Copenhaga, Corumbá, Deli, Doha (Qatar Foundation), Florianópolis, Fortaleza, Gaziantep, Iloilo City, Jacarta, Jalgaon, Jiaxing, Carachi, Kilifi, Kisumu, Lagos, Lahore, Maranguape, Melbourne, Mendoza, Montreal, Mumbai, Nagpur, Nakuru, Oulu, Paris, Poá, Rio de Janeiro, Santiago, Santiago de Cali, Santo André, Sorocaba, São João de Meriti, São Lourenço do Sul, condado de Taita Taveta, estado de Tamil Nadu, Teresina, Tirana, Tóquio, Turbat, Varsóvia e Yangzhou.