Especialistas alertam que as cidades europeias estão «calibradas para o velho calendário», o que dificulta a adaptação à subida acentuada das temperaturas de maio.
Grande parte da Europa prepara-se para temperaturas muito elevadas neste fim de semana, enquanto especialistas alertam que o calor intenso na primavera está a tornar-se o "novo normal".
A agência meteorológica nacional de Espanha, AMET, afirma que a Península Ibérica deverá atravessar um período de "temperaturas excecionalmente altas para esta época do ano" durante o feriado de Pentecostes.
Preveem-se máximas gerais de 34 °C nos principais vales ao longo do fim de semana, enquanto os vales do Guadiana e do Guadalquivir poderão atingir uns abrasadores 38 °C.
Na rede X (antigo Twitter), a AMET indica que também se esperam máximas de 30 °C ao longo da costa Cantábrica, com valores superiores de 34 °C no interior.
Noites tropicais – em que a temperatura não desce abaixo dos 20 °C – deverão atingir os vales do Guadiana e do Guadalquivir, bem como os vales do Tejo, do Ebro e do baixo Douro, nos próximos dias.
Para que a situação seja classificada como uma onda de calor oficial, as temperaturas elevadas teriam de se prolongar por mais tempo. Ainda assim, as temperaturas máximas e mínimas previstas são típicas de pleno verão, não de finais de maio, sublinha a AMET.
O serviço meteorológico do Reino Unido, o Met Office, anunciou também que as temperaturas em Inglaterra vão subir ao longo do fim de semana, sobretudo no sul, onde é provável que se registem 30 °C no sábado (23 de maio) e 32 °C no domingo (24 de maio).
As temperaturas deverão atingir o pico na segunda-feira (25 de maio), quando o sul de Inglaterra e as Midlands poderão enfrentar uns invulgares 33 °C.
"É provável que os registos de temperatura de maio e da primavera no Reino Unido sejam batidos durante o fim de semana prolongado, com os valores previstos a ultrapassarem o recorde atual de 32,8 °C", afirma Steve Kocher, do Met Office. "Além do calor, grande parte do país terá tempo seco e muito sol."
Na Alemanha, as previsões apontam para temperaturas na ordem dos 30 °C durante o fim de semana, com o dia mais quente na segunda-feira de Pentecostes.
"Valores máximos generalizados de 22-28 °C estão em cima da mesa", explica o meteorologista Dominik Jung. "Ao longo do Alto Reno, na região Reno-Meno e em zonas em direção a Brandemburgo, são mesmo possíveis valores de pico até 31 °C."
A previsão atual do Met Office para Paris aponta para máximas de 33 °C neste fim de semana, prolongando-se para a próxima semana, enquanto Roma deverá registar uma média ligeiramente mais baixa, de 31 °C. Em Lisboa, os termómetros chegam hoje aos 31 °C, descendo para 28 °C no sábado e 27 °C no domingo.
Temperaturas primaveris em forte subida são o "novo normal"?
Modelos climáticos estimam que as ondas de calor de junho na Europa sejam hoje cerca de dez vezes mais prováveis do que em condições pré-industriais, e a mesma trajetória começa a tornar-se visível em maio.
"A Alemanha é um bom exemplo: um dia com 30 °C por altura do Pentecostes, antes visto como algo estranho, passou de ocorrência rara nos anos 80 para algo que o país regista agora com regularidade", explica Ionna Vergini, fundadora do serviço mundial de previsão meteorológica WFY24 (fonte em inglês), ao Euronews Earth.
"É esse tipo de deslocação na distribuição de base que define, na realidade, o 'novo normal'. Não se trata de um evento extremo isolado, é a própria curva de temperaturas que está a mover-se."
Vergini alerta que as infraestruturas, a agricultura e os sistemas de saúde pública ainda estão "calibrados segundo o calendário antigo", o que significa que os países não estão preparados para temperaturas elevadas tão cedo no ano.
"Um dia com 38 °C no sul de Espanha em meados de maio apanha um país cujo turismo, energia e sistema hospitalar ainda não estão em modo de verão."
A bacia do Mediterrâneo (Itália, Grécia, Portugal, Espanha e sul de França) continua a ser o epicentro deste problema. No ano passado, estes países enfrentaram uma sucessão de ondas de calor mortais, seca e incêndios florestais que devastaram o continente.
Mas o aumento dos episódios de calor extremo também tem afetado os países habitualmente mais frescos, cujos parques habitacionais, redes de transporte e hospitais nunca foram concebidos para enfrentar temperaturas elevadas.
"Uma tarde com 32 °C em Helsínquia provoca mais perturbações do que uma tarde com 40 °C em Sevilha", nota Vergini.
"O Reino Unido encaixa no mesmo padrão. Temperaturas de maio na casa dos 30 graus ficam muito acima das médias históricas para esta fase da primavera e o parque edificado e a rede ferroviária do país continuam a ter dificuldades sempre que isso acontece."
Um importante relatório, divulgado em 20 de maio pelo Comité para as Alterações Climáticas (CCC) do Reino Unido, alertou que o ar condicionado em breve será "inevitável" para proteger muitos cidadãos do calor insuportável do verão, em especial em lares, hospitais e escolas.
Como se prepara a Europa para um calor mais intenso?
Na Europa, as temperaturas abrasadoras são cada vez mais difíceis de ignorar e alguns especialistas descrevem o calor extremo como o "perigo ambiental mais mortífero" do nosso tempo.
Investigadores do Imperial College London e da London School of Hygiene & Tropical Medicine analisaram 854 cidades europeias e concluíram que as alterações climáticas foram responsáveis por 68% das 24 400 estimadas mortes relacionadas com o calor no verão passado, ao elevarem as temperaturas até 3,6 °C.
As atividades humanas são o principal motor do aquecimento global, sobretudo através da queima de combustíveis fósseis como o carvão, o petróleo e o gás.
Os países mais atingidos por uma única onda de calor foram a Roménia, a Bulgária, a Grécia e Chipre, onde, entre 21 e 27 de julho, se estima que tenham ocorrido 950 mortes relacionadas com o calor, com temperaturas até 6 °C acima da média. Isto corresponde a cerca de 11 mortes diárias por milhão de habitantes.
Com o aumento das temperaturas cresce também o risco de cheias. Por cada subida de 1 °C na temperatura do ar, a atmosfera consegue reter cerca de 7% mais humidade, o que pode traduzir-se em precipitações mais intensas e fortes.
O calor mortal do ano passado intensificou o debate sobre a forma como a Europa pode lidar melhor com as alterações climáticas e as suas consequências.
"Os países que melhor se vão adaptar na próxima década não serão os que têm mais dinheiro, mas os que tratam o calor como uma emergência de saúde pública e não apenas como um assunto de meteorologia", defende Vergini.
"Atenas, Barcelona e Sevilha já avançaram nessa direção. A maior parte do resto da Europa ainda nem começou."
Abrigos climáticos multiplicam-se nas cidades espanholas fustigadas pelo calor
Abrigos climáticos estão a tornar-se cada vez mais "componentes essenciais" das estratégias urbanas, à medida que continuam a aumentar as mortes relacionadas com o calor na Europa.
"À medida que os episódios de calor extremo se tornam mais frequentes, as medidas de adaptação nos ambientes urbanos tornam-se cada vez mais necessárias", afirma Elvira Jiménez Navarro, doutoranda no Centro de Investigação em Transformação Digital e Governação da Universidade Aberta da Catalunha (UOC-DIGIT (fonte em inglês)), em declarações ao Euronews Earth.
"Os governos municipais podem ter recursos limitados para garantir um acesso equitativo e de proximidade aos abrigos climáticos, pelo que a governação participativa e a inclusão de espaços privados – assegurando sempre o acesso gratuito e inclusivo – são fundamentais."
A Espanha está na dianteira, com uma das redes de abrigos climáticos mais avançadas do mundo. Após o verão recorde do ano passado, em que uma onda de calor de 16 dias fez subir as temperaturas até aos mortíferos 45 °C, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, anunciou que uma série de edifícios governamentais passará também a acolher membros do público em busca de refúgio do calor extremo.
A rede nacional baseia-se em programas já implementados por governos regionais, incluindo na Catalunha, no País Basco e em Múrcia. Em Barcelona, por exemplo, existem já 400 abrigos climáticos em edifícios públicos como bibliotecas, museus, pavilhões desportivos e centros comerciais.
Estes espaços, geralmente climatizados e equipados com lugares sentados e água gratuita, destinam-se a proteger quem não tem condições em casa para enfrentar temperaturas elevadas, como idosos, bebés e pessoas com problemas de saúde pré-existentes.
Trata-se de uma iniciativa que salva vidas e que está a ganhar terreno, ainda que lentamente. No mês passado, por exemplo, o Conselho Geral de Bucareste, na Roménia, aprovou a criação de uma rede de abrigos climáticos para proteger os cidadãos de ondas de calor e temperaturas muito elevadas.
A responsável máxima para o calor coordena esforços de proteção em Atenas
As cidades são já mais quentes do que as zonas envolventes devido ao efeito de ilha de calor urbana, causado sobretudo por materiais artificiais como o asfalto e o betão, que absorvem e retêm o calor do sol.
Até 2050, as ondas de calor irão afetar mais de 3,5 mil milhões de pessoas em todo o mundo, metade das quais a viver em centros urbanos. Para responder a este risco, o Climate Resilience Centre, com sede nos Estados Unidos, criou e testou os primeiros cargos de Chief Heat Officer (CHO) a nível mundial.
Estes responsáveis têm a missão de "articular a resposta dos governos municipais ao calor extremo" e concentram-se em acelerar os esforços de proteção já existentes e em lançar novas iniciativas para reduzir o risco para a população.
Atenas foi a primeira cidade europeia a nomear um CHO, entregando o cargo a Elissavet Bargianni em 2021, seguindo o exemplo do condado de Miami-Dade, na Florida, EUA.
Bargianni, que dirige igualmente o Departamento de Resiliência e Sustentabilidade de Atenas, tem trabalhado na atualização do Plano de Ação Climática de Atenas (2022) e participa no programa Natural Capital Financing Facility (NCFF) do BEI, para a criação de quatro projetos urbanos de infraestruturas verdes e azuis de elevado impacto.
Até agora, Bargianni realizou estudos de viabilidade e de ordenamento paisagístico de vários espaços públicos em Atenas, introduziu uma metodologia para novas avenidas arborizadas e iniciou o mapeamento SIG e o inventário arbóreo do Jardim Nacional e da cidade.
"A responsabilização concentrada num único ponto para o planeamento face ao calor tem-se revelado mais eficaz do que espalhar essa responsabilidade por meia dúzia de departamentos municipais", afirma Vergini.
Teste de esforço ao calor prepara Paris para um futuro com 50 °C
Embora a ideia de temperaturas de 50 °C possa parecer distópica, a Europa já registou uns escaldantes 48,8 °C na Sicília, em 2021.
Em 2023, a cidade de Paris organizou o exercício de crise "Paris a 50 °C" em dois bairros da capital, para preparar a cidade para eventuais ondas de calor extremas.
A iniciativa reuniu urbanistas, especialistas em saúde, cientistas e autoridades públicas para avaliar vulnerabilidades em setores chave como habitação, saúde, energia e espaço público.
Num dos momentos da iniciativa, cerca de 70 crianças entraram em fila num túnel fresco e escuro, que se mantém a confortáveis 18 °C. Já debaixo de terra, foram convidadas a encenar os efeitos de temperaturas extremas que poderão em breve fazer parte do quotidiano.
Segundo relatos (fonte em inglês), algumas fingiram ter sido envenenadas por alimentos estragados durante uma falha de energia, enquanto outras simularam os efeitos de fugas de monóxido de carbono provenientes de um gerador avariado.
Depois, elementos da Cruz Vermelha encenaram a triagem de quem seria enviado primeiro para os hospitais, com bombeiros, responsáveis municipais e professores a simularem o caos que uma onda de calor de "duração sem precedentes" poderia provocar.
Um relatório sobre o exercício "Paris a 50 °C" concluiu que o calor extremo representa uma ameaça séria para a saúde pública, sobretudo para populações vulneráveis como idosos, crianças, trabalhadores ao ar livre e pessoas com baixos rendimentos. Infraestruturas como o metro e as linhas ferroviárias também poderão sofrer perturbações significativas devido ao calor intenso.
O relatório propõe transformar Paris numa "cidade oásis", aumentando a vegetação, criando espaços públicos sombreados, reduzindo superfícies que retêm calor, desenvolvendo ilhas de frescura e adaptando escolas e instalações públicas às condições de calor extremo.
Comissão para o Risco de Calor procura salvar vidas no Reino Unido perante subida das temperaturas
Em abril, o Reino Unido lançou uma nova Comissão Nacional para o Risco de Calor (fonte em inglês) para analisar como melhorar, em todo o país, a resposta aos "impactos de largo alcance" das temperaturas elevadas.
Sediada no Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment, na London School of Economics and Political Science, a comissão será independente do governo, mas fará recomendações sobre a forma como os poderes públicos, a nível nacional e local, podem reduzir a ameaça que o aumento das temperaturas representa para a população britânica.
"Esta comissão vai traçar o roteiro para garantir que o Reino Unido é resiliente a temperaturas elevadas sem comprometer os nossos objetivos económicos ou climáticos", afirma Emma Howard Boyd CBE, presidente da Heat Risk Commission e professora convidada no Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment.
"O Governo tem de fazer da adaptação ao calor extremo uma prioridade, caso contrário perder-se-ão mais vidas".
Para além de recomendar que os decisores deem prioridade ao ar condicionado e a outras tecnologias de arrefecimento em escolas e hospitais, o relatório "A Well-Adapted UK" do Comité para as Alterações Climáticas (CCC) defendeu a introdução de limites máximos de temperatura no local de trabalho, argumentando que o país foi "construído para um clima que já não existe hoje".