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Combustíveis fósseis condicionam Bonn: países petrolíferos influenciam conferência climática da ONU

Reuniões climáticas de junho decorrem em Bona
Reuniões climáticas de junho em Bona Direitos de autor  UN Climate Change | Lara Murillo via Flickr.
Direitos de autor UN Climate Change | Lara Murillo via Flickr.
De Angela Symons & Liam Gilliver
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Peritos alertam que interesses dos combustíveis fósseis e ataques à ciência estão a travar de novo um dos debates climáticos mais polémicos

As negociações intercalares da ONU em Bona prolongaram-se para além do tempo previsto na noite de ontem, depois de os países não conseguirem chegar a acordo sobre um mecanismo de financiamento para ajudar os países em desenvolvimento a adaptarem-se às alterações climáticas.

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O secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas (UNFCCC), Simon Stiell, denunciou a lógica do “primeiro os outros” dos países que recusam cumprir compromissos antes de os demais o fazerem.

“Continuam a existir divisões significativas e um trabalho igualmente significativo para o período entre sessões que temos pela frente”, acrescentou.

Apesar de alguns avanços na chamada ‘Transição Justa’, que visa garantir que os benefícios de abandonar os combustíveis fósseis sejam repartidos de forma equitativa, as conversações ficaram ensombradas por interesses questionáveis e por um escrutínio crescente sobre quem, afinal, tem lugar à mesa.

Alguns defendem que as negociações de Bona foram travadas por “um pequeno grupo de interesses ligados aos combustíveis fósseis” que, à porta fechada, atacaram a ciência das alterações climáticas, relata a agência francesa AFP.

As acusações foram feitas por delegados que representam a UE, a Suíça e dezenas de países em desenvolvimento.

“Existem interesses poderosos desesperados por proteger a sua riqueza e influência”, afirma o chefe da delegação das Fiji, Sivendra Michael. “Estamos a ver certos países tomar o processo como refém enquanto pessoas vulneráveis sofrem com ondas de calor, marés-vivas [a maré alta mais elevada prevista do ano numa determinada zona costeira] e tempestades, secas e fome.”

Interesses dos combustíveis fósseis travam avanços na conferência do clima de Bona?

Para além de enviarem responsáveis governamentais, os países que participam nas negociações climáticas da ONU podem incluir representantes não-governamentais nas suas delegações. Entre eles podem estar líderes indígenas, delegados jovens, académicos e representantes empresariais – alguns dos quais podem representar interesses ligados aos combustíveis fósseis.

Em Bona registaram-se “ataques coordenados em todas as salas de negociação por esse pequeno número de interesses ligados aos combustíveis fósseis”, segundo Manjeet Dhakal, conselheiro do grupo dos 44 Países Menos Desenvolvidos, que não apontou o dedo a qualquer país em particular.

O Earth Negotiations Bulletin (fonte em inglês), que publicou relatórios diários sobre as negociações, afirma que a Índia e o Grupo Árabe – que inclui, entre outros, a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Kuwait, todos ricos em petróleo – se opuseram às tentativas de solicitar a organismos científicos, como o IPCC da ONU, que combatessem a desinformação sobre o clima, alegando que isso poderia ser usado para desacreditar o debate científico genuíno.

De forma semelhante, uma tentativa do Reino Unido e da UE para retirar uma referência a “perspetivas distintas” sobre o conceito de pontos de rutura climáticos foi travada pela Arábia Saudita e pela Índia, fortemente dependente do carvão, que defenderam que o tema não está fechado nem é claro.

A Índia sugeriu ainda eliminar uma referência a “alterações irreversíveis” e opôs-se a um texto sobre limitar a magnitude e a duração do “excesso” face ao limite de 1,5 °C do Acordo de Paris – algo que a maioria dos delegados, incluindo a UE, defendia.

As conclusões científicas são claras quanto ao facto de que reduções mais rápidas das emissões – que podem manter ao alcance a meta de 1,5 °C – são necessárias, viáveis e trarão benefícios significativos para a saúde, a segurança energética, o emprego e a acessibilidade, afirma a rede Climate Action Network (CAN) Europe.

Na terça-feira, 16 de junho, a presidente e principal negociadora da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (AOSIS) disse estar “extremamente preocupada com as tentativas de desligar e minar a melhor ciência disponível” em Bona, noticia a AFP.

Shiva Gounden, chefe para o Pacífico da Greenpeace Australia Pacific, argumenta que em Bona se travou “uma guerra implacável à ciência do clima” para tentar diluir as metas de aquecimento.

“Mas recusamos que estas salas se desliguem da realidade do Pacífico, onde um mundo que ultrapasse 1,5 °C irá afogar a nossa história e deslocar o nosso património, à medida que a água salgada invade o Vanua (terra) que nos sustenta há gerações”, acrescenta.

Cop31: perspetivas para a eliminação dos combustíveis fósseis

Estas frustrações são bem conhecidas nas negociações climáticas da ONU, que exigem consenso unânime para a adoção de decisões.

A Cop30 do ano passado, no Brasil, foi alvo de críticas ao terminar com um texto final que evitou qualquer roteiro para a eliminação dos combustíveis fósseis – apesar de o tema ter dominado o debate.

Este desfecho levou à realização, no início deste ano, da primeira conferência internacional dedicada a traçar uma transição justa e ordenada longe dos combustíveis fósseis, em Santa Marta, na Colômbia, apresentada como complementar à COP e que excluía explicitamente os lóbis dos combustíveis fósseis. Donald Trump também ficou de fora do evento.

“O entusiasmo em torno de uma transição justa longe dos combustíveis fósseis continua a crescer, graças em boa medida à recente conferência de Santa Marta, na Colômbia, e ao roteiro que a presidência brasileira da COP está prestes a apresentar”, afirma David Waskow, do World Resources Institute.

“Crescem as expectativas de que os países elaborem os seus próprios roteiros nacionais, adaptados à sua realidade, para abandonarem os combustíveis fósseis.”

«Viemos aqui negociar um futuro melhor»

A AOSIS receia que os países não tenham lançado uma base suficientemente sólida para o sucesso da Cop31, que se realizará na Turquia em novembro.

“Viemos aqui negociar um futuro melhor”, afirma a enviada para o clima das Ilhas Marshall, Tina Stege. “Vivemos uma crise energética, com o risco de exceder os 1,5 °C devido à contínua dependência dos combustíveis fósseis, que prejudica todos, mas sobretudo os mais vulneráveis.

“Aqui em Bona vimos ataques à ciência e vimos também uma resposta a esses ataques – vinda das ilhas, mas também de muitos outros. A ciência diz-nos que precisamos de 1,5 °C; diz-nos que temos de fechar o fosso de financiamento; diz-nos que o futuro será mais seguro, mais saudável e mais habitável se tomarmos decisões ousadas. Está na altura de ouvirmos.”

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