Vários países ocidentais ricos, em especial os Estados Unidos mas também muitos europeus, reduziram os orçamentos de ajuda ao desenvolvimento nos últimos anos.
Cortes na ajuda ao desenvolvimento por parte dos países ricos tendem a aumentar os deslocamentos a partir das regiões mais pobres do mundo, alertou a diretora-geral da Organização Internacional para as Migrações (fonte em inglês) das Nações Unidas, numa entrevista à agência AFP à margem do Fórum sobre Mobilidade Climática de Berlim, na quinta-feira.
"Quando assistimos a cortes na ajuda ao desenvolvimento, na realidade estamos a aumentar muito a probabilidade de as pessoas terem de partir em busca de segurança, em busca de estabilidade", afirmou Amy Pope.
"Já o vimos em países como o Sudão, que enfrenta a maior crise de deslocados do mundo devido à guerra no país."
"Com a diminuição do apoio à ajuda humanitária, vemos mais sudaneses à procura de segurança, à procura de oportunidades mais longe", acrescentou.
Vários países ocidentais ricos, em particular os Estados Unidos, mas também muitas nações europeias, reduziram os seus orçamentos de ajuda ao desenvolvimento nos últimos anos, ao mesmo tempo que endurecem as políticas migratórias e reforçam os controlos fronteiriços.
"Para responderem a pressões políticas internas", muitos países estão a tomar "decisões de curto prazo... que podem, em última análise, não servir os seus interesses a longo prazo", disse.
"Quanto mais conseguirmos ligar a ajuda à movimentação de pessoas de formas humanas e dignas, formas que lhes deem capacidade de decisão e oportunidades, menos provável será assistirmos a grandes movimentos de população."
Pouco depois de entrar na Casa Branca para um segundo mandato, o presidente dos EUA, Donald Trump, cortou 83% dos programas geridos pela USAID. Antes destes cortes, a agência norte-americana para o Desenvolvimento Internacional geria cerca de 42% da ajuda humanitária governamental a nível mundial.
Em julho de 2025, a administração Trump desmantelou e extinguiu a agência, transferindo a gestão e supervisão dos programas de assistência externa remanescentes diretamente para o Departamento de Estado dos EUA.
A Alemanha, a economia mais sólida da UE, também reduziu drasticamente o seu orçamento de desenvolvimento ao longo de sucessivos governos, para pouco mais de 10 mil milhões de euros este ano, face a quase 14 mil milhões em 2022.
Alterações climáticas alimentam migrações
As alterações climáticas têm um "impacto enorme nas migrações em todo o mundo", disse Pope.
Pequenos Estados insulares do Pacífico, como Tuvalu, são ameaçados pela subida do nível do mar, enquanto se estima que cerca de 10 milhões de pessoas tenham sido deslocadas por tempestades nas Filipinas, afirmou a chefe da OIM.
Várias regiões de África foram afetadas por secas prolongadas.
Pope apelou aos responsáveis políticos dos países mais ricos, que têm a maior responsabilidade pelas alterações climáticas, para que ofereçam mais ajuda às pessoas obrigadas a abandonar as suas casas.
"Quanto estão dispostos a investir agora para garantir mais estabilidade, mais opções e uma menor probabilidade de ocorrência de migrações não planeadas no futuro?", questionou.
"Não vamos esperar pela emergência... Vamos fazer os investimentos agora."
Ao contrário das narrativas promovidas por alguns dirigentes políticos sobre a migração, a maioria dos deslocamentos ocorre dentro dos países e não através das fronteiras, afirmou Pope.
Em meados de 2024, estimava-se que existissem 304 milhões de migrantes internacionais, segundo a OIM, e mais de 700 milhões de migrantes internos em todo o mundo.
"Numa primeira fase, as pessoas ficam no seu país. Vão para outra zona do país, se ali conseguirem encontrar recursos ou segurança. Depois deslocam-se para os países vizinhos", explicou Pope.
Prestar apoio no interior dos países mais afetados "acaba por ser muito menos dispendioso... e tem um efeito mais estabilizador", acrescentou.
"Enquanto responsáveis políticos, devemos olhar para a questão em termos de onde podemos prestar mais apoio, da forma que salve o maior número de vidas."