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Europa: quando sentirá a fúria de um El Niño mais forte de que há memória?

Bombeiro combate o incêndio Canyon Fire em Hasley Canyon, Califórnia, em 7 de agosto de 2025
Bombeiro combate o incêndio Canyon Fire a 7 de agosto de 2025, em Hasley Canyon, na Califórnia Direitos de autor  Copyright 2025 The Associated Press. All rights reserved.
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De Liam Gilliver
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Especialistas alertam: 2027 poderá ser o ano mais quente de sempre, com um forte El Niño a agravar o aquecimento causado pelo homem

O episódio de El Niño que se está a desenvolver no oceano Pacífico pode ser o mais intenso em mais de 100 anos, numa altura em que o mundo se prepara para fenómenos meteorológicos ainda mais extremos.

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Segundo o Met Office do Reino Unido, 2027 é “muito provável” que se torne o ano mais quente desde que há registos, à medida que este fenómeno natural entra em choque com as alterações climáticas causadas pelo homem.

“É importante deixar claro que se trata de um evento sem precedentes”, afirma o professor Adam Scaife, responsável pela previsão de longo prazo no Met Office. “Nunca vi um sinal de El Niño tão intenso nas nossas previsões.”

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) afirma que o episódio de El Niño continua a “intensificar-se de forma gradual” e deverá “dominar os padrões climáticos” entre agosto e outubro de 2026, aumentando a probabilidade de temperaturas acima do normal em grande parte do planeta e provocando alterações significativas nos regimes de precipitação.

As últimas previsões multimodelo indicam que as anomalias sazonais da temperatura da superfície do mar podem ultrapassar 2,9 °C nas principais regiões de monitorização. Costuma falar-se, nestes casos, de um “super” El Niño, apesar de não se tratar de uma categoria oficial. O fenómeno já levou a uma série de artigos nos meios de comunicação que alertam para um El Niño de força “Godzilla”.

Além do reforço de El Niño, prevê-se também um dipolo positivo do oceano Índico, situação em que o padrão climático na parte ocidental do oceano se torna, em média, mais quente, enquanto a parte oriental fica mais fria do que o habitual.

“El Niño já não está apenas à porta, está dentro de casa e a aumentar o calor. E isto é apenas o aquecimento”, alerta o secretário-geral da ONU, António Guterres. “El Niño está a fortalecer-se, adicionando combustível a um planeta já em chamas, com cúpulas de calor abrasadoras, incêndios florestais apocalípticos e mares em níveis recorde de temperatura.”

Guterres acrescenta que os combustíveis fósseis estão a “alimentar as chamas” da crise, apelando ao fim da expansão do carvão, do petróleo e do gás.

Resta saber se El Niño chegará realmente à Europa e como se farão sentir os seus impactos.

El Niño: o que é e o que afeta

El Niño (em espanhol, ‘o menino’) é um fenómeno meteorológico natural que ocorre de forma irregular – em média, entre cada dois a sete anos – quando as temperaturas do mar no Pacífico oriental se tornam anormalmente elevadas.

Esta situação impulsiona as temperaturas globais, abrindo caminho a episódios de tempo extremo mais frequentes.

Episódios anteriores de El Niño, como o que se formou em maio de 2023 e durou até março de 2024, contribuíram para temperaturas recorde. Isso ajudou a alimentar secas prolongadas e incêndios florestais em várias partes do mundo.

No entanto, o impacto de El Niño é sentido sobretudo nas regiões tropicais.

A América do Sul, o sul dos Estados Unidos, o leste de África e a Ásia Central registaram riscos acrescidos de cheias durante episódios anteriores de El Niño, enquanto a probabilidade de secas e incêndios florestais aumenta em grandes zonas da Austrália, no norte da América do Sul e em alguns países asiáticos, como a Indonésia.

Europa: como El Niño a afeta

Na Europa, os efeitos de El Niño são muito mais indiretos e tendem a ser menos graves.

O fenómeno natural poderá aumentar a probabilidade de condições mais instáveis na parte final do ano, com um outono e início de inverno mais amenos, húmidos e ventosos, mas é pouco provável que influencie o verão europeu de 2026.

Isto significa que os últimos meses de calor extremo, responsáveis pela morte de milhares de europeus, não resultam de El Niño, apesar de alguns jornais estabelecerem essa ligação.

Ainda assim, os fenómenos extremos noutros continentes terão efeitos indiretos na Europa, com especialistas a alertar para possível escassez de alimentos.

O Instituto IHE Delft para a Educação em Recursos Hídricos, nos Países Baixos, tem trabalhado em zonas diretamente afetadas por El Niño e alerta que muitos produtos alimentares básicos importados pela Europa podem estar em risco.

Na Nicarágua, por exemplo, culturas essenciais como o milho e o feijão podem falhar em áreas já frágeis, agravando a insegurança alimentar e a perda de rendimentos no país.

A escassez de chuva e os baixos caudais dos rios significam também que as culturas irrigadas na Colômbia, no Nordeste do Brasil e na Índia enfrentarão fortes restrições ou terão de depender mais das águas subterrâneas, o que poderá levar à sua sobre-exploração e a quebras nas exportações.

“El Niño é uma distração” das alterações climáticas

Sem minimizar os impactos de El Niño, especialistas em clima sublinham que as alterações climáticas desempenham um papel muito mais importante nos fenómenos extremos e na subida das temperaturas.

A maioria dos episódios de El Niño aumentou temporariamente a temperatura média global em cerca de 0,2 °C. As alterações climáticas, por seu lado, elevaram a temperatura média da superfície terrestre e oceânica em aproximadamente 1,3 a 1,5 °C face aos níveis pré-industriais.

Os impactos de El Niño somam-se, assim, a um planeta já em aquecimento, em vez de serem os únicos responsáveis pelas consequências previstas pelos especialistas.

É também por isso que 2025 foi o terceiro ano mais quente desde que há registos – mais quente do que 2016, um ano marcado por El Niño – apesar do efeito de arrefecimento associado a um episódio de La Niña, o fenómeno oposto que, em geral, reduz as temperaturas globais.

“El Niño é um fenómeno natural”, recordava em maio a climatóloga Friederike Otto, do Imperial College London, antes de as condições de El Niño se terem oficialmente instalado.

“Vai e vem. As alterações climáticas, pelo contrário, pioram enquanto não deixarmos de queimar combustíveis fósseis. São, portanto, as alterações climáticas o verdadeiro motivo para entrar em pânico.”

Ioanna Vergini, fundadora da plataforma global de previsão meteorológica WFY24 (fonte em inglês), afirma à Euronews Earth que El Niño tem sido usado como “distração” das alterações climáticas, numa altura em que a Europa enfrentou, na semana passada, temperaturas de 40 °C.

Uma análise rápida de atribuição da World Weather Attribution (WWA) concluiu que as temperaturas máximas diurnas e noturnas registadas durante a recente cúpula de calor teriam sido “praticamente impossíveis de ocorrer nesta altura do ano” ainda em 1976, mas tornaram-se possíveis devido às contínuas emissões de combustíveis fósseis.

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