António Guterres visita a Síria ainda esta semana a convite do governo. Conselho de Segurança da ONU reconhece avanços no país mas diz que carências humanitárias e ameaça terrorista permanecem.
O Conselho de Segurança discutiu na terça-feira a atual situação na Síria, depois de um relatório interno ter revelado que a região sul do país continua a não ser segura.
António Guterres deverá viajar para Damasco ainda durante esta semana, numa visita realizada a convite do governo sírito. De acordo com os planos, António Guterres deslocar-se-á deslocar-se aos Montes Golã para visitar as forças de manutenção da paz da ONU ali estacionadas.
O Conselho de Segurança ouviu igualmente o enviado especial da ONU para a Síria, que se pronunciou a partir de Damasco.
Na sessão do Conselho de Segurança de terça-feira, os oradores manifestaram o seu apoio à transição política na Síria, reforçando as mudanças feitas até ao momento. O momento institucional do país atingiu um marco importante, com a criação da Assembleia Popular e do Supremo Tribunal, dotado de poderes constitucionais.
Ainda assim, alertaram que, embora as condições humanitárias tenham melhorado, continuam a ser milhões as pessoas que tentam sobreviver sem ajuda.
Quase cinco milhões e meio de pessoas vivem como refugiados internos no país, enquanto, nos últimos cerca de um ano e meio, mais de um milhão de emigrantes regressaram à sua pátria.
Graves tensões étnicas
A liderança da União Europeia recordou recentemente ao chefe de Estado sírio que os direitos e a segurança das minorias continuam a não parecer garantidos.
O regime derrubado de Bashar al-Assad e a sua base de apoio contavam com o apoio dos alauítas, pelo que as milícias sunitas levaram a cabo uma campanha devastadora contra eles durante meses. Da mesma forma, os drusos que vivem na parte sul do país também foram atacados, e os confrontos resultaram num massacre sangrento.
Embora os curdos, que aspiram à autonomia, demonstrem alguma disposição para se integrarem na administração estatal, ainda não puderam participar nas eleições do ano passado (tal como os drusos), alegando riscos de segurança.
A situação dos curdos é também uma questão delicada na Síria em reconstrução, uma vez que as suas milícias foram aliados importantes, durante os 11 anos de guerra civil, da organização armada sunita que chegou ao poder em dezembro de 2024. Ou seja, esperam uma retribuição da nova liderança, que, entretanto, está também sob pressão do governo turco nesta matéria, o qual não quer, de forma alguma, que a posição dos curdos sírios se fortaleça.
Ancara trava há décadas uma luta feroz contra a minoria curda de 15 milhões de pessoas na Turquia e está disposta a tudo para impedir que esta minoria, consciente da sua identidade, aguerrida e determinada, una forças aos curdos sírios e iraquianos e proclame o seu próprio Estado na fronteira entre estes três países.
Esta situação complexa, marcada por tensões étnicas, é agravada pelo facto de dois terços da população da Síria continuarem a necessitar de ajuda devido à devastação causada pela prolongada guerra civil. A
ONU consegue atender, no máximo, metade das pessoas necessitadas, numa altura em que a própria alimentação representa um problema. As agências esperam apoio financeiro imediato da comunidade internacional.
Guterres irá visitar os Montes Golã
António Guterres será o primeiro secretário-geral da ONU, em quase 25 anos, a visitar a Síria. A última visita foi feita por Pan Gimun (político sul-coreano anteriormente conhecido como Ban Ki Mun) em 2009.
De acordo com os planos de Guterres, este irá reunir-se com o presidente sírio, Ahmed as-Saráa, e com o ministro dos Negócios Estrangeiros sírio, Aszad as-Sajbani, bem como com organizações da sociedade civil, e visitará as forças de manutenção da paz da ONU nos Montes Golã.
De acordo com o direito internacional, o local é um território ocupado por Israel, que oficialmente faz parte da Síria. Embora Israel o tenha incorporado à sua legislação em 1981, a comunidade internacional, a ONU e a União Europeia consideram ilegal a anexação do território.
Em 2019, os Estados Unidos reconheceram unilateralmente a soberania de Israel sobre o território, o que constituiu um passo diplomático significativo, mas não alterou o consenso internacional.