Rússia também continua sob fogo. Os incêndios nos armazéns da Wildberries, em julho, mostraram como a guerra entrou no quotidiano: ofensivas com drones e a realidade da frente de batalha aproximaram-se de quem trabalhava nas plataformas logísticas do maior marketplace russo.
Uma mulher foi morta em Odessa e três crianças ficaram feridas na região de Kiev em resultado de ataques noturnos levados a cabo pelas forças russas. Foram usados mísseis e mais de 200 drones, segundo a Força Aérea da Rússia.
Segundo os serviços ucranianos, registaram-se impactos diretos em Krivyi Rih, onde uma área industrial ficou danificada. Em Zaporíjia, foram destruídos pavilhões de uma empresa de construção de maquinaria. Em Mykolaiv, o ataque atingiu instalações de construção naval e, em Ternopil, incendiou-se um depósito de combustíveis.
Na região de Lviv foi atingido um hub logístico. Nas regiões de Poltava e Cherkasy foram danificados alvos ligados à reparação de drones e ao armazenamento de munições.
Destroços de drones abatidos caíram em zonas residenciais das regiões de Kiev, Kharkiv e Dnipropetrovsk, provocando danos localizados em infraestruturas de serviços públicos.
Rússia também sob fogo
Mas a Ucrânia não abranda a pressão que tem exercido sobre o outro lado da fronteira. Em Krasnodar e Nevinnomyssk, ouviu-se o zumbido de drones. Pela segunda vez numa semana, a Ucrânia atacou armazéns da Wildberries.
Segundo a fundadora da empresa, Tatyana Kim, os funcionários foram retirados com antecedência. Ainda assim, não foi possível evitar vítimas: em Krasnodar ficaram feridas dez pessoas, em Nevinnomyssk cinco. Alguns trabalhadores tiveram de ser transportados para hospitais, os restantes receberam assistência no local.
Os incêndios foram de tal dimensão que as autoridades regionais decretaram um regime de emergência local. Para combater as chamas foram mobilizados helicópteros do Ministério para Situações de Emergência, já que o fogo atingia grandes áreas dos armazéns.
Fumo sobre centros logísticos
O armazém em Krasnodar é um dos maiores da rede da Wildberries: cerca de 150 mil metros quadrados. O complexo de Nevinnomyssk é um pouco mais pequeno, mas também está entre os principais. Ambos os locais foram atingidos e o impacto para a empresa foi significativo: destruição, paralisação da atividade, mercadorias danificadas e perturbações na logística.
Segundo estimativas de analistas, o prejuízo total da série de ataques poderá ascender a centenas de mil milhões de rublos.
Porquê a Wildberries?
Kiev não comenta oficialmente os ataques, mas o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskyy, explicou anteriormente que estes ataques se devem ao facto de, nos armazéns do marketplace, estarem guardados componentes que podiam ser utilizados na produção de drones e de equipamento de navegação.
Assim, os centros logísticos eram encarados como parte da cadeia de abastecimento ligada às necessidades militares da Rússia.
Série de ataques
O ataque de 22 de julho veio prolongar uma série de ofensivas contra a infraestrutura da Wildberries. Dias antes, drones tinham atingido armazéns em Elektrostal e Kotovsk. Nessa altura morreram oito pessoas, dezenas ficaram feridas e um dos maiores hubs da empresa, com mais de 350 mil metros quadrados, foi praticamente posto fora de serviço.
Em Krasnodar, os destroços de drones abatidos danificaram dois edifícios de apartamentos e duas casas particulares na localidade de Dinskaya.
Em Armavir, um drone atingiu uma base de combustíveis, provocando um incêndio que se alastrou por uma área de cerca de 800 metros quadrados. Uma pessoa morreu.
Pessoas e consequências
Apesar das declarações da direção da Wildberries sobre uma evacuação adequada, nas redes sociais e em grupos sindicais surgiram queixas de que as pessoas alegadamente não tinham sido autorizadas a sair dos edifícios a tempo. Alguns trabalhadores demoraram muito a voltar a dar notícias após os ataques. A empresa abriu uma linha de apoio para os familiares.
Às famílias das vítimas mortais foram prometidas indemnizações, mas a questão de compensar os prejuízos dos vendedores continua em aberto: os bens destruídos são avaliados em montantes comparáveis ao lucro anual do marketplace.
Marketplace na linha de fogo
A Wildberries é um dos pilares do comércio eletrónico russo.
Os ataques aos seus centros logísticos foram não só um episódio militar, mas também económico: milhares de vendedores perderam mercadoria, dezenas de milhares de encomendas foram anuladas e milhões de clientes enfrentaram atrasos.