O Itamaraty classificou as palavras do Presidente da Argentina contra Lula da Silva de “ríspidas, grosseiras e inaceitáveis” e por essa razão chamou o embaixador em Buenos Aires a Brasília para consultas, fazendo o mesmo com o representante argentino no Brasil.
O Ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil anunciou no domingo que chamou o seu embaixador na Argentina, depois do presidente Javier Milei ter insultado autoridades brasileiras durante a sua visita ao país. A decisão surge um dia depois de Milei ter estado em São Paulo para participar na formalização da candidatura às eleições brasileiras de outubro de Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, que cumpre pena de 27 anos de prisão domiciliária por tentativa de golpe de Estado.
Durante o seu discurso de sábado, Milei acusou o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, de ser um “ladrão” e um “delinquente”, entre outras coisas. Milei também acusou o juiz do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, de ser “lixo careca”, depois deste ter negado ao presidente argentino a visita a Jair Bolsonaro.
O presidente do Supremo Tribunal Federal, o juiz Edson Fachin, afirmou que os comentários de Milei constituíram uma “referência desrespeitosa a um magistrado do mais alto tribunal do país, proferida em solo brasileiro”. Enquanto um porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil confirmou que o embaixador Julio Bitelli foi chamado a Brasília para consultas na sequência das declarações de Milei.
O comportamento do presidente argentino foi, mais uma vez mais exagerado. Chamando Lula da Silva de “presidiário”, Milei voltou a criar tensão diplomática entre os dois países. Desde a sua campanha na Argentina, Milei tem insultado Lula da Silva, sendo a desavença mais recente entre os dois o encontro do Mercosul em Buenos Aires, no dia 4 de julho.
O ministro das Finanças do Brasil, Dario Durigan, reagiu esta segunda-feira ao chamar o Presidente da Argentina de “palhaço”.
“O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil e falou do Brasil, quando o risco-país da Argentina é muito mais elevado, a dívida pública é muito mais elevada e a inflação é muito mais elevada”, afirmou Durigan numa entrevista à Rádio Jornal de Pernambuco.
Durigan afirmou que a economia daquele país está em pior situação do que a brasileira, no meio da crise bilateral provocada pelos ataques de Milei contra o seu homólogo brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva.
Na Argentina, o ex-presidente Alberto Fernández publicou no domingo, no X, a denunciar os insultos de Milei.
“Milei foi ao Brasil a gritar como um louco, exigindo ver um golpista na prisão", escreveu Fernández. "Insultar o presidente de uma nação irmã e o nosso principal parceiro comercial é imperdoável", concluiu.
Entretanto, o governador da província de Buenos Aires, Axel Kicillof, um potencial candidato às eleições gerais na Argentina, anunciou no X que, no domingo, contactou o ministro dos Negócios Estrangeiros brasileiro, Mauro Vieira, "para transmitir que Milei não representa os sentimentos do povo argentino".
Kicillof mostrou-se “com profunda vergonha” enquanto o presidente Milei ofendia e insultava o governo brasileiro, o seu presidente e todo o país. “Da província de Buenos Aires, afirmamos que a Argentina respeita as suas nações irmãs e está empenhada na integração regional”, disse Kicillof.
Javier Milei esteve em São Paulo para apoiar a candidatura do filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro, 45 anos, apresentou-se como candidato às eleições presidenciais de outubro no Brasil com o apoio do Partido Liberal.
Durante a sua passagem por São Paulo, Milei não esqueceu a recusa do Tribunal Federal do Brasil a um pedido de visita ao “seu amigo” Jair Bolsonaro, disse Milei durante uma cerimónia organizada pelo governador de São Paulo, Tarcísio Gomes Freitas, que chegou a ser visto como o sucessor natural de Bolsonaro nas eleições de outubro.
Lula da Silva ainda não comentou as declarações do seu homólogo argentino, que surgiram um dia depois do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil ter recusado a concessão de vistos a dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA que pretendiam viajar para o país sul-americano na próxima semana, por uma alegada pretensão de interferir no processo eleitoral.