O sismo atingiu uma das regiões mais pobres e isoladas da Colômbia, onde a população já enfrentava carências em termos de habitação, água, saúde e educação. A UNICEF alerta que o desafio agora passa por reconstruir sem reproduzir as vulnerabilidades que existiam antes da catástrofe.
O terramoto que abalou a Colômbia no passado dia 10 de agosto deixou na região de Chocó muito mais do que casas, escolas e centros de saúde danificados. A terra tremeu numa das regiões mais pobres e isoladas do país, onde milhares de famílias já enfrentavam enormes dificuldades para ter acesso a água potável, educação, cuidados de saúde ou uma habitação digna.
Neste departamento da costa do Pacífico colombiano, a situação de emergência sobrepõe-se ainda a outras crises. A violência associada ao conflito armado, o isolamento de numerosas comunidades rurais e os desastres naturais recorrentes já tinham transformado Chocó num dos territórios mais vulneráveis do país.
Agora, o desafio não é apenas reparar o que o terramoto destruiu. A reconstrução levanta uma questão mais profunda: se as comunidades voltarão às mesmas condições de precariedade em que viviam antes de 10 de agosto ou se a emergência servirá para reduzir algumas dessas desigualdades históricas.
"É preciso pensar numa recuperação que permita superar as disparidades que já existiam anteriormente. É quase como começar do zero", explica à Euronews Olga Lucía Zuluaga, especialista em situações de emergência da UNICEF Colômbia.
O terramoto afetou 15 departamentos e 472 municípios da Colômbia, 29 dos quais em Chocó, de acordo com os dados fornecidos por Zuluaga. A UNICEF estima que cerca de 70.000 pessoas tenham sido afetadas no departamento.
Uma crise que começou antes do terramoto
Já antes da catástrofe, Chocó era o departamento com maior pobreza monetária da Colômbia. Em 2024, 67,4% da sua população encontrava-se nesta situação, segundo os últimos dados departamentais disponíveis do Departamento Administrativo Nacional de Estatística (DANE).
Mas a pobreza vai muito além dos rendimentos. Em 2024, a pobreza multidimensional — que tem em conta privações relacionadas com a educação, a saúde, o trabalho, a habitação e os serviços públicos — situava-se nos 11,5% para o conjunto da Colômbia.
Essas carências refletem-se diretamente nos serviços essenciais. "Já antes do terramoto enfrentávamos enormes desafios na prestação de assistência a esta população", explica Zuluaga. Havia "dificuldades de acesso a serviços de saúde de qualidade, acesso a escolas e educação, e um grande impacto no acesso à água e ao saneamento básico".
Muitas famílias pertencem a "comunidades que vivem em casas de madeira, improvisadas, com pouco acesso a serviços, o que torna a situação muito mais crítica", salienta a especialista.
À pobreza junta-se o conflito armado. Segundo Zuluaga, em 2025, Chocó foi o departamento com mais casos de confinamento, situações em que as comunidades ficam retidas nos seus territórios devido a confrontos entre grupos armados ou com as forças de segurança. Isto aumenta ainda mais, explica, "a sua vulnerabilidade" e as suas "dificuldades de acesso a serviços básicos".
E a população enfrenta, ao mesmo tempo, emergências naturais recorrentes, especialmente inundações. "Temos uma população triplamente afetada pelo terramoto, pelo conflito armado e pelas catástrofes naturais, o que agrava a crise", resume a especialista da UNICEF.
A precariedade pré-existente também ajuda a explicar a magnitude de alguns dos danos. Nas zonas rurais, muitas construções são simples e de um único piso. Isto permitiu que parte da população pudesse sair rapidamente para espaços abertos durante o terramoto, o que reduziu o impacto em termos de vidas, mas não impediu a destruição de habitações e escolas.
"Foi na zona rural que a maioria das escolas ruiu", explica Zuluaga. "Por se tratar de um território com tantas necessidades pré-existentes, as construções não têm materiais da melhor qualidade, não são resistentes a sismos e, por isso, ruiam mais rapidamente", acrescenta.
Para Zuluaga, que há anos trabalha em emergências humanitárias, o impacto é especialmente duro precisamente devido às condições que a população já enfrentava: "É muito impactante ver como o terramoto afeta zonas que já apresentam necessidades e desigualdades tão grandes; é como se uma desgraça se somasse a outra."
O isolamento complica a resposta
A geografia de Chocó dificulta a chegada de ajuda e a avaliação da verdadeira dimensão dos danos. "Há muitas zonas rurais às quais ainda não foi possível chegar, precisamente porque as estradas ficaram danificadas ou porque o acesso só é possível por via fluvial", explica Zuluaga. A UNICEF reconhece ainda que continua a existir "uma grande lacuna" na atualização dos recenseamentos das crianças afetadas.
De acordo com os dados fornecidos durante esta entrevista, foram contabilizadas 3.128 habitações destruídas e cerca de 19.000 danificadas. Muitas famílias continuam em centros de acolhimento e será necessário determinar quais as casas que podem ser recuperadas, quais as que devem ser reconstruídas e onde fazê-lo de forma segura.
A resposta inicial suscitou uma importante onda de solidariedade. "Recebemos muita solidariedade da comunidade nacional. É surpreendente ver como todo o país faz filas inteiras para enviar ajuda", relata Zuluaga. Mas adverte que, tal como o interesse mediático desaparece, também esse primeiro impulso pode desaparecer: "O nosso apelo é para que não deixemos essas comunidades sozinhas."
Saúde, escolas e proteção dos menores
A recuperação deverá garantir serviços que já eram limitados antes do terramoto. Zuluaga estima em 65 o número de centros de saúde afetados e alerta para o risco de infeções respiratórias e doenças diarreicas nos abrigos, devido às dificuldades de acesso a água potável.
No domínio da educação, 277 estabelecimentos de ensino foram afetados. Enquanto se avalia quais podem ser reparados ou reconstruídos, a UNICEF pede a criação de salas de aula temporárias “para retomar a educação de forma imediata”.
A organização alerta também para o aumento do risco de violência sexual e de género e para as consequências psicológicas da catástrofe. "Constatámos muitas necessidades por parte das crianças que pedem apoio e das famílias que procuram falar com psicólogos", salienta Zuluaga. A saúde mental, insiste, é especialmente crítica em comunidades que já arrastavam traumas associados "ao deslocamento, ao conflito armado e à pobreza".
Reconstruir sem voltar ao ponto de partida
A UNICEF trabalha há mais de 20 anos em Chocó e conseguiu mobilizar as suas equipas logo no dia seguinte ao terramoto. Agora inicia-se uma fase diferente: reconstruir sem reproduzir as vulnerabilidades que já existiam.
Mas, para Zuluaga, a devastação pode também tornar-se "uma oportunidade para o país começar a atender às comunidades esquecidas durante tantas décadas; esperemos que estejamos à altura disso e que, perante uma emergência, possamos reconstruir com maior dignidade e atender às necessidades destas comunidades".
"É o grande desafio que temos como país: como saldar essa dívida histórica que temos para com Chocó e garantir uma reconstrução muito mais digna e muito mais segura para as crianças". E conclui: "O mais difícil vem agora."