O presidente da Reserva Federal, Kevin Warsh, disse sexta-feira em Banguecoque que a economia mundial se mostrou resiliente e apontou a IA como a maior mudança da sua vida, mas não adiantou nada sobre juros antes da reunião deste mês
A economia mundial tem resistido melhor do que Kevin Warsh teria previsto no início do ano, afirmou na sexta-feira o presidente da Reserva Federal dos EUA (Fed), descrevendo a IA como a maior mudança económica que já testemunhou.
Ao falar em Banguecoque nas reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, Warsh não deu qualquer indicação sobre a próxima decisão de juros da Fed, prevista para 28 de outubro.
Quase por toda a parte, a economia está a mostrar uma resiliência “que não sei se teria antecipado há cinco ou seis meses”, declarou Warsh durante um debate em palco com a diretora-geral do FMI, Kristalina Georgieva.
O presidente da Fed mostrou-se especialmente otimista em relação aos Estados Unidos, afirmando no encontro que uma vaga de investimento cada vez mais abrangente, “que não é apenas IA”, deu à economia “fortes ventos favoráveis”, um dinamismo “que certamente não se encontra em todo o mundo”.
Os preços da energia dispararam desde que os Estados Unidos e Israel entraram em guerra com o Irão, no final de fevereiro. Isso, juntamente com um boom de investimento em IA, tem alimentado a inflação em muitas economias, obrigando os bancos centrais a subir juros.
A Fed, que tem visto a inflação manter-se acima da meta de 2% há mais de cinco anos, aumentou a taxa diretora em um quarto de ponto, para 3,75%-4% em setembro, a primeira subida desde julho de 2023.
“Na Fed, deixámos muito claro que iríamos assegurar a estabilidade de preços”, defendeu Warsh, que assumiu a presidência em maio.
Disse ter ouvido a mesma “determinação” por parte dos banqueiros centrais presentes em Banguecoque, classificando a vaga de subidas de juros, incluindo duas do Banco Central Europeu, como um “aperto sincronizado da política monetária” que não deixa “aproveitamentos gratuitos”.
Na terça-feira, o FMI revisou ligeiramente em alta a previsão de crescimento mundial para 2026, para 3,1%, mas advertiu que os riscos continuam inclinados para o lado negativo. As economias avançadas enfrentam também custos de financiamento em forte subida, com a rendibilidade das obrigações do Tesouro norte-americano a 10 anos acima de 5% e a rendibilidade da dívida francesa a negociar em torno de 4,8% à data desta redação.
IA enfrenta caminho acidentado
Grande parte do debate de sexta-feira centrou-se na IA, que Warsh descreveu como “provavelmente a mudança mais determinante” para as economias dos Estados Unidos e do mundo na sua vida.
Antes de assumir funções, defendia que uma vaga de produtividade impulsionada pela IA poderia conter a inflação e abrir espaço para taxas de juro mais baixas. Na sexta-feira, reconheceu que, por agora, a febre de investimento está a fazer subir os preços ao alimentar a procura.
As atas da reunião de setembro da Fed assinalam que a construção de centros de dados tem impulsionado em alta o custo dos chips, do material informático e dos componentes elétricos.
No entanto, a prazo, Warsh espera que a IA aumente a capacidade produtiva da economia, trazendo um “enorme benefício” dentro e fora do país.
Espera também que a tecnologia transforme a forma de fazer política monetária, já que “neste momento torturamos os dados com modelos antiquados”, afirmou. “Dentro de não muito tempo, já não será tortura.”
Apesar do otimismo, o presidente da Fed advertiu que o caminho pela frente “provavelmente será muito acidentado”, tanto na compreensão da tecnologia como porque “não sabemos verdadeiramente qual vai ser a estrutura de mercado”.
Estados Unidos: atenções viram-se para próxima reunião da Reserva Federal
Warsh, que prometeu dar menos pistas sobre o rumo da política monetária, manteve essa promessa.
“Não tomo decisões antes das reuniões”, afirmou, embora tenha sublinhado que o mundo “no essencial tem correspondido” às expectativas da Fed desde setembro.
A inflação dos preços ao consumidor nos Estados Unidos subiu para 3,7% em setembro, face aos 3,4%, acompanhando o disparo do preço dos combustíveis, embora a inflação subjacente, que exclui alimentos e energia, se tenha fixado em 2,6%.
Os preços no produtor aumentaram 6,3% em termos homólogos, a maior subida desde 2022, enquanto a economia criou apenas 29 000 empregos no mês passado.
As apostas numa subida de juros em outubro oscilaram esta semana, passando de cerca de 22% para perto de 50% após os dados de inflação de quarta-feira, antes de recuarem novamente para cerca de 30%, segundo o CME FedWatch, ferramenta que acompanha a precificação dos mercados.
Os mercados atribuem atualmente cerca de 90% de probabilidade a uma nova subida em dezembro, enquanto as atas de setembro mostram que a maioria dos responsáveis da Fed espera mais um aumento de juros este ano.
O presidente da Fed de Nova Iorque, John Williams, vice-presidente do comité da Fed, disse à Bloomberg na terça-feira que “pode ser apropriado ter mais uma subida de juros”, mas não vê necessidade de novas subidas em 2027.
Por outro lado, a governadora da Fed Michelle Bowman afirmou, nas reuniões de Banguecoque de quarta-feira, que não sente urgência em agir.
A decisão será tomada poucos dias antes das eleições intercalares norte-americanas de 3 de novembro.
A subida de setembro contrariou os pedidos de taxas mais baixas do presidente dos EUA, Donald Trump, embora este continue a apoiar Warsh, a sua escolha para o cargo.
As declarações de sexta-feira foram das últimas de Warsh antes do período de silêncio da Fed, que começa no sábado e impede os responsáveis de comentarem a política monetária até depois da reunião. Os investidores voltarão a ouvi-lo na conferência de imprensa após a decisão.