É muito provável que o Presidente Trump volte a enaltecer a «melhor economia de sempre» no discurso do Estado da União de terça-feira. Mas os dados traçam um retrato bem mais complexo.
Retrato mais recente da economia dos Estados Unidos chegou na passada sexta-feira, precisamente no dia em que o Supremo Tribunal anulou a maioria das tarifas de Trump.
O Bureau of Economic Analysis (BEA) apresentou a estimativa preliminar do PIB do quarto trimestre do ano passado, apontando para um crescimento real anualizado de apenas 1,4%, muito abaixo das previsões em torno de 2,5% e uma forte travagem face aos 4,4% registados no terceiro trimestre.
No conjunto de 2025, o PIB real cresceu 2,2%, depois de 2,8% em 2024.
Os números contrastam de forma marcada com as declarações de Trump numa entrevista à Fox Business uma semana antes, quando afirmou: «Sou popular e tenho feito um bom trabalho. Acho que temos, na verdade, a melhor economia de sempre na história.»
Ainda assim, o próprio BEA apressou-se a assinalar uma reserva importante: o encerramento parcial da administração federal entre outubro e novembro de 2025, o mais longo da história dos EUA, retirou, por si só, cerca de 1 ponto percentual ao crescimento do quarto trimestre.
Pouco mais de meia hora antes da divulgação dos dados do BEA, Trump publicou também na rede Truth Social, aparentemente consciente de que os números seriam menos favoráveis, alegando que o encerramento teve um impacto negativo duas vezes superior ao estimado.
«O encerramento democrata custou aos EUA pelo menos dois pontos de PIB. Sem mais encerramentos!», escreveu Trump.
O modelo de previsão GDPNow da Reserva Federal de Atlanta aponta para uma estimativa de 3,1% para o primeiro trimestre de 2026, sugerindo que a economia norte-americana pode estar a recuperar, à medida que se dissipam as distorções ligadas ao encerramento.
Ano resiliente, mas pouco brilhante
Segundo dados do Bureau of Labor Statistics (BLS), a criação de emprego nos Estados Unidos foi claramente fraca no ano passado. A economia acrescentou em média apenas 15 000 empregos não agrícolas por mês em 2025, face a 168 000 no ano anterior.
A revisão de referência do BLS, juntamente com o relatório de emprego de janeiro de 2026, publicado este mês, eliminou um total de 862 000 postos que antes eram atribuídos ao período até março de 2025.
Este janeiro trouxe, porém, um número mais animador: criação de 130 000 empregos, confortavelmente acima da previsão consensual de 55 000 e o valor mensal mais elevado desde dezembro de 2024. No total, a taxa de desemprego recuou para 4,3%.
Na Truth Social, Trump escreveu «NÚMEROS DE EMPREGO EXCELENTES, MUITO MELHORES DO QUE O ESPERADO!» e, à luz de um ano em que o mercado de trabalho praticamente congelou, a leitura de janeiro foi de facto um sinal encorajador.
Tema que Trump poderá referir, mas dificilmente irá desenvolver, no discurso do Estado da União desta terça-feira é o destino da função pública federal.
O BLS confirmou que, desde que o emprego federal atingiu o pico em outubro de 2024, o número de funcionários da administração central diminuiu em 327 000, ou 10,9%.
Só em janeiro de 2026, mais 34 000 funcionários federais saíram das folhas salariais, à medida que trabalhadores que tinham aceitado acordos de demissão diferida em 2025 deixaram formalmente o serviço público.
Isto resulta de esforços deliberados da atual administração norte-americana para cortar empregos federais.
«Não me sinto mal, porque agora estão a conseguir empregos no sector privado e, por vezes, recebem o dobro, o triplo do dinheiro», tem defendido repetidamente Trump.
Mas os dados de emprego até agora não confirmam essa afirmação.
Terramoto das tarifas
Qualquer narrativa económica interna que Trump escolha para o discurso do Estado da União ficará ensombrada pela decisão de sexta-feira passada, por 6-3, do Supremo Tribunal contra as suas tarifas.
A decisão anulou impostos sobre importações que, segundo números da própria administração, tinham gerado até dezembro de 2025 cerca de 129 mil milhões de dólares (109 mil milhões de euros) em receitas especificamente ligadas à IEEPA.
Mantêm-se ainda por esclarecer as questões sobre se os importadores têm direito a reembolsos.
O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou no fim de semana que eventuais reembolsos terão de ser decididos pelos tribunais e que a administração Trump não avançará de forma unilateral.
Horas depois da decisão, Trump invocou a Secção 122 da Lei do Comércio de 1974, uma disposição raramente usada, para impor uma tarifa generalizada de 10% sobre as importações de todos os países. No dia seguinte, este valor foi revisto em alta para o máximo de 15%.
Ainda assim, a tarifa entra em vigor esta terça-feira a 10% e vigorará durante um período de 150 dias, até 24 de julho de 2026, altura em que terá de obter aprovação do Congresso para se manter em vigor.
Uma longa lista de isenções abrange produtos energéticos, minerais críticos, produtos farmacêuticos, veículos de passageiros, livros e bens agrícolas, incluindo carne de vaca e tomate.
O Council on Foreign Relations, um think tank norte-americano, salientou que, sem as tarifas baseadas na IEEPA, os consumidores enfrentam agora uma taxa média efetiva de 9,1%, o nível mais elevado desde 1946, excluindo o ano passado.
Especialistas em direito antecipam que o recurso à Secção 122 enfrente também contestações em tribunal, dado que a norma foi concebida para «emergências da balança de pagamentos» de curta duração, e não como um instrumento alargado de política comercial.
Uma sondagem da Associated Press, publicada este mês em colaboração com o NORC da Universidade de Chicago, indica que apenas 39% dos norte-americanos aprovam a forma como Trump está a gerir a economia.
Já 59% desaprovam, uma inversão acentuada face à vantagem política de que dispunha neste tema na campanha para as eleições de 2024.
No discurso do Estado da União, Trump deverá defender que o retrato é bem diferente. Mas os dados sugerem que terá dificuldade em convencer.