Duas organizações de media solicitaram a um tribunal federal de Manhattan que encerrasse o Truth API, o serviço lançado este mês que vende às empresas de Wall Street acesso mais rápido às publicações do presidente dos EUA na Truth Social, por um valor que pode chegar aos 100 mil dólares.
O The Intercept e a Freedom of the Press Foundation recorreram a um tribunal em Nova Iorque na quarta-feira para encerrar o Truth API, um serviço por assinatura lançado este mês pela Trump Media and Technology Group, a empresa cotada no Nasdaq responsável pela plataforma Truth Social.
A assinatura proporciona acesso privilegiado às publicações do presidente dos EUA, Donald Trump, nas redes sociais, diretamente às empresas de corretagem, enviando-as frações de segundo antes de aparecerem na cronologia pública — tempo suficiente para que algoritmos de alta frequência executem milhares de ordens antes que outros processem a informação.
Os contratos variam entre cerca de 60.000 dólares (52.000 euros) e 100.000 dólares (86.600 euros) por mês e abrangem as 10 contas mais seguidas da plataforma, entre as quais o presidente dos EUA, Donald Trump, a própria Casa Branca, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, o diretor do FBI, Kash Patel, e o secretário da Saúde, Robert F. Kennedy Jr.
Mais de 10 clientes aderiram ao serviço, na sua maioria empresas de negociação de alta frequência, de acordo com os executivos da empresa.
O CEO interino, Kevin McGurn, afirmou numa teleconferência sobre resultados, na segunda-feira, que os assinantes recebem as notícias "ligeiramente mais depressa" do que todos os outros, tendo anteriormente apresentado o serviço como um canal em tempo real para as publicações da plataforma com maior impacto no mercado.
O presidente dos EUA, Donald Trump, detém cerca de 41% da empresa através de um fundo fiduciário revogável gerido pelo seu filho mais velho, Donald Trump Jr., sendo que a participação vale atualmente cerca de mil milhões de dólares (866 milhões de euros).
Os comunicados oficiais, argumentam o The Intercept e a Freedom of the Press Foundation, pertencem ao público e não a quem mais pagar por eles.
Duas alegações constitucionais
A queixa, que identifica o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, bem como o vice-chefe de gabinete Dan Scavino, a assistente executiva Natalie Harp e o Gabinete Executivo do Presidente, classifica o esquema como “profundamente corrupto”.
Argumenta que o serviço viola a Primeira Emenda ao negar acesso igualitário aos comunicados presidenciais e a Quinta Emenda ao condicionar esse acesso a montantes irrazoáveis, salientando que muitas das 9.000 a 11.000 publicações que Trump divulgou desde janeiro de 2025 não foram acompanhadas por qualquer comunicado da Casa Branca.
“Trump está a tentar enriquecer através da privatização de informação governamental”, afirmou Ben Muessig, diretor editorial do The Intercept.
Um porta‑voz do Trump Media respondeu que os críticos revelam “uma incapacidade de perceber a distinção entre informação pública e não pública”, acrescentando que ativistas de esquerda estão a instrumentalizar os tribunais.
A Casa Branca não comentou o processo, que se segue a um pedido apresentado no mês passado pelos senadores norte-americanos Elizabeth Warren e Adam Schiff à Comissão de Valores Mobiliários (SEC) para analisar se o serviço compromete a integridade dos mercados.
Um padrão que antecede a "paywall"
O serviço formaliza uma vantagem que tem suscitado questões há meses.
Em várias ocasiões este ano, os mercados de futuros registaram picos invulgares de atividade minutos antes de serem publicados na conta do presidente dos EUA, Donald Trump, anúncios importantes sobre a guerra com o Irão.
Nenhuma investigação chegou a uma conclusão.
O caso mais evidente ocorreu a 23 de março, quando o S&P 500 e os futuros do petróleo registaram picos isolados de volume por volta das 6h50 da manhã, em Nova Iorque. Quinze minutos depois, Trump publicou que tinham ocorrido conversações com o Irão e que os ataques à sua infraestrutura energética tinham sido suspensos.
Os futuros sobre ações subiram mais de 2,5% e o West Texas Intermediate caiu quase 6%.
De acordo com uma análise de 1.341 publicações entre o final de janeiro e o início de abril, realizada pela Universidade de Tecnologia de Queensland, ocorreram 15 episódios que levantaram suspeitas de abuso de informação privilegiada.