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Irão detém argumentista nomeado ao Óscar Mehdi Mahmoudian

Argumentista nomeado para o Óscar Mehdi Mahmoudian detido no Irão
Detido no Irão argumentista nomeado ao Óscar Mehdi Mahmoudian Direitos de autor  NEON
Direitos de autor NEON
De David Mouriquand
Publicado a Últimas notícias
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Mehdi Mahmoudian trabalhou no argumento de "Foi Só Um Acidente", de Jafar Panahi, vencedor da Palma de Ouro no ano passado e nomeado para Melhor Argumento e Melhor Filme Internacional nos Óscares.

Mehdi Mahmoudian, coargumentista iraniano do filme de Jafar Panahi nomeado para os Óscares _"Foi Só Um Acidente",_foi detido no Irão por ter assinado uma carta aberta que critica o líder supremo do país, o Ayatollah Ali Khamenei, e o governo pela forma como lidaram com os protestos que abalaram o país e causaram inúmeras mortes.

Neon, a distribuidora norte-americana de "Foi Só Um Acidente", revelou que Mahmoudian foi detido em Teerão juntamente com outros dois signatários, Vida Rabbani e Abdullah Momeni.

No total, 17 pessoas assinaram a carta, entre as quais Panahi, a laureada com o Prémio Nobel da Paz Narges Mohammadi e Mohammad Rasoulof, realizador de "A Semente do Figo Sagrado", nomeado para os Óscares de 2025 e que vive atualmente no exílio na Alemanha.

Na carta, os signatários acusam Khamenei de ter autorizado a "morte maciça e sistemática de cidadãos" durante os protestos contra o regime que começaram em dezembro, desencadeados pela inflação galopante e pela crise do custo de vida que está a asfixiar o país.

Deslize para baixo para ler a carta completa.

O governo iraniano reconhece mais de 3.000 mortos, mas as organizações de direitos humanos estimam que o número real possa situar-se nas dezenas de milhares.

Ao reagir à detenção de Mahmoudian, a antiga ministra da Cultura alemã Claudia Roth condenou veementemente as ações do governo iraniano, classificando a detenção como "um ataque à liberdade artística e parte do esforço sistemático das autoridades para silenciar vozes críticas".

Jafar Panahi divulgou igualmente um comunicado após a detenção de Mahmoudian.

"Conheci Mehdi Mahmoudian na prisão. Desde os primeiros dias se destacou, não só pelo seu comportamento calmo e pela sua gentileza, mas também por um raro sentido de responsabilidade em relação aos outros. Sempre que chegava um novo prisioneiro, o Mehdi tentava garantir‑lhe o essencial e, sobretudo, tranquilizá‑lo. Tornou‑se um pilar discreto dentro da prisão, alguém em quem reclusos de todas as convicções e origens confiavam e a quem se abriam".

Prosseguiu: "Passámos sete meses atrás das grades. Alguns meses depois da sua libertação, enquanto eu trabalhava no argumento de Foi Só Um Acidente, pedi‑lhe que me ajudasse a afinar os diálogos. Os seus nove anos de prisão deram‑lhe um conhecimento direto, vivido, do sistema judicial e da vida carcerária. Além disso, o seu vasto trabalho de campo em direitos humanos fazia dele uma fonte fiável e respeitada para qualquer consulta".

Panahi acrescentou: "Quarenta e oito horas antes da sua detenção, falámos ao telefone e trocámos algumas mensagens. Enviei‑lhe a última mensagem às quatro da manhã. Ao meio‑dia seguinte, continuava sem resposta. Fiquei preocupado e contactei amigos comuns; nenhum deles tinha notícias dele. Umas horas depois, a BBC Persian anunciou oficialmente que Mehdi Mahmoudian, juntamente com Abdollah Momeni e Vida Rabbani, tinha sido detido".

"Mehdi Mahmoudian não é apenas um ativista dos direitos humanos e um preso de consciência; é uma testemunha, um ouvinte e uma presença moral rara, cuja ausência se sente de imediato, tanto dentro das paredes da prisão como fora delas".

Panahi enfrenta também um processo judicial no Irão depois de ter sido condenado, no final do ano passado, a um ano de prisão à revelia e a uma proibição de viajar devido a "atividades de propaganda" contra o país. Apresentou recurso da sentença e afirmou que regressará ao Irão depois da temporada de prémios.

Foi SóUm Acidente teve estreia em Cannes no ano passado, onde venceu a cobiçada Palma de Ouro. Desde então, foi nomeado para vários prémios, incluindo os European Film Awards e os próximos Óscares, onde está nomeado tanto para Melhor Argumento como para Melhor Filme Internacional.

O filme, incluído na lista dos Melhores Filmes de 2025 da Euronews Culture, é a primeira longa‑metragem de Panahi desde que foi libertado da prisão. Inspira‑se em parte nas vivências do realizador Jafar Panahi, que foi preso várias vezes pelo repressivo governo iraniano. A narrativa acompanha um grupo de antigos presos políticos iranianos que raptam o homem que acreditam ter sido o seu torturador.

Foi Só Um Acidente foi coescrito por Panahi, Mahmoudian, Nader Saeiver e Shadhmer Rastin. Cada um dos argumentistas está nomeado para um Óscar na 98.ª edição dos prémios da Academia, que terá lugar em Los Angeles, em 15 de março.

Segue-se a declaração integral assinada por Mahmoudian e pelos restantes ativistas:

Irão: Khamenei é responsável por estes tempos terríveis

Povo do Irão, honrado, corajoso e enlutado,

A morte maciça e de forma sistemática de cidadãos que, com coragem, saíram à rua para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade. O recurso a munições reais contra civis, o assassínio de dezenas de milhares de pessoas, a detenção e perseguição de muitas outras dezenas de milhares, as agressões a feridos, a obstrução de cuidados médicos e a execução de manifestantes feridos representam nada menos do que um ataque à segurança nacional do Irão e uma traição ao país.

A responsabilidade principal por estas atrocidades recai sobre Ali Khamenei, líder da República Islâmica, e sobre a estrutura repressiva do regime. Este aparelho autoritário tem recorrido a massacres para garantir a sua sobrevivência, ignorando os direitos básicos e inalienáveis dos cidadãos, incluindo o direito fundamental de procurar mudanças no sistema político. Rotular sistematicamente os manifestantes como «sediciosos», «arruaceiros», «vândalos» ou «terroristas ligados a inimigos» é uma tentativa deliberada de negar ao povo iraniano o seu direito elementar à autodeterminação.

A dura experiência das últimas décadas demonstrou que o principal obstáculo a salvar o Irão da crise atual é Ali Khamenei e o regime de despotismo religioso que dirige. Cada dia que este regime permanece no poder aprofunda o colapso da sociedade, espalha morte e destruição e empurra o país para uma ruína irreversível. Há anos que o Irão está preso em crises provocadas por políticas de confronto mal concebidas e, hoje, o risco de guerra – resultante diretamente da continuação deste regime – paira sobre a nação mais do que nunca.

Neste momento crucial da nossa história, em que o futuro do Irão é mais sombrio do que nunca, reafirmamos a necessidade urgente de justiça para os mortos e da libertação imediata de todos os presos políticos. Reconhecemos que um poder sem controlo não aceita de bom grado a mudança, mas acreditamos que a única via para salvar o Irão passa pelo julgamento de todos os que ordenaram e executaram atos de repressão e pelo fim deste regime antirrepublicano e desumano.

Apelamos à formação de uma ampla frente nacional que organize um referendo e estabeleça uma assembleia constituinte, permitindo que todos os iranianos, de todas as correntes políticas, participem num processo democrático e transparente para decidir o seu futuro político.

Alertamos que não seguir este caminho condenará o Irão a um ciclo devastador de violência.

Que o sol da liberdade volte a nascer sobre o nosso povo e a nossa pátria.

Signatários: Ghorban Behzadian-Nejad; Jafar Panahi; Amirsalar Davoudi; Vida Rabbani; Mohammad Rasoulof; Hossein Razagh; Nasrin Sotoudeh; Abolfazl Ghadyani; Hatam Ghaderi; Abbas Sadeghi; Manzar Zarrabi; Nargess Foundation; Mehdi Mahmoudian; Saeed Madani; Abdollah Momeni; Mohammad Najafi; Sedigheh Vasmaghi.

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