A peça "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas" estreou-se na Alemanha, no sábado, com um ator a ser agredido por elementos do público.
A estreia na Alemanha da peça "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas", do português Tiago Rodrigues, resultou em violência e invasão de palco no passado fim de semana. O espetáculo estreou-se em Bochum, na região da Renânia do Norte-Vestefália, com encenação da eslovena Mateja Koleznik.
O ator Ole Lagerpusch, que interpretava um político de extrema-direita, foi vaiado, atingido por frutas e alvo de uma tentativa de invasão de palco por dois elementos do público, de acordo com o jornal britânico The Guardian. As duas pessoas conseguiram subir ao palco e pretendiam tirar Lagerpusch do local.
O porta-voz do teatro alemão, Alexander Kruse, classificou o ataque como "completamente inaceitável", enquanto a encenadora Mateja Koleznik afirmou estar em estado de choque com a “estupidez e brutalidade” do incidente, segundo a mesma fonte.
"Fiquei realmente surpreendida com a estupidez. Nunca pensei - ninguém pensou - que alguém da plateia saltasse para o palco e tentasse bater no ator. Eu esperaria isso das pessoas contra as quais votamos, mas não das pessoas que deveriam estar do nosso lado", disse a encenadora.
A peça de teatro escrita e encenada por Tiago Rodrigues, na sua versão original, estreou-se em 2020 na cidade de Guimarães. Conta a história de uma família, no sul de Portugal, que tem por tradição matar fascistas.
O enredo começa na casa de campo da família, onde esta se reúne para que o seu elemento mais jovem, Catarina, possa iniciar-se no ritual, matando o primeiro fascista que fora raptado com esse propósito. O dia que prometia ser de festa transforma-se num conflito familiar, uma vez que Catarina se mostra incapaz de matar e se recusa a dar continuidade ao ritual.
A peça termina com um longo discurso de um membro do partido no poder, de extrema-direita, momento em que aconteceu o incidente no palco alemão. No seu discurso, a personagem fala de uma nova República, de uma nova Constituição e evoca mais de meio século de um país "governado por bandidos", apontando críticas às “minorias que não respeitam as maiorias”.
Tiago Rodrigues disse aos jornalistas em 2020, ano de estreia da peça em Portugal, que o monólogo final é "um discurso para uma personagem que está nesta peça, um populista de extrema-direita que chegou ao poder. Não dou um nome ao movimento, o mais importante não é o nome do movimento, mas sim as ideias desse movimento".
Para o encenador, trata-se de uma "abordagem muito clara à ameaça da ascensão de populismos de extrema-direita, de tendência fascista, para não lhe chamar efetivamente fascistas".
A peça "Catarina e a Beleza de Matar Fascistas" soma prémios e tem percorrido o mundo, registando numerosas sessões esgotadas.
Na sua estreia em Itália, em 2022, foi acompanhada por protestos de forças de extrema-direita, em Roma. Federico Mollicone, deputado do partido Fratelli d'Italia, agora no governo, pediu, inclusive, que o espetáculo fosse retirado do cartaz.
Ator português agredido por grupo de extrema-direita em 2025
No ano passado, o ator Adérito Lopes foi violentamente agredido por elementos de um grupo de extrema-direita, na última representação da peça "Amor é um Fogo que Arde Sem se Ver", uma produção do teatro A Barraca, em Lisboa.
A agressão aconteceu quando o elenco da peça estava a chegar ao teatro Cinearte, no bairro lisboeta de Santos, onde ia atuar. No local estava o grupo de cerca de 30 manifestantes, alegadamente pertencentes ao movimento "Reconquista", que agrediu o ator.
O grupo de extrema-direita colou no exterior do teatro autocolantes com as mensagens "Defende o teu sangue" e "Portugal aos portuguezes" (o uso da grafia antiga da palavra "portugueses" é uma imagem de marca do Reconquista).