O campeão de trenós de cães Jørgen Kristensen, de 62 anos, afirma que é a primeira vez de que se lembra em que não há neve em janeiro.
Cresceu numa aldeia no norte da Gronelândia, onde os melhores amigos de Jørgen Kristensen eram os cães de trenó do padrasto. A maioria dos colegas de escola eram inuítes de cabelo escuro; ele destoava. Sempre que era alvo de bullying na escola por causa do cabelo claro – herança do pai dinamarquês do continente que nunca conheceu –, eram os cães que o consolavam.
Foi pela primeira vez pescar no gelo sozinho com eles aos nove anos. Aquele convívio alimentou o início de uma relação para a vida e a carreira de Kristensen como pentacampeão groenlandês de corridas de trenó de cães.
"Era apenas uma criança pequena. Mas muitos anos depois comecei a pensar porque é que gosto tanto de cães", conta Kristensen, hoje com 62 anos.
"Os cães foram um grande apoio", diz. "Levantavam-me o ânimo quando estava triste".
Há mais de mil anos que os cães puxam trenós por todo o Ártico para caçadores de focas e pescadores inuítes. Mas, neste inverno, na localidade de Ilulissat, a cerca de 300 quilómetros a norte do Círculo Polar Árctico, isso não é possível.
Em vez de deslizar sobre a neve e o gelo, o trenó de Kristensen salta sobre terra e rocha. Apontando para as colinas, diz que é a primeira vez de que se lembra em que não há neve – nem gelo na baía – em janeiro.
Gronelândia aquece e contribui para subida do nível do mar
As temperaturas em subida em Ilulissat estão a derreter o permafrost, a fazer afundar edifícios e a rachar canalizações, mas também têm efeitos que se propagam ao resto do mundo.
O glaciar vizinho Sermeq Kujalleq é um dos que se deslocam mais depressa e dos mais ativos do planeta, lançando ao mar mais icebergs do que qualquer outro glaciar fora da Antártida, segundo a organização cultural das Nações Unidas, a UNESCO.
Com o aquecimento do clima, o glaciar recuou e soltam-se blocos de gelo a um ritmo nunca visto, contribuindo de forma significativa para a subida do nível do mar, sentida da Europa às ilhas do Pacífico, segundo a NASA.
A fusão do gelo pode revelar jazidas ainda por explorar de minerais críticos. Muitos gronelandeses acreditam que é por isso que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, transformou a ilha num ponto quente geopolítico, ao exigir comprá-la e ao sugerir anteriormente que os Estados Unidos a poderiam tomar pela força.
"Estamos a perder grande parte da nossa cultura"
Nos anos 80, as temperaturas de inverno em Ilulissat rondavam regularmente os 25 graus negativos, conta Kristensen.
Mas hoje, acrescenta, há muitos dias em que os termómetros estão acima de zero – por vezes chegam aos 10 graus.
Kristensen diz que agora tem de recolher neve para os cães beberem durante a viagem porque já não a encontram ao longo do percurso.
Embora os habitantes da Gronelândia sempre se tenham adaptado – e no futuro possam até pôr rodas nos trenós –, a perda do gelo está a afetá-los profundamente, sublinha Kristensen, que hoje dirige uma empresa que mostra aos turistas a sua terra natal ártica.
"Se perdermos os trenós de cães, perdemos uma grande parte da nossa cultura. Isso assusta-me", diz, comprimindo os lábios e com os olhos a encherem-se de lágrimas.
Gelo marinho está a desaparecer
No inverno, os caçadores deveriam conseguir levar os cães bem para longe sobre o gelo do mar, explica Kristensen. As plataformas de gelo funcionam como "grandes pontes", ligando os gronelandeses às zonas de caça, mas também a outras comunidades inuítes espalhadas pelo Ártico, no Canadá, nos Estados Unidos e na Rússia.
"Quando o gelo do mar chegava, sentíamo-nos completamente livres ao longo de toda a costa e podíamos decidir para onde ir", diz Kristensen.
Este mês de janeiro não houve gelo nenhum.
"Conduzir um trenó de cães sobre o gelo é como estar completamente sem fronteiras – como se fosse a autoestrada mais longa e mais larga do mundo", afirma. Não ter isso "é uma perda enorme".
Há alguns anos, o governo da Gronelândia teve de apoiar financeiramente muitas famílias no extremo norte da ilha porque o gelo do mar não solidificou o suficiente para permitir a caça, conta Sara Olsvig, presidente do Conselho Circumpolar Inuit, que representa povos inuítes de vários países do Árctico.
O aquecimento do clima torna também a vida mais perigosa para os pescadores que trocaram os trenós de cães por barcos, porque há mais chuva em vez de neve, acrescenta Morgan Angaju Josefsen Røjkjær, parceiro comercial de Kristensen.
Quando a neve cai e é comprimida, fica ar retido entre os flocos, o que dá ao gelo a sua cor branca brilhante. Mas quando a chuva congela, o gelo que se forma quase não tem ar e parece vidro.
Um pescador consegue ver o gelo branco e tentar evitá-lo, mas o gelo formado pela chuva assume a cor do mar – e isso é perigoso porque "pode afundar o barco ou atirar-te borda fora", diz Røjkjær.
As alterações climáticas, diz Olsvig, "estão a afetar-nos profundamente" e são amplificadas no Ártico, que "aquece três a quatro vezes mais depressa do que a média global".
Glaciares estão a derreter
Ao longo da sua vida, o glaciar Sermeq Kujalleq recuou cerca de 40 quilómetros, afirma Karl Sandgreen, 46 anos, diretor do Centro do Fiorde de Gelo de Ilulissat, dedicado a documentar o glaciar e os seus icebergs.
Olhando pela janela para colinas que, em condições normais, estariam cobertas de neve, Sandgreen descreve afloramentos rochosos deixados a descoberto pelo degelo e um vale dentro do fiorde que antes estava coberto de gelo e onde "agora não há nada".
A poluição está também a acelerar o degelo, acrescenta Sandgreen, explicando que o Sermeq Kujalleq está a derreter de cima para baixo, ao contrário dos glaciares da Antártida, que derretem sobretudo de baixo para cima à medida que a temperatura do mar sobe.
Isto é agravado por dois fatores: o carbono negro, ou fuligem expelida pelos motores dos navios, e os detritos das erupções vulcânicas. Estes materiais cobrem a neve e o gelo com uma camada escura e reduzem a reflexão da luz solar, absorvendo mais calor e acelerando o degelo. A quantidade de carbono negro aumentou nas últimas décadas, com o maior tráfego marítimo no Ártico, e a vizinha Islândia regista erupções vulcânicas periódicas.
Muitos habitantes da Gronelândia disseram à agência noticiosa AP acreditar que o degelo é a razão pela qual Trump – um líder que já classificou as alterações climáticas como "a maior fraude de sempre" – quer ficar com a ilha.
"O objetivo dele é ficar com os minerais", afirma Sandgreen.
Desde que Trump regressou à presidência, têm vindo menos cientistas do clima dos Estados Unidos a Ilulissat, nota Sandgreen. O presidente norte-americano tem de "ouvir os cientistas" que estão a documentar o impacto do aquecimento global, sublinha.
Ensinar as crianças sobre as alterações climáticas
Kristensen diz que tenta explicar as consequências do aquecimento global aos turistas que leva em passeios de trenó de cães ou em visitas aos icebergs. Conta-lhes que os glaciares da Gronelândia são tão importantes como a floresta amazónica, no Brasil.
As cimeiras internacionais, como as negociações climáticas das Nações Unidas em novembro, na cidade de Belém, porta de entrada da Amazónia, têm o seu papel, mas é igualmente importante "ensinar as crianças em todo o mundo" sobre a importância do gelo e dos oceanos, a par de disciplinas como a matemática, defende Kristensen.
"Se não começarmos pelas crianças, não conseguimos fazer grande coisa para ajudar a natureza. Só a conseguiremos destruir", conclui Kristensen.