A vencedora do Prémio Europeu do Inventor 2026, Angeliki Triantafyllou, explica à Euronews que o futuro dos alimentos vegetais está em produtos mais nutritivos e com menor pegada ambiental, não em modas passageiras.
Como se vai alimentar o planeta nas próximas décadas, numa altura em que a população mundial continua a crescer e os recursos naturais se tornam mais escassos?
A resposta a esta pergunta está no centro da investigação europeia sobre alimentos de nova geração. O objetivo não passa apenas por desenvolver mais alternativas de origem vegetal, mas por criar produtos que combinem elevado valor nutricional com uma pegada ambiental mais reduzida.
Esta necessidade torna-se cada vez mais premente, uma vez que a produção de leite de vaca está entre as atividades agrícolas mais exigentes em consumo de terra, água e rações, além de estar associada a emissões significativas de gases com efeito de estufa.
Uma das cientistas que lideram este esforço é a biotecnóloga grega Angeliki Triantafyllou, presidente da Cerealiq AB e vencedora do Prémio Europeu do Inventor 2026 na categoria "Indústria".
A. Triantafyllou foi cofundadora da Oatly, a maior empresa mundial de produção de bebidas de aveia, e durante mais de 20 anos liderou a investigação da empresa.
O método enzimático patenteado que desenvolveu melhorou de forma significativa o sabor, a cor, a textura e a capacidade de fazer espuma das bebidas de aveia, aumentando ao mesmo tempo o seu valor nutricional face às tecnologias anteriores.
Esta inovação foi decisiva para transformar as bebidas de aveia de um produto de nicho num mercado global.
Hoje, porém, a sua investigação concentra-se num novo produto: o leite de ervilha.
Como revela à Euronews, a equipa está a desenvolver uma tecnologia que aproveita o grão inteiro da ervilha, preservando todos os seus nutrientes, em vez de utilizar apenas proteína isolada, como acontece na maioria das aplicações atuais: "o nosso método, com a nossa tecnologia enzimática, garante todas as propriedades e todo o valor nutricional da ervilha. E é, naturalmente, um método amigo do ambiente."
Sem mais modas alimentares
Angeliki Triantafyllou considera que o futuro dos alimentos de origem vegetal não passa por uma expansão indiscriminada do mercado nem pela busca do próximo produto "na moda".
"O desafio agora é garantir boa qualidade em toda a gama de produtos de origem animal e vegetal. Não seguir modas, mas criar alimentos que tenham realmente elevado valor nutricional e uma razão de existir", diz a biotecnóloga, vencedora do Prémio Europeu do Inventor 2026
Como exemplo, refere, ainda que de forma indireta, produtos que alcançaram grande sucesso comercial (como o leite de amêndoa), sem oferecerem, contudo, o mesmo valor nutricional.
Pelo contrário, defende que as novas matérias-primas vegetais devem ser escolhidas em função da sua composição nutricional e do contributo para uma produção de alimentos mais sustentável.
Porque precisamos de alternativas vegetais?
Segundo Triantafyllou, os produtos de origem vegetal não vêm substituir totalmente os de origem animal, mas cobrir parte das necessidades alimentares de um planeta que terá de alimentar milhares de milhões de pessoas nas próximas décadas.
"A produção de origem animal não pode aumentar indefinidamente para responder às necessidades de uma população que está sempre a crescer."
Como explica, a ervilha contém proteína de elevada qualidade, enquanto a aveia fornece valiosas beta-glucanas e fibras, que a maioria das pessoas consome em quantidades muito inferiores às recomendadas.
Ao mesmo tempo, as culturas vegetais exigem, em regra, menos recursos naturais e podem oferecer soluções em regiões que já enfrentam problemas de escassez de água, degradação dos solos e impactos das alterações climáticas.