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Pandemia de Covid-19 ensombra combate global à SIDA

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De  Euronews
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Pandemia de Covid-19 ensombra combate global à SIDA
Direitos de autor  DIPTENDU DUTTA/AFP

Há precisamente 40 anos, a 5 de junho de 1981, foram identificados cinco casos de pneumonia associados a um fungo conhecido como "pneumocystis carinii" e relacionado com uma supressão do sistema imunitário em cinco jovens de Los Angeles.

São considerados os primeiros registos oficiais de doentes com SIDA. A luta ainda não acabou, apesar de se terem registado progressos.

Atualmente a situação é mais complexa por causa da pandemia de Covid-19.

De acordo com Françoise Vanni, responsável pela comunicação e relações externas do Fundo Global de Luta contra a SIDA, Tuberculose e Malária, a Covid-19 e a SIDA têm um grande impacto nas vidas de milhões de pessoas, mas também na economia de países e continentes: “A Covid afetou completamente os sistemas de saúde e todos os outros programas de saúde. Afetou todas as economias e sociedades do continente africano. O que vemos é que África sofre com a iniquidade em termos de distribuição de ferramentas para ajudar a enfrentar a Covid-19, seja no acesso às vacinas, que permanece obviamente extremamente desigual, seja também no acesso a ferramentas igualmente importantes como equipamentos de proteção.”

Durante o primeiro ano da pandemia de Covid-19, 40 países, principalmente em África, deram conta de um declínio nos testes de VIH, o vírus da imunodeficiência humana que causa a SIDA.

A redução dos programas de prevenção durante a atual crise pandémica e o encerramento de escolas, onde são ministrados muitos dos programas de prevenção da ONU, foram um duro golpe para o Programa Conjunto das Nações Unidas sobre VIH/SIDA (UNAIDS), que alerta que se não foram retomadas ou aceleradas medidas, 7,7 milhões de pessoas ainda podem morrer com SIDA nesta década.

Infelizmente, a atenção mundial agora está voltada para a Covid-19. A nova pandemia está a drenar dramaticamente os recursos da luta contra a SIDA.

Meg Doherty, Directora de Programas Globais de VIH, Hepatite e Infeções Sexualmente Transmissíveis na Organização Mundial de Saúde sublinha: “O VIH foi a primeira pandemia com a qual tivemos que lidar há mais de 40 anos quando identificamos o vírus. Desde então, temos trabalhado para tentar acabar com a ameaça da SIDA para a saúde pública. O que estamos a ver agora com a Covid-19 é que a atenção está voltada para o novo vírus que está a afetar a vida de todos. Vimos impactos diretos e indiretos nas nossas ações para acabar com a epidemia de VIH. Vimos que os testes de despistagem diminuíram. Um estudo recente mostrou uma redução de aproximadamente 22% na quantidade de testes que estão a ser feitos, bem como em matéria de prevenção e transmissão de mãe para filho, para reduzir a transmissão para a criança. Também percebemos que a própria Covid-19 afeta pessoas que vivem com VIH e que correm um risco maior de doenças graves e de morte. Pessoas que vivem com VIH são imunossuprimidas e deveriam estar a ser tratadas para que possam estar bem protegidas da transmissão do vírus, para se manterem saudáveis, e também para evitarem ser contaminadas com Covid-19 ou Covid-19 severa. Atualmente, há 38 milhões de pessoas que vivem com VIH e 28 milhões de pessoas estão medicadas com antirretrovirais. Por isso, ainda temos cerca de dez milhões de pessoas para testar e tratar."

Negligenciar os riscos de os pacientes com VIH poderem ficar mais facilmente doentes com Covid-19 pode precipitar um massacre acrescenta Meg Doherty: “Um relatório recente do UNAIDS indica que, se não usarmos todas as ferramentas disponíveis, se não usarmos todas as estratégias que temos, poderemos ver um aumento crescente de mortes para até 7 ou 8 milhões nos próximos dez anos.”

A SIDA já provocou quase 35 milhões de mortes (sete vezes mais do que as provocadas até agora pela Covid-19), apesar de a mortalidade ter caído desde que os aumentos anuais de infeções e mortes se alcançaram há cerca de 20 anos.

Desde 1998, ano em que houve mais infeções por VIH (2,8 milhões), essas infeções caíram quase para metade e as mortes caíram para um terço do que eram (68 mil no ano passado).

Para isso, tem sido vital o número de pessoas com acesso a antirretrovirais, que aumentou de apenas 560 mil no início deste século para mais de 28 milhões de pessoas atualmente.

A África continua a ser responsável por uma grande parte das mortes por VIH (25,3 milhões) e relacionadas com a SIDA (460 mil), seguida pela Ásia (5,7 milhões de portadores de VIH e 140 mil mortes), de acordo com números de 2019.

A União Europeia está na vanguarda da luta contra a SIDA, não só em África, mas também na América Latina e em muitas outras regiões do mundo.

Bruxelas é um dos parceiros estratégicos do Fundo Global de Luta contra a SIDA, Tuberculose e Malária que tenta manter a atenção em outras pandemias, de forma a que até os países ricos entendam que resolver pandemias no chamado terceiro mundo tem também um impacto no primeiro mundo.

Françoise Vanni do Fundo Global ressalva: “Investimos mais de quatro mil milhões de dólares em mais de 120 países para ajudá-los a responder à Covid-19 e para proteger os programas contra VIH, tuberculose e malária do impacto da pandemia.”

As Nações Unidas definiram como meta derrotar a SIDA até 2030, ainda que outro inimigo, a Covid-19, esteja à espreita.

Por isso, não devemos baixar a guarda, atendendo a que para além da Covid-19 outras doenças ensombram as sociedades em que vivemos.