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Preços altos sufocam economia europeia entre receios de estagflação

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De  Jorge Liboreiro
Clima económico deverá agravar-se na União Europeia
Clima económico deverá agravar-se na União Europeia   -   Direitos de autor  Daniel Roland/AFP or licensors

O ano de 2022 deveria ser, em teoria, aquele em que a União Europeia (UE) superava, definitivamente, os problemas económicos criados da pandemia de Covid-19, para entrar num novo capítulo de recuperação e prosperidade.

Na prática, não foi bem assim, porque o presidente russo, Vladimir Putin, decidiu invadir a Ucrânia, atirando, janela fora, todas as previsões e expectativas.

Um mês após o início da guerra no leste da Europa, a inflação anual na zona euro disparou para os 7,5%, comparativamente aos 5,9% de fevereiro, desafiando o consenso da maioria dos analistas.

Os preços da energia registaram um aumento anual de 44,7%. Um aumento impressionante, em comparação com a taxa de 4,3% registada em março de 2021.

Empresas de todo o continente europeu estão agora a lutar contra contas altas, difíceis de suportar, que ameaçam prejudicar a produção e provocar o encerramento de fábricas, enquanto as famílias veem o poder de compra cair a pique, a uma velocidade recorde.

Como a Rússia não mostra sinais de querer desistir da campanha militar, a incerteza sobre o futuro imediato da União Europeia agrava-se a cada dia que passa. A tempestade perfeita de preços em alta, cadeias de abastecimento sob pressão e desaceleração económica está a alimentar receios de estagnação e de uma paragem repentina do renascimento pós-coronavírus.

"A Europa está a entrar numa fase difícil. Enfrentaremos, no curto prazo, inflação mais alta e crescimento mais lento. Há uma incerteza considerável sobre o quão grandes serão esses efeitos e sobre quanto tempo eles durarão", sublinhou Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, durante um discurso na semana passada, em Chipre.

"Quanto mais tempo durar a guerra, maiores serão os custos."

As circunstâncias extremas colocam as instituições da União Europeia e os governos nacionais sob enorme pressão para apresentar soluções rápidas e tangíveis para trabalhadores e empresas, antes que as cicatrizes se tornem duradouras.

Espanha, por exemplo, aprovou recentemente um pacote de emergência destinado a mitigar as consequências económicas e sociais da guerra na Ucrânia, que se desenrola à distância. O plano mobilizará 16 mil milhões de euros em fundos públicos, incluindo seis mil milhões de euros em apoio direto e reduções de impostos.

O país foi um dos mais atingidos pela crise de energia que dura há meses, com a inflação a atingir 9,8% em março. O agravamento da situação levou o setor dos transportes a convocar uma greve de 20 dias que fez com que muitos supermercados ficassem sem produtos alimentares e várias fábricas com dificuldades para se abastecer.

Mas mesmo que os políticos estejam a correr contra o tempo para apresentar medidas de alívio, a evolução dramática da guerra está a fazer crescer os pedidos de sanções mais duras contra Moscovo.

Novos relatos de assassinatos indiscriminados em Bucha, um subúrbio a noroeste de Kiev, trouxeram novamente à tona a ideia de um embargo às importações de energia da Rússia, uma proposta drástica que mergulharia o bloco num caos económico ainda maior.

A Alemanha, um país fortemente dependente da energia russa, está entre os Estados-membros da União Europeia mais relutantes em dar um passo tão radical, temendo que o choque seja forte demais para a sua indústria.

"A indústria alemã vê o risco de as empresas enfrentarem dificuldades existenciais por causa dos preços da energia ou por causa da interrupção russa nas exportações de matérias-primas energéticas", lembrou Joachim Lang, diretor-geral da BDI, a federação das indústrias alemãs, através de um comunicado enviado à Euronews.

"Algumas empresas que recorrem de forma intensiva ao uso de energia já estão a ser forçadas a reduzir a produção por causa dos custos exorbitantes com as faturas do gás e da eletricidade."

O país, uma potência económica da Europa, enfrenta agora um risco "substancial" de recessão, alertou o conselho de assessores económicos do governo alemão. O grupo reduziu a previsão de crescimento em 2022 de 4,6% para 1,8%, observando que os níveis pré-pandemia não serão atingidos antes do terceiro trimestre do ano.

Na Lituânia, o país da UE com a taxa de inflação mais alta (15,5% em março), as empresas estão a lutar para evitar uma perda de competitividade à medida que as matérias-primas vindas da Ucrânia, da Rússia e da Bielorrússia estão a desaparecer e alternativas de outras paragens trazem custos adicionais.

“A invasão russa da Ucrânia vai juntar mais combustível à já inflamada fogueira da inflação, e essa fogueira pode queimar todo o crescimento económico da Lituânia em 2022”, disse Vidmantas Janulevičius, presidente da Confederação de Industriais da Lituânia (LPK), à Euronews.

"O aumento dos preços da energia teve um grande impacto na indústria. Além da tendência de alta nos preços das commodities, o impacto do crescimento dos recursos nas empresas está tornar-se difícil de compensar."

A longa sombra da estagflação

A reviravolta dos acontecimentos no mês passado despertou, inevitavelmente, o temido espetro da estagflação, um período caracterizado pela estagnação económica, inflação e desemprego em alta.

O termo estagflação surgiu durante a década de 1970, quando os países produtores de petróleo proclamaram um embargo de petróleo após a guerra do Yom Kippur e provocaram um aumento extraordinário nos custos de produção. A crise levou a um "choque do petróleo", que combinou o aumento da inflação com o declínio económico. O cenário foi visto com estranheza: quando a economia desacelera, o desemprego aumenta e a procura do consumidor tende a cair, puxando os preços para baixo.

Cinquenta anos mais tarde, uma nova crise energética ameaça reavivar a estagflação, mesmo que temporariamente.

"Isto é um pesadelo porque há um crescimento negativo, mas, ao mesmo tempo, inflação alta. Então, deveria aumentar-se as taxas de juro para combater a inflação elevada, mas deve manter-se a política monetária muito frouxa porque a economia não está bem", disse Peter Vanden Houte , economista-chefe do ING Belgium, à Euronews.

"Por enquanto, os preços da energia continuarão bastante altos, dada a incerteza do fornecimento da Rússia. Há uma espécie de 'prémio de guerra' tanto no preço do gás natural como no preço do petróleo, que a fazer parte do preço enquanto esta guerra durar. E não temos ideia de quanto tempo isso vai durar."

Espera-se que o Banco Central Europeu (BCE) termine o programa de flexibilização quantitativa (quantitative easing) da era da pandemia no verão e que aprove um primeiro aumento das taxas de juro no quarto trimestre deste ano, embora os dados económicos mais recentes possam acelerar o cronograma.

"Os dados recebidos não apontam para um risco material de estagflação", disse a presidente do BCE, Christine Lagarde, em comentários feitos antes da divulgação dos números da inflação de março.

"O crescimento na zona do euro pode ser tão baixo quanto 2,3%, num cenário grave devido à guerra em 2022", acrescentou. A estimativa era quase metade da taxa de crescimento de 4% que a Comissão Europeia tinha publicado no início de fevereiro.

Para piorar as coisas para os consumidores, a inflação deve ser impulsionada por uma iminente crise alimentar à escala global. A Ucrânia e a Rússia são considerados os celeiros do mundo, produzindo cerca de 30% das commodities alimentares, como o trigo e o milho.

Na semana passada, David Beasley, chefe do Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas, disse ao Conselho de Segurança da ONU que o conflito na Ucrânia criará "uma catástrofe em cima de uma catástrofe" e que poderá desencadear a pior crise alimentar global desde a Segunda Guerra Mundial.

Em Bruxelas, autoridades da União Europeia tentaram tranquilizar os cidadãos de que o abastecimento de alimentos está garantido, mas que são precisas respostas de médio prazo para evitar a escassez.

Os dados de inflação de março mostraram um aumento anual de 5% dos alimentos, do álcool e do tabaco, acima dos 4,2% em fevereiro. Os alimentos não processados ​​dispararam 7,8%, impulsionados por fatores sazonais, maiores custos de transporte e pelos fertilizantes.

A crise alimentar, a crise da energia, os problemas nas cadeias de abastecimento e todas as outras possíveis ramificações da guerra na Ucrânia deixam antever um caminho longo e árduo para a economia europeia, onde a inflação alta já não é apenas uma dor de cabeça temporária - como muitos previam antes da invasão - tornando-se, em vez disso, num desafio a longo prazo.

"Também temos de levar em conta que teremos alguns efeitos de segunda ordem agora que os preços da energia e alimentos estão elevados. No final do dia, isso também pode refletir-se em outros preços. Os elevados preços da energia também tornarão outros bens e serviços mais caros", adverte Vanden Houte.

"Em suma, digamos que o declínio da inflação será um processo muito lento. Provavelmente teremos que esperar até o segundo semestre de 2023 antes de podermos falar novamente de taxas de inflação mais normais", acrescenta o economista-chefe do ING Belgium.