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UE resistente ao pedido da Ucrânia para sancionar setor nuclear russo

Central nuclear de Temelin, na República Checa, utiliza reatores russos mantidosa pela Rosatom.
Central nuclear de Temelin, na República Checa, utiliza reatores russos mantidosa pela Rosatom. Direitos de autor RADEK MICA/AFP
Direitos de autor RADEK MICA/AFP
De  Jorge LiboreiroIsabel Marques da Silva
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Nas últimas semanas, os funcionários ucranianos têm vindo a intensificar os seus esforços para convencer os aliados ocidentais a tomarem medidas contra a Rosatom.

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Quando o presidente ucraniano, Volodymr Zelenskyy, visitou Bruxelas, na semana passada, fez três pedidos principais: adesão rápida à União Europeia (UE), aviões de combate e um novo pacote de sanções contra a Rússia.

Sobre as duas primeiras exigências, a resposta dos líderes da UE foi bastante tímida. Quanto ao terceiro ponto, a situação é mais promissora.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu aprovar o décimo pacote de sanções para assinalar o aniversário de um ano de guerra, a 24 de fevereiro. 

As medidas deverão traduzir-se numa perda de exportações no valor de 10 mil milhões de euros para a Rússia e a inlcusão de pessoas ligadas à propaganda russa na lista de bens congelados e proibição de entrar na UE.

"Agradeço-vos pelos pacotes de sanções que já entraram em vigor. Mas terão  limitado suficientemente o potencial agressivo da Rússia? Este é um caminho que precisa de ser completado", disse o presidente ucraniano aos 27 chefes de Estado e de governo.

"A Rússia criou a ameaça de uma catástrofe de radiação nuclear na Europa! E a indústria nuclear russa ainda está livre de sanções. Será isto normal? Penso que não", disse Zelenskyy.

Um gigante estatal

Nas últimas semanas, os funcionários ucranianos têm vindo a intensificar os seus esforços para convencer os aliados ocidentais a tomarem medidas decisivas contra o setor nuclear da Rússia e, em particular, contra a Rosatom, a grande empresa estatal que controla a energia nuclear civil e o arsenal de armas nucleares do país.

Fundada em 2007, a Rosatom é um dos principais fornecedores mundiais de urânio enriquecido e de reatores nucleares, com 34 projetos de construção em países como a Índia, a China e a Turquia. O seu crescimento económico constante tem estado diretamente ligado ao comportamento geopolítico cada vez mais assertivo de Vladimir Putin.

A empresa é o atual operador da central nuclear ocupada de Zaporizhzhia, na Ucrânia oriental, que tem sido palco de ferozes combates e intervenções internacionais para evitar um desastre fatal.

Até agora nenhum alto funcionário da Rosatom foi incluído na lista de sanções, por falta de consenso político na UE. "Há apenas um fator quando se trata de chegar a acordo sobre sanções da UE: a unanimidade", disse um porta-voz da Comissão Europeia à euronews.

Em setembro passado, quando Bruxelas preparava o sétimo pacote de sanções, cinco Estados-membros (Polónia, Estónia, Letónia, Lituânia e Irlanda) assinaram uma carta em que defendiam a "proibição de cooperação com a Rússia em matéria de energia nuclear", mas não convenceram os pares.

O transporte de combustível nuclear continua explicitamente isento das sanções da UE. A ideia "tem mais tração do que há seis meses atrás. Mas não chega a lado nenhum", disse uma fonte, sob anonimato, à euronews.

Pressionar Putin

"Sancionar a Rosatom não terá um enorme impacto na economia russa proque as receitas são cerca de mil milhões de dólares, por ano. No entanto, trata-se de pressionar o regime de Putin.
Maria Shagina
Analista, Instituto Internacional de Estudos Estratégicos

Maria Shagina, analista do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS) - cujo trabalho se concentra nas sanções económicas -, acredita que visar a indústria nuclear russa seria uma das "medidas mais fortes" que o bloco poderia tomar, neste momento, uma vez que as opções económicas e a imaginação política começam a esgotar-se após nove pacotes de sanções.

"Sancionar a Rosatom não terá um enorme impacto na economia russa proque as receitas são cerca de mil milhões de dólares por ano (de importações por parte de toda a UE)", disse Shagina. "No entanto, trata-se de prressionar o regime de Putin", acrecsentou.

Face ao isolamento internacional, o Kremlin duplicou os seus negócios de exportação de energia para reforçar a economia em declínio e financiar a dispendiosa invasão.

"A Rosatom posiciona-se como uma empresa nuclear civil, mas a distinção entre fins militares e civis é ténue", disse Shagina. "A Rosatom está também preparada para estimular o desenvolvimento e a produção de chips do país, o que só irá aumentar a pressão para a sancionar".

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Pouca importação de urânio russo

Antes da guerra, a UE pagou gastou 71 mil milhões de euros em petróleo bruto russo e produtos petrolíferos refinados, mas apenas 333 milhões de euros em urânio russo-235 (uma variedade enriquecida que é utilizada como combustível para alimentar centrais nucleares), de acordo com os números fornecidos pelo Eurostat (agência de estatísticas da UE).

A Rússia foi o terceiro maior fornecedor de urânio da UE, com uma quota de mercado de 19,7%, atrás do Níger (24,3%) e do Cazaquistão (23%), uma antiga república soviética que mantém laços estreitos com o Kremlin, antes da guerra.

"Não há dependência do urânio natural russo", disse Mycle Schneider, coordenador do Relatório da Situação Indústria Nuclear Mundial, à euronews. 

Mas há outro tipo de dependência: a assistência técnica. Cinco Estados-membros da UE operam 19 reatores nucleares de fabrico russo: seis na República Checa, cinco na Eslováquia, quatro na Hungria, dois na Finlândia e dois na Bulgária.

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Destes, 15 pertencem ao modelo VVER-440, enquanto os outros quatro são modelos VVER-1000. A Ucrânia também opera vários reatores, incluindo em Zaporizhzhia, de ambos os tipos.

Como a série VVER é concebida e desenvolvida pela OKB Gidropress, uma subsidiária controlada pela Rosatom, a empresa estatal é o único "fabricante no mundo" que pode servir os conjuntos de combustível nestas centrais, explicou Schneider.

Os conjuntos de combustível, também conhecidos como feixes de combustível, referem-se ao grupo estruturado de hastes longas que contêm pastilhas de urânio e são colocadas no interior do núcleo de cada reactor nuclear. A manutenção destes conjuntos é um requisito indispensável para manter as centrais nucleares seguras e funcionais.

Embora duas empresas ocidentais, Westinghouse (Estados Unidos) e Framatome (França), tenham tentado substituir a Rússia como fornecedor de conjuntos de combustível VVER, o seu trabalho tem-se concentrado principalmente no tipo VVER-1000 e não progrediu com rapidez suficiente para mitigar a dependência entrincheirada.

"O combustível VVER continua a ser uma área de alta dependência nos próximos anos. O futuro permanece particularmente incerto para os operadores dos VVER-440s", disse Schneider.

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Uma preocupação semelhante foi levantada no relatório anual da Agência de Aprovisionamento da Euratom (ESA), em 2022, que instou os países a diversificarem os fornecedores para evitarem "vulnerabilidades de fornecimento".

"Foram feitos poucos progressos na diversificação do fornecimento de combustível VVER-440", concluiu o relatório.

Westinghouse e Framatome não responderam imediatamente a um pedido de comentários da Euronews.

Nos cinco países onde os reatores de fabrico russo ainda estão ativos, a energia nuclear representa uma parte considerável da produção de eletricidade, variando entre 32,8% na Finlândia e 52,3% na Eslováquia, de acordo com o Relatório sobre a Situação da Indústria Nuclear Mundial.

No ano passado, a Hungria emitiu licenças de construção para expandir a sua central nuclear de Paks com dois reatores VVER-1200. O governo de Budapeste avisou que não hesitaria em usar o seu poder de veto para fazer descarrilar qualquer proposta da UE para visar o setor nuclear da Rússia.

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"Não permitiremos que o plano inclua a energia nuclear nas sanções a serem implementadas", disse o primeiro-ministro húngaro Viktor Orbán, em janeiro.

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