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Sistema de saúde húngaro pressionado com fuga de profissionais para Europa Ocidental

Doctors and nurses wearing protective gears attend a patient on ventilator at the ICU of Szent Laszlo Hospital, in Budapest, treating COVID-19 patients, Dec. 13, 2021.
Doctors and nurses wearing protective gears attend a patient on ventilator at the ICU of Szent Laszlo Hospital, in Budapest, treating COVID-19 patients, Dec. 13, 2021. Direitos de autor Zoltan Balogh/MTI via AP
Direitos de autor Zoltan Balogh/MTI via AP
De  Lili Rutai
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Na última década, cerca de 8500 profissionais de saúde partiram para outros países europeus. A Hungria tem, agora, uma das menores proporções de médicos por habitante no bloco comunitário.

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Apesar dos esforços do governo, os médicos húngaros estão a deixar o país à procura de melhores salários e condições de trabalho mais aceitáveis na Europa Ocidental, deixando o sistema de saúde nacional com falta de pessoal e precipitando tempos de espera mais longos.

No ano passado, mais de 800 médicos húngaros solicitaram um certificado para exercer a profissão fora do país, de acordo com dados oficiais, elevando o número total emitido na última década para 8500.

A tendência pode levar a uma situação desastrosa num país com pouco mais de 33 mil médicos para uma população de 9,7 milhões de pessoas, ou, dito de outra forma, cerca de 3,5 médicos por mil habitantes – abaixo da média de 3,9 da União Europeia (UE.)

Em 2022, vários serviços de hospitais húngaros foram fechados por um total de mais de 46 mil dias. Pouco mais de um terço desses dias (15 mil) foram justificados com a falta de pessoal e outros 8% (3729 dias) foram explicados com falta de necessidades.

Para a Direção-Geral Nacional dos Hospitais (OKFŐ), o país não assiste, no entanto, a uma “emigração sistémica” dos profissionais de saúde.

“Com base nos certificados emitidos - na nossa opinião - os cuidados de saúde húngaros não estão, de todo, ameaçados pelo emprego de profissionais de saúde no exterior”, referiu a OKFŐ. A Direção, que pratica os direitos de propriedade do Estado em 102 hospitais, acrescentou que o número de médicos cresceu 10% desde 2010.

O melhor de dois mundos

No entanto, de acordo com dados de uma seguradora de saúde, cerca de 40 mil pessoas estavam em março de 2023 na fila à espera de procedimentos cirúrgicos e os tempos de espera atingiram recordes históricos.

Os problemas com pessoal foram expostos, com duras consequências, durante a pandemia de COVID-19, quando os hospitais húngaros registaram o segundo maior número de mortes na Europa por 100 mil habitantes.

Durante a crise de saúde global, Péter Körmendi tratou doentes em unidades de terapia intensiva na Hungria e na vizinha Áustria. A maior diferença, na sua experiência, é o rácio entre pacientes e enfermeiros. “Na Áustria, um enfermeiro cuidava de um ou dois doentes. Na Hungria, pode haver 4 ou 5 pacientes.”

Körmendi trabalha, agora, em Wiener Neustadt, na Áustria, mas mantém uma residência em Sopron, na Hungria, uma cidade na fronteira. Diz que é o melhor dos dois mundos: a qualidade de trabalhar na Áustria, mas a proximidade com a família húngara. Seria, no entanto, preciso um “milagre” para voltar para a Hungria a tempo inteiro.

Körmendi também é administrador de um grupo no Facebook para médicos húngaros na Áustria, com mais de mil membros - segundo ele, 70% são médicos praticantes. O grupo no Facebook para médicos húngaros que trabalham na Alemanha tem mais de 2500 membros.

“Todos os dias, durante seis anos, três médicos e duas enfermeiras deixaram a Hungria”, sublinhou, em 2015, ao jornal britânico "The Guardian", János Bélteczki, chefe da Associação de Médicos Húngaros. Mais de 200 médicos mudaram-se para o Reino Unido naquele ano.

Alemanha, Áustria, Reino Unido e Suécia foram os destinos mais comuns entre 2010-2019, revelaram os números.

Os gastos com saúde explicam isso de alguma forma.

"Em 2020, o governo, liderado pelo primeiro-ministro nacionalista Viktor Orbán, gastou apenas 7,3% do PIB em saúde, em comparação com a média da UE de 10,9%. O estado avançou com um aumento salarial de 11% para os profissionais de saúde em fevereiro de 2023, o que significa que os médicos fora da universidade agora recebem um valor bruto de 1800 euros por mês."

"Um terço do que ganhei no estrangeiro"

Para Réka Osváth, uma jovem de 25 anos especializada em psiquiatria, não se trata apenas do salário. Estudou na Faculdade de Medicina na Hungria e fez um semestre em Neukirchen, na Áustria, onde decidiu iniciar a carreira.

“Foi o ambiente, o próprio hospital, as pessoas, a disponibilidade de todos os equipamentos, o fato de nos tratarem como humanos e o salário”, explicou à Euronews a propósito das motivações.

A trabalhar mais de 200 horas por mês, Osváth mora perto da fronteira e passa o máximo de tempo que pode em Budapeste, onde moram os amigos e o parceiro, e onde ela deseja, eventualmente, constituir família.

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Em breve voltará para casa para começar a estagiar na cidade de Vác, ressalvou, "apesar de ganhar apenas um terço do que ganhava no exterior."

Osváth deve-se formar como psiquiatra em cinco anos e espera passar para o setor privado, que se tem tornado cada vez mais um refúgio para os profissionais de saúde.

“As maiores instituições privadas oferecem agora um ambiente de trabalho e qualidade semelhantes aos melhores hospitais privados austríacos ou alemães”, sublinhou Róbert Lancz, presidente do grupo privado de saúde Primus. O retorno de médicos húngaros que já trabalharam no exterior, como Osváth, “fortalece principalmente os grupos médicos dos operadores privados líderes de mercado”, acrescentou Lancz.

O Doktor24, um prestador de cuidados de saúde privado que co-pertence a Lancz, oferece uma vasta gama de serviços a preços elevados: uma consulta de cardiologia por 90 euros e uma cirurgia artroscópica do joelho a partir de mil euros. Esses preços geralmente estão fora do alcance do húngaro médio porque o salário médio é de 950 euros por mês. Mas para fazer uma operação ao joelho no serviço público, os doentes teriam de esperar um ano inteiro, de acordo com dados de março.

Como a remuneração no setor privado é mais atraente do que nos hospitais públicos, a lacuna entre o público e o privado está a aumentar, com uma parcela relativamente pequena da população a poder aceder aos cuidados de saúde privados. A maioria acaba por ficar refém de um sistema com profissionais sobrecarregados, unidades a fechar, paredes a cair aos pedaços e tempos de espera recorde.

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