Bruxelas analisará financiamento para UNRWA após investigação

Palestinianos manifestam-se em frente à sede da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) na cidade de Gaza
Palestinianos manifestam-se em frente à sede da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina (UNRWA) na cidade de Gaza Direitos de autor Khalil Hamra/AP
De  Mared Gwyn JonesIsabel Marques da Silva
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Artigo publicado originalmente em inglês

A Comissão Europeia analisará o financiamento para UNRWA após resultados de uma investigação, e não suspendeu o apoio porque não estão previstas transferências até final de fevereiro. Em causa estão alegações de que vário funcionários estiveram envolvidos no ataque do Hamas contra Israel.

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(Artigo atualizada com declaração de analista)

O executivo comunitário afirmou, segunda-feira, em comunicado que irá "determinar as próximas decisões de financiamento da UNRWA à luz das alegações muito graves" feitas em relação ao pessoal da UNRWA, agência das Nações Unidas de ajuda aos Refugiados Palestinianos, a operar desde 1949.

A Comissão Europeia solicita, também, que seja efectuada uma investigação a todo o pessoal da UNRWA, o mais rapidamente possível, para "confirmar que não participaram nos ataques".

"Pedimos, em primeiro lugar, que a organização leve a cabo a investigação que ela própria anunciou e, em segundo lugar, que aceite uma auditoria realizada por peritos independentes selecionados pela Comissão", afirmou o porta-voz da Comissão, Eric Mamer.

"Esperamos que a UNRWA autorize a realização desta auditoria independente", acrescentou.

Esta decisão surge após divulgação de que vários trabalhadores da UNRWA são suspeitos de alegadamente terem participado em ações ligadas ao ataque do Hamas contra Israel, a 7 de outubro, que causou a morte de mais de 1200 israelitas (e levou à captura de 240 reféns), desencadeando mais uma guerra na Faixa de Gaza, que já custou a vida a mais de 26 mil palestinianos.

De acordo com uma declaração do Departamento de Estado dos EUA, as alegações dizem respeito a doze funcionários da UNRWA.

Um dos funcionários é acusado de ter raptado uma mulher, enquanto outro terá participado num ataque a um kibutz que causou a morte de 97 pessoas, segundo o jornal norte-americano The New York Times.

O comissário europeu para o Alargamento e Vizinhança, Olivér Várhelyi, afirmou na rede social X que "não se vai manter tudo como antes" na sequência das alegações e que a UNRWA vai ser convidada a auditar os seus sistemas de controlo e a rever os seus mecanismos de proteção para poder obter mais financiamento da UE.

Sete Estados-membros da UE - incluindo a França, a Alemanha, a Itália e os Países Baixos - já anunciaram que vão suspender os pagamentos à UNRWA enquanto se aguardam as investigações.

O Secretário-Geral da ONU, António Guterres, apelou a estes países para que anulem as suas decisões, a fim de garantir que a ajuda vital continue a chegar à população civil na faixa de Gaza sitiada. Guterres argumentou que é urgente apurar se as pessoas acusadas cometerem os atos, mas que a agência em si está a fazer um trabalho crucial para a sobrevivência de centenas de milhares de pessoas.

“Embora compreenda as suas preocupações – fiquei horrorizado com estas acusações – apelo veementemente aos governos que suspenderam as suas contribuições para, pelo menos, garantirem a continuidade das operações da UNRWA", disse António Guterres, num comunicado, no domingo.

Os governos da Espanha, da Irlanda e do Luxemburgo anunciaram que continuarão a apoiar a agência para evitar pôr em perigo o seu funcionamento.

Dizer que não há dinheiro disponível até que tudo isto seja resolvido pode ser fatal, para a UNRWA, e fatal para muita gente em Gaza!
Joost R. Hiltermann
Analista, Grupo de Crise Internacional

Não estão previstas transferências até final de fevereiro

A UE é o maior doador de ajuda humanitária e de desenvolvimento à Faixa de Gaza, tendo quadruplicado a ajuda humanitária para mais de 100 milhões de euros desde o início da guerra entre Israel e o Hamas, em outubro.

Grande parte deste financiamento é canalizado através da UNRWA, que desde o início da guerra tem desempenhado um papel de liderança na prestação de ajuda aos habitantes de Gaza.

"A UNRWA é uma das agências da ONU que não tem um fundo de reserva. Portanto, basicamente funciona mês a mês. E mesmo antes de 7 de outubro, a UNRWA já soava o alarme sobre a escassez de fundos mês a mês", disse Joost R. Hiltermann, analista no centro de estudos Grupo de Crise Internacional, em entrevista à euronews.

"Após a crise após 7 de Outubro, as exigências dispararam devido à situação humanitária em Gaza. Portanto, neste momento, dizer que não há dinheiro disponível até que tudo isto seja resolvido pode ser fatal, para a UNRWA, e fatal para muita gente em Gaza!", acrescentou.

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Para o período de 2021 a 2023, a contribuição da UE para o orçamento do programa da UNRWA ascendeu a 281 milhões de euros.

O executivo da UE afirma que não está previsto qualquer financiamento adicional para a UNRWA até ao final de fevereiro e que a questão será revista "à luz dos resultados das investigações anunciadas pela ONU".

Reafirmou igualmente que a sua ajuda humanitária continuará "sem interrupções" através de organizações parceiras.

A Comissão Europeia suspendeu a sua ajuda ao desenvolvimento nos territórios palestinianos na sequência dos ataques do Hamas a Israel, em 7 de outubro, enquanto realizava uma auditoria para garantir que nenhum dinheiro da UE tinha chegado inadvertidamente às mãos de organizações terroristas.

Essa auditoria não detetou qualquer desvio de fundos para grupos terroristas, o que permitiu que a ajuda ao desenvolvimento voltasse a ser concedida.

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Mas o executivo pede agora à UNRWA que autorize "peritos externos independentes nomeados pela UE" a realizar uma auditoria à agência, a fim de reforçar os sistemas de controlo destinados a impedir que o pessoal participe em actividades terroristas.

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