Todos os países da UE (menos a Hungria) apelam a um cessar-fogo em Gaza

O ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Peter Szijjarto
O ministro dos Negócios Estrangeiros da Hungria, Peter Szijjarto Direitos de autor Denes Erdos/Copyright 2024 The AP. All rights reserved.
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De  Mared Gwyn Jones
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Artigo publicado originalmente em inglês

Todos os países da União Europeia, com exceção da Hungria, apelaram conjuntamente a um cessar-fogo em Gaza e instam Israel a não lançar o planeado ataque a Rafah.

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Budapeste recusou-se a subscrever o apelo, apesar da pressão de outras capitais, e também fez descarrilar sozinho o plano da UE de aplicar sanções coletivas aos colonos israelitas considerados violentos, apresentado pela primeira vez em dezembro, na sequência de uma nova vaga de ataques a palestinianos na Cisjordânia.

A decisão foi tomada depois de dez horas de intensas conversações entre os ministros dos Negócios Estrangeiros da UE, na segunda-feira, durante as quais o húngaro Péter Szijjártó se manteve firme e bloqueou o consenso sobre as duas questões.

Numa situação rara para o bloco, 26 dos 27 Estados-Membros isolaram a Hungria e emitiram a sua própria declaração, apelando a "uma pausa humanitária imediata que possa conduzir a um cessar-fogo sustentável" na sitiada Faixa de Gaza, onde cerca de 29 mil palestinianos perderam a vida desde o início da guerra.

UE pede a Israel para não fazer ofensiva em Rafah

As 26 nações também aprovaram uma declaração em que pedem ao governo israelita que não prossiga com a sua ação militar planeada na cidade de Rafah, no sul de Gaza, para onde mais de um milhão de palestinianos fugiram da guerra.

Um ataque a Rafah "agravaria uma situação humanitária já catastrófica e impediria a prestação urgente de serviços básicos e de assistência humanitária", lê-se na declaração.

O comunicado acrescenta uma pressão internacional significativa sobre o gabinete de guerra israelita para que se abstenha da sua planeada ofensiva terrestre em Rafah, que o primeiro-ministroBenjamin Netanyahu afirma albergar os últimos militantes do Hamas em Gaza.

Um membro do gabinete de guerra ameaçou na segunda-feira lançar a ofensiva se os restantes reféns detidos pelo Hamas em Gaza não forem libertados até ao Ramadão.

Mas a falta de apoio unânime às declarações sublinha ainda mais a luta contínua da UE para chegar a uma linha comum sobre o conflito no Médio Oriente.

"Sei muito bem que, se não houver unanimidade, não há uma posição comum da UE, mas pode haver uma posição apoiada por uma maioria suficiente", explicou o Alto Representante da UE para os Negócios Estrangeiros, Josep Borrell.

"Naturalmente, isso não reforça a nossa posição. A Europa só pode desempenhar um papel quando está unida", acrescentou.

Nos últimos meses, Budapeste tem ameaçado usar o seu poder de veto para atrasar ou fazer descarrilar completamente as decisões de política externa da UE.

Isto obrigou o Conselho Europeu a explorar formas criativas de contornar a Hungria. Em dezembro, o primeiro-ministro Viktor Orbán foi convidado a abandonar a sala de negociações do Conselho Europeu para permitir que os restantes chefes de Estado e de Governo aprovassem a abertura de negociações de adesão com a Ucrânia e a Moldávia sem a sua presença.

O bloco também foi forçado a adiar a aprovação do seu pacote de ajuda de 50 mil milhões de euros para a Ucrânia por cerca de sete semanas, depois de não ter conseguido obter concessões de Orbán em dezembro passado.

Sanções contra colonos atrasadas

Embora o Reino Unido e os Estados Unidos tenham sancionado os colonos israelitas extremistas por ataques a comunidades palestinianas já em dezembro, o plano do bloco foi adiado durante meses.

Alguns Estados-membros - nomeadamente a Chéquia e a Hungria - rejeitaram que os colonos fossem abrangidos pelo mesmo quadro de sanções que se aplica ao Hamas, designado como organização terrorista pela UE, receando que isso enviasse uma mensagem política enganadora.

"Não é um bom sinal político para os terroristas (...) estarem mais ou menos no mesmo pacote que as pessoas que cometem atos extremos com motivações políticas, mas que não podem, de forma alguma, ser comparados ao terrorismo", disse o ministro dos Negócios Estrangeiros checo, Jan Lipavský, antes da reunião de segunda-feira, sublinhando que o seu país não tinha bloqueado totalmente o pacote de sanções.

Depois da reunião, Lipavský disse que Praga não tinha "nenhum problema com o pacote em princípio", mas que um outro Estado-membro avançou e "simplesmente bloqueou todo o pacote de sanções contra os colonos".

Josep Borrell disse estar a pressionar os Estados-membros para que tomassem medidas contra aquilo a que chamou "ações terroristas" contra os palestinianos na Cisjordânia.

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Países tomam iniciativas individuais

"A Cisjordânia está a ferver e se não deixarem as pessoas ir às mesquitas durante as festividades, durante o Ramadão, a situação pode piorar ainda mais", afirmou Borrell.

Num sinal de esgotamento da paciência dos Estados-membros da UE, França impôs unilateralmente sanções aos colonos israelitas na passada terça-feira, impedindo a entrada em França de 28 indivíduos.

Bélgica, Irlanda e Espanha indicaram que também estariam preparados para introduzir as suas próprias sanções se o impasse na UE persistisse.

"Se não houver acordo, Espanha irá certamente avançar sozinha com estas sanções contra os colonos violentos", disse o ministro espanhol dos Negócios Estrangeiros, José Manuel Albares, na segunda-feira.

O ministro dos Negócios Estrangeiros irlandês, Micheál Martin, afirmou: "Se não conseguirmos unanimidade, estamos preparados para o fazer nós próprios, enquanto país. A Irlanda está e sei que outros também estão a pensar nisso".

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A ONU estima que a violência dos colonos israelitas tenha aumentado significativamente desde o início da guerra em Gaza, atingindo uma média de sete incidentes por dia, em comparação com três por dia antes dos ataques do Hamas a Israel, em 7 de outubro.

Durante o fim de semana, Borrell afirmou na Conferência de Segurança de Munique que a violência na Cisjordânia, devido à invasão do território palestiniano por israelitas extremistas, é o "verdadeiro obstáculo à solução dos dois Estados", a solução preferida pelo Ocidente para garantir uma paz duradoura e a segurança na região.

O bloco espera desempenhar um papel nas negociações para uma resolução pacífica do conflito, mas a sua credibilidade está a ser dificultada por divisões internas enraizadas entre os Estados-membros.

Borrell confirmou que o bloco vai continuar a "estudar como proceder" em relação às sanções contra os colonos israelitas, bem como contra os militantes do Hamas por "violações dos direitos humanos e violência sexual".

"A decisão é continuar a discutir sobre como proceder em ambos os casos", disse.

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