A ministra francesa das Forças Armadas disse à Euronews que, depois do que viu numa recente visita à Ucrânia, questiona se a Rússia quer mesmo a paz. Sublinhou, contudo, a importância de manter o diálogo com Moscovo.
Em entrevista à Euronews, a ministra francesa das Forças Armadas, Catherine Vautrin, questionou se a Rússia quer realmente um acordo de paz com a Ucrânia, tendo em conta os ataques contínuos lançados pelo Kremlin contra o país.
Na semana passada, Vautrin deslocou-se à Ucrânia pela primeira vez desde que assumiu funções, em outubro passado. Falou dos numerosos alertas que ouviu, a avisar de ataques iminentes, e das ofensivas que ocorreram durante a sua visita.
"Na noite em que viajei entre a Polónia e Kiev, houve alertas no oeste; registaram-se novos ataques para destruir infraestruturas energéticas e, no comboio de regresso a Lviv, também houve alertas, por isso isto é uma realidade quotidiana", explicou.
"Quando se é testemunha disto, quando vemos esta situação, perguntamo-nos se os russos querem mesmo a paz", acrescentou Vautrin.
Apesar disso, elogiou os esforços dos Estados Unidos, em conjunto com a Ucrânia, para manter conversações com a Rússia com vista a um acordo de paz.
Na semana passada realizaram-se conversações trilaterais em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, com o objetivo de pôr fim à guerra. Apesar de não ter sido anunciado qualquer avanço decisivo, o encontro de dois dias resultou num novo acordo de troca de prisioneiros e num entendimento sobre futuras negociações.
Após as conversações, o presidente ucraniano, Volodymyr Zelenskyy, afirmou que os Estados Unidos deram à Ucrânia e à Rússia um prazo até junho para chegarem a um acordo e que Kiev aceitou o convite norte-americano para um novo ciclo de negociações de paz na próxima semana. A Rússia ainda não respondeu.
Vautrin sublinhou a necessidade de os líderes europeus participarem nas futuras negociações. "Porque, como sabem, em particular com a ´Coligação dos Dispostos', estaremos presentes para garantir que, quando cessarem as hostilidades, for declarado um cessar-fogo ou, melhor ainda, for alcançado um acordo de paz, estaremos lá para garantir condições de segurança", explicou.
Mísseis são cruciais para a Ucrânia
Durante a visita à Ucrânia, Vautrin foi levada a ver as posições de combate das unidades de mísseis antiaéreos das forças armadas ucranianas e o sistema de dissuasão com mísseis do país.
Os mísseis são as armas de que a Ucrânia mais precisa, afirmou. "A questão é, de facto, a batalha nos céus. Foi a primeira coisa que o presidente Zelenskyy me pediu: transmitir a necessidade de mísseis", disse.
A ministra indicou ainda que o pedido de mais mísseis fez parte das discussões na reunião ministerial da NATO em Bruxelas, na quinta-feira.
"Juntamente com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, organizámos uma mesa-redonda com todos os ministros presentes, partindo da pergunta: como podem convencer o vosso primeiro-ministro a ir mais longe?"
Observou que o atual primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu, foi anteriormente ministro da Defesa e é um antigo militar.
Vautrin acrescentou que, por detrás deste esforço, está a necessidade fundamental de todos os países europeus "perceberem que defender a Ucrânia é defender a Europa".
"É importante que todos os europeus entendam que a segurança do continente está inquestionavelmente ligada à segurança da Ucrânia", afirmou.
A ministra francesa da Defesa rejeitou a ideia de que os repetidos alertas de altos responsáveis militares sobre uma eventual guerra com a Rússia sejam exageradamente alarmistas.
O chefe do Estado-Maior francês enfrentou acusações de incitamento à guerra depois de ter alertado que o país deve estar preparado para 'perder os seus filhos', face à ameaça colocada pela Rússia.
As declarações de Fabien Mandon, num discurso perante autarcas locais em novembro do ano passado, reavivaram o debate sobre até onde França e os seus aliados europeus devem estar preparados para ir no conflito na Ucrânia.
"A questão que se coloca quando temos um conflito no continente europeu é que temos de nos preparar para um conflito de alta intensidade", afirmou Vautrin. "A melhor forma de evitar um conflito é preparar-nos para ele, e é isso que estamos a fazer."