Com o seu veto "inaceitável" ao empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia, Viktor Orbán não está apenas a desafiar os seus colegas líderes. Está também a desafiar diretamente a autoridade e a credibilidade de António Costa enquanto presidente do Conselho Europeu.
Quando se trata do veto de Viktor Orbán, há um homem que é quem mais perde: António Costa.
A decisão explosiva do primeiro-ministro húngaro de bloquear o empréstimo de 90 mil milhões de euros à Ucrânia na última fase do processo representa o desafio mais formidável à autoridade e integridade de Costa enquanto presidente do Conselho Europeu.
As tensões chegaram ao auge durante a cimeira da semana passada, quando líder após líder, incluindo Costa, lançaram críticas ferozes contra Orbán por ter recuado no acordo que todos tinham conseguido cuidadosamente numa reunião de alto risco em dezembro.
"Ninguém pode chantagear o Conselho Europeu. Ninguém pode chantagear as instituições da União Europeia", afirmou Costa após as discussões.
"É completamente inaceitável o que a Hungria está a fazer. E este comportamento não pode ser aceite pelos líderes", acrescentou.
Foi uma intervenção extremamente dura do presidente do Conselho Europeu, conhecido pela sua personalidade afável e pelo seu sorriso perene.
Desde que assumiu o cargo no final de 2024, Costa, um dos poucos socialistas que restam numa mesa maioritariamente de direita, tem-se esforçado por desenvolver relações calorosas com todos os 27 chefes de Estado e de Governo. Este aspeto é fundamental para o seu cargo, que não tem poderes executivos e se dedica sobretudo a garantir a coesão e o consenso entre os líderes.
Enquanto presidente do Conselho Europeu, a principal tarefa de Costa é presidir às cimeiras regulares e defender as conclusões comuns que resumem as discussões à porta fechada. Para quem está de fora, estas conclusões podem parecer obsoletas e repetitivas, mas em Bruxelas são praticamente sacrossantas, pois definem a direção política e as prioridades de todo o bloco.
Em dezembro, Orbán deu explicitamente o seu consentimento ao empréstimo de 90 mil milhões de euros, na condição de o seu país ficar totalmente isento do empréstimo comum. A Eslováquia e a Chéquia dois aliados próximos, também beneficiaram da derrogação.
Um Costa triunfante anunciou então: "Comprometemo-nos, cumprimos".
Orbán, no entanto, apresentou agora uma exigência que nada tem a ver com o empréstimo: o restabelecimento total do fluxo de petróleo russo através do oleoduto de Druzhba - a Ucrânia diz que os danos são extensos e que as reparações podem demorar um mês e meio.
"Sem petróleo, não há dinheiro", disse Orbán, sem rodeios, na semana passada.
A alimentar a indignação está o facto de Orbán estar a usar o seu veto como uma alavanca extra para impulsionar a sua contundente campanha para a reeleição. O atual presidente está a dois dígitos à frente do seu rival mais jovem, Péter Magyar, nas sondagens de opinião que antecedem o escrutínio de 12 de abril.
O ousado ato de desafio coloca Costa perante uma dupla dor de cabeça, porque põe em causa tanto a validade das conclusões como a sua capacidade de as defender.
Em privado, os funcionários e diplomatas da UE criticam Orbán, mas receiam que o seu ultimato inédito possa abrir um precedente perigoso na forma como as decisões coletivas serão tomadas a partir de agora. Embora ninguém esteja a apontar o dedo especificamente a Costa, é o seu gabinete, enquanto garante máximo da unidade europeia, que corre o risco de ser deixado ao abandono.
"É um ponto de viragem", disse um diplomata sénior, que rejeitou a ideia de um plano B inventivo para contornar o húngaro. "Se falarmos de um plano B, estamos a ceder à sua exigência. E ninguém está disposto a ceder à chantagem".
Equilíbrio entre dois campos
Apesar de Costa insistir que o veto é "inaceitável", a realidade mostra que, para todos os efeitos, está a ser aceite - ou, pelo menos, tolerado com os dentes cerrados.
Nos dias imediatamente a seguir a Budapeste ter anunciadoo veto, Costa, juntamente com outros dirigentes, passou à ofensiva, atacando Orbán por violar o princípio da cooperação sincera que está na base da tomada de decisões coletivas.
Mas Bruxelas depressa se apercebeu de que não podia atacar frontalmente um Estado-membro. Afinal, admitiram os funcionários, com relutância, a Hungria e a Eslováquia continuam a ter direito a receber petróleo através de Druzhba, graças a uma derrogação excecional do regime de sanções.
Isto criou um bizarro ecrã dividido em que, por um lado, a UE pediu à Hungria que levantasse o seu veto ao empréstimo para apoiar a luta pela sobrevivência da Ucrânia e, por outro, a UE pediu à Ucrânia que reparasse um oleoduto que transporta petróleo russo que ajuda a financiar a invasão.
"As duas questões estão a ser tratadas como duas coisas diferentes, mas estão politicamente ligadas", disse um alto funcionário da UE.
A estratégia precária foi ainda mais testada quando Orbán prometeu "quebrar o bloqueio petrolífero ucraniano pela força" e presidente ucraniano Volodymyr Zelenskyy sugeriu que poderia dar o "discurso" de Orbán aos soldados ucranianos para precipitar uma mudança de opinião.
Bruxelas repreendeu Zelenskyy por ter ultrapassado os limites e implorouaos campos rivais que "abrandassem" a sua retórica de escalada. O dirigente ucraniano respondeu ao apelo e abrandou, ao passo que o húngaro se manteve firme nas suas alegações de interferência eleitoral.
Dias depois, António Costa, juntamente com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, enviou uma carta conjunta a Zelenskyy com uma oferta renovada: organizar uma inspeção externa a Druzhba e pagar a reconstrução do próprio bolso.
"Esperamos que a assistência da UE possa abrir caminho para ultrapassar o atual bloqueio e garantir a rápida reparação do oleoduto", escreveram. "Isto permitiria avançar atempadamente com o financiamento do empréstimo de apoio da UE à Ucrânia para a vossa própria estabilidade macroeconómica e para a aquisição de equipamento de defesa".
A proposta caiu por terra. Durante a última cimeira, Orbán rejeitou a inspeção externa, ignorou a reação dos outros líderes e manteve o seu veto, confirmando que a disputa se vai arrastar até às eleições de 12 de abril.
Costa e von der Leyen esforçam-se agora por encontrar uma solução que, ao mesmo tempo, agrade a Orbán, respeite a essência do acordo de dezembro e evite que Kiev fique sem ajuda externa na primavera. Uma tarefa difícil, para dizer o mínimo.
Dado que Orbán optou por difamar von der Leyen na sua campanha incendiária, excluindo-a como moderadora entre Bruxelas e Budapeste, Costa está efetivamente sozinho.
Levantar o veto húngaro tem tanto a ver com apoiar a Ucrânia como com salvar a credibilidade do Conselho Europeu e, por extensão, a sua própria credibilidade.
"O que é delicado para ele é que vem de um compromisso que não foi respeitado. E isso, para nossa memória, nunca aconteceu antes", disse outro diplomata.
"Trata-se de um verdadeiro desafio político e institucional".
Maïa De la Baume contribuiu para este artigo.