No Dia Internacional dos Capacetes Azuis, a Euronews dá a conhecer a história de um militar português que arrisca a vida em nome da paz.
“A paz não é apenas uma palavra, é uma missão concreta, muitas vezes cumprida em ambiente de risco”, começa por dizer à Euronews o tenente-coronel do Exército Luís Gomes, a propósito do Dia Internacional dos Soldados da Paz das Nações Unidas, também conhecido como Dia Internacional dos Capacetes Azuis, que se assinala esta sexta-feira, 29 de maio.
Há mais de 20 anos no Exército, Luís Gomes integrou a sua primeira missão de paz da ONU em 2019, ainda major, no âmbito da MINUSCA (Missão Multidimensional Integrada das Nações Unidas para a Estabilização na República Centro-Africana).
A MINUSCA foi criada em 2014, na sequência da crise iniciada em 2013 na República Centro-Africana (RCA), mas Portugal só começou a participar em 2017 com uma Força de Reação Rápida (Quick Reaction Force - QRF) das Nações Unidas, composta por paraquedistas e comandos. É o único país da União Europeia que envia militares no âmbito desta missão.
Ser um capacete azul “é uma grande responsabilidade”, relembra, não só pelo facto de representar o seu país e as suas Forças Armadas, mas sobretudo por representar os “princípios das Nações Unidas: paz, diálogo e cooperação entre os povos”.
Antes de integrar uma missão de paz, Luís Gomes já contava com inúmeras missões internacionais no âmbito da NATO, nomeadamente no Kosovo (2007-2008), Afeganistão (2012) ou Iraque (2015), onde foi um dos 30 militares portugueses numa missão de coligação com os EUA para combater o Estado Islâmico.
Apesar de estar habituado a cenários difíceis, o tenente-coronel reconhece as diferenças entre uma missão de paz e uma missão de combate. “A missão principal da ONU é a proteção dos civis e garantir a liberdade de movimentos. Já no âmbito da NATO, a missão é de combate, com ameaças reais e bem treinadas, no caso os Talibã”, esclarece.
Em 2018, quando foi desafiado pelo comandante para integrar a missão de paz na RCA, aceitou também porque “queria uma experiência diferente”. Apesar de o novo desafio o afastar durante seis meses da filha, então com dois anos.
“É sempre difícil, mas temos de saber equilibrar-nos emocionalmente e distinguir a vida pessoal da profissional”, diz.
A República Centro-Africana é um país com grande instabilidade política e vários grupos armados com interesses díspares. Tem uma área de cerca de 623 mil quilómetros quadrados, quase o tamanho de França, sua ex-colonizadora, sendo a maior parte do território coberta por florestas e savana.
“Sabia que era um ambiente muito volátil, difuso, complexo, ambíguo e incerto, em que nunca se sabe o que vai acontecer”, explicou.
Além dos vários grupos armados, o grupo privado Wagner atua no território a pedido do governo. O grupo russo guarda as minas de ouro e diamantes do país e ajuda a manter o presidente Faustin-Archange Touadéra no poder.
Depois de seis meses de treino e formação sobre a realidade histórica e geográfica do país, foram também definidas as capacidades específicas, os efetivos e o equipamento que o grupo português teria de assegurar.
Luís Gomes partiu para a República Centro-Africana em fevereiro de 2019 como Oficial de Ligação. “Eu passava muito tempo no Quartel-General, em ligação com as células de Estado-Maior da MINUSCA, por forma a perceber e transmitir também a intenção do comandante da Força”, explica.
“O contingente português, que é o que se chama ‘Quick Reaction Force’, tem a responsabilidade de atuar perante situações críticas, proteger civis, apoiar outras forças da missão e contribuir para a estabilidade no terreno”, acrescenta.
Estas características das forças portuguesas valeram-lhes o apelido de “Ronaldos”, dado pelo comandante da MINUSCA, à época o tenente-general Balla Keita.
“Nos morning briefings da MINUSCA dizia isso a brincar”, conta, lembrando que o comandante reconhecia grande competência e preparação ao grupo português. “Se tinha um problema no teatro de operações e nos empenhasse, ficava completamente descansado porque sabia que o problema ia ser resolvido”, diz.
Balla Keita veio a Portugal no final de 2018 visitar o Regimento de Comandos e, em entrevista à RTP, elogiou a participação dos capacetes azuis portugueses, dizendo que foram uma mais-valia e que, por isso, queria ver com os próprios olhos como trabalhavam.
“Tive de lhe mentir e dizer que estava tudo bem”
Luís Gomes tinha a responsabilidade das coordenações logísticas e humanas para cada operação e, em 2019, a situação era “muito crítica”, recorda, com necessidade de combater vários grupos armados com o objetivo de os dissuadir.
Foi numa deslocação para uma missão que ocorreu o episódio mais dramático que viveu numa missão de paz, curiosamente não relacionado com combate, mas com as emoções.
“Nós estávamos projetados no setor Oeste, numa projeção de 30 dias, e num dos movimentos logísticos para ir buscar combustível, um praça teve um acidente com o veículo e teve de ser amputado das duas pernas”, recorda.
“Custou-me muito ver um militar naquela situação. Um militar nosso, jovem, que tinha muitos sonhos para realizar, que adorava jogar futebol, e tudo isso foi um bocado impactante”, acrescenta.
Foi a partir do quartel-general, a 400 quilómetros de distância, e ainda sem saber se o soldado sobreviveria, que operacionalizou a retirada aérea do colega para o hospital de Bangui, porque no hospital mais próximo a equipa médica não tinha meios para fazer a cirurgia.
“Quem lhe salvou a vida foi a própria equipa de comandos, que fez os torniquetes adequados, na altura certa, para ele sobreviver”, destaca.
Já no hospital, o médico cirurgião, um cidadão sérvio, mostrou-lhe as radiografias, comunicou-lhe a decisão de amputar as pernas e disse-lhe: “Quando ele acordar do recobro, não lhe podes dizer a verdade”, recorda.
O soldado ferido teria de fazer uma viagem de avião, prontamente enviado pelas Forças Armadas, de Bangui para Portugal, para continuar o tratamento, e deveria estar emocionalmente estável. “Quando acordou, tive de lhe mentir e dizer-lhe que estava tudo bem. Claro que me afetou ter de lidar com aquela situação, mas faz parte do treino militar esta gestão emocional”, rematou.
“Enquanto estivemos lá, trouxemos-lhes felicidade”
A experiência do tenente-coronel como “capacete azul” não se ficou por aqui e, em 2025, integrou uma segunda missão de paz, também na República Centro-Africana, onde o Exército tem empenhado mais efetivos no contexto da ONU.
Luís Gomes foi como comandante da 16.ª Força Nacional Destacada, composta por 215 militares (204 homens e 11 mulheres), com o objetivo de garantir a segurança das populações durante o recenseamento eleitoral.
O contingente de Luís Gomes foi destacado durante três meses para a pequena cidade de Bossembélé, em Yaloké-Bossembélé, onde a presença nas ruas e a proximidade com as comunidades eram muito importantes. “Fizemos 168 patrulhas, percorremos quase 60 mil quilómetros em patrulha. Estávamos sempre presentes”, conta.
A componente humana e a empatia criada com as comunidades foram, para o tenente-coronel, o que mais se destacou.
“O contacto com a população civil é tão importante quanto a própria missão operacional, porque é através desta proximidade que vamos construir confiança e contribuir para a normalização da vida das pessoas”, diz.
Na zona onde atuaram estavam outras forças policiais e militares que, segundo o tenente-coronel, permaneciam maioritariamente dentro dos quartéis e não patrulhavam as ruas. Também por isso os capacetes azuis portugueses marcaram a diferença.
“Nós fazíamos patrulhas constantemente. Enquanto os centros de recenseamento estavam abertos, nós estávamos sempre a patrulhar”, lembra.
O legado militar português no país já é longo, com quase dez anos de presença em várias regiões da RCA, e as populações já começam a identificar os militares portugueses.
“Já conhecem a bandeira, já dizem ‘Ronaldo’ e os militares portugueses são muito bem vistos. Também nos distinguimos das outras forças pela proximidade e respeito pela população”, diz.
Luís Gomes sente que as pessoas viveram aquele período com mais felicidade e que o grupo conseguiu devolver-lhes um pouco de tranquilidade, algo que há muito não sentiam.
“As pessoas conseguiam ir às suas culturas sem terem problemas em ser roubadas pelos grupos armados. Conseguiram fazer a sua vida, o seu dia a dia normal”, relembra.
O militar recorda que, após os três meses, viu pessoas a chorar e a pedir para os portugueses não saírem daquela região. “A subprefeita da região, uma espécie de vice-presidente da Câmara, ligou ao Force Commander para deixar os portugueses naquela região”, conta.
O fim de uma missão de paz deixa nos capacetes azuis sentimentos contraditórios. Se, por um lado, há alguma tristeza por deixar as comunidades num ambiente que reconhecem como muito instável, por outro terminam com o sentimento de dever cumprido.
“Foi o único local de todo o recenseamento eleitoral da República Centro-Africana onde houve zero incidentes e isso, logicamente, também nos orgulha muito como militares portugueses”, conta.
O contingente voltou da missão há menos de um ano, a 17 de junho de 2025, com a perceção de ter ajudado a comunidade, o que é, para o tenente-coronel, “o maior sentimento de alegria”. “Enquanto estivemos lá, trouxemos-lhes felicidade, que é o maior prémio”, afirma.
Para quem contribui para a paz, o estado atual do mundo, marcado por vários conflitos geopolíticos, é lamentável.
“Vivemos na incerteza e na inquietude e não sabemos realmente como vai ser o futuro, ou até mesmo o dia de amanhã”, diz, acrescentando, como militar, que vivemos num tempo difuso. “O ambiente operacional é incerto, é ambíguo. Há novas tecnologias, há o mundo dos drones, agora é tudo muito complexo”, afirma.
“Eu fui treinado e preparado para a guerra e para a paz, mas logicamente ninguém gosta de ir para a guerra”, relembra.
Luís Gomes é tenente-coronel do Exército Português, no Regimento de Comandos, onde diz sentir-se em casa. Contudo, não fecha a porta a qualquer missão e voltará a servir os capacetes azuis sempre que necessário.
Atualmente, estão na República Centro-Africana 191 capacetes azuis portugueses da 18.ª Força Nacional Destacada, no âmbito da MINUSCA.
O ex-Presidente, Marcelo Rebelo de Sousa, como forma de reforçar o apoio às missões de paz, em que Portugal tem tido bastante empenho, realizou no final do seu mandato, em fevereiro, uma deslocação à República Centro-Africana acompanhado pelo ministro da Defesa Nacional, Nuno Melo.