A maior figura da história do século XX e herói da Resistência, Marc Bloch, vai ser homenageado no Panteão. Este é o primeiro historiador universitário a ser homenageado neste templo republicano.
Mais de oitenta anos após a sua morte, o francês Marc Bloch receberá a homenagem da nação no Panteão. A cerimónia, que terá lugar neste templo laico da memória nacional, vai assinalar o seu legado intelectual e o seu papel na luta contra os nazis.
Deste modo, Marc Bloch passará a ser o primeiro historiador a entrar no Panteão, honra reservada às figuras mais excecionais da política, da cultura e das ciências. "Uma formidável forma de reconhecimento", disse Suzette Bloch, neta do historiador e antiga jornalista da Agência France Presse.
No comunicado que anuncia o programa da cerimónia, o Eliseu descreve Marc Bloch como um "homem das Luzes no exército da sombra", em referência à Resistência francesa. "É um legado intelectual e republicano que leva ao Panteão".
Durante a cerimónia, que começa esta terça-feira às 21h em Paris, um caixão simbólico (os restos mortais de Marc Bloch encontram-se no cemitério de uma aldeia no centro de França) será trasladado para a antiga igreja do Bairro Latino da capital.
Os caixões vão conter as medalhas e fotografias de Bloch, bem como cartas da sua mulher aos filhos, precisou Suzette Bloch.
Combatente, historiador e resistente
Marc Bloch nasceu a 6 de julho de 1886 em Lyon, onde o pai era professor de História, numa família judaica da Alsácia que, após a anexação desta região em 1871 pelo Império alemão, optou por permanecer francesa por fidelidade à República.
O também professor de liceu foi mobilizado quando rebentou a Primeira Guerra Mundial. Recebeu a Cruz de Guerra e foi condecorado com a Legião de Honra, a mais alta distinção republicana, pelos feitos em combate.
De regresso à vida civil, torna-se professor de História Medieval na Faculdade de Estrasburgo, novamente francesa. Foi também cofundador da revista "Annales d’histoire économique et sociale" e revolucionou o estudo da História ao integrar-lhe a antropologia, a economia e a sociologia.
Com 53 anos, quando começou a Segunda Guerra Mundial, foi novamente mobilizado. A participação na Batalha do Norte valeu-lhe uma citação à ordem do corpo de exército. Testemunhando a derrota face ao exército alemão e o naufrágio da Terceira República, escreveu em 1940 "L’Étrange Défaite", que foi publicado em 1946.
Nesta obra, hoje estudada por todos os alunos de História e consagrada pela posteridade, Bloch descreveu o colapso militar e político de França. Encarado como um verdadeiro monumento literário, o texto analisa a falha militar e política de uma nação, ao mesmo tempo que revela os valores que irão moldar o seu compromisso futuro.
Torturado sob as ordens do "Carrasco de Lyon"
Após a chegada de Philippe Pétain ao poder, em junho de 1940, Marc Bloch é alvo da política antissemita do Estado francês sediado em Vichy. É privado dos seus direitos, perde a cátedra de professor na Sorbonne devido à sua origem judaica e é forçado à reforma.
Depois da ocupação de toda a França pelos nazis, em 1943, decide entrar, já perto dos 60 anos, na Resistência francesa, da qual se torna um dos dirigentes na região de Lyon.
Em março de 1944, a polícia de Vichy detém Bloch na capital das Gálias, na ponte de la Boucle, atualmente conhecida por ponte Winston-Churchill. Seguem-se vários dias de tortura, infligidos por ordem do chefe da Gestapo, Klaus Barbie, conhecido como o "Carrasco de Lyon" pela sua crueldade, na prisão de Montluc. O resistente não fornece qualquer informação útil.
A 16 de junho de 1944, dez dias após o desembarque das forças aliadas na Normandia, Marc Bloch é executado por agentes da Gestapo, juntamente com outros vinte e sete resistentes. A esposa, Simonne, cuja saúde se havia degradado, morreu a 2 de julho de 1944 no hospital de Lyon.
Mensagem política e risco de instrumentalização
A trasladação de Marc Bloch para o Panteão é uma reivindicação recorrente dos historiadores desde a redescoberta, em 1990, de "L’Étrange Défaite". Proposta por Emmanuel Macron, a sua entrada no Panteão foi aceite pela família com a condição de que o meio académico, os professores e os jovens fossem amplamente associados.
Foram, assim, organizadas duas vigílias fúnebres em frente da Escola Normal Superior, onde Marc Bloch foi aluno. Cerca de 700 jovens deverão assistir, na terça-feira, à cerimónia, aos pés do Panteão. Marc Bloch é o primeiro universitário historiador a ser intronizado no Panteão.
A cerimónia ganha um peso político a menos de um ano das eleições presidenciais francesas, que irão escolher o sucessor de Emmanuel Macron, numa altura em que o Rassemblement National, partido de extrema-direita de Marine Le Pen, reivindica uma futura chegada ao poder.
A família de Marc Bloch pediu que a extrema-direita, sob todas as suas formas, fosse excluída da cerimónia, invocando as posições "patriotas", mas "profundamente antinacionalistas" do historiador.
Embora o protocolo republicano imponha o convite a todos os eleitos, Marine Le Pen, que dirige o RN na Assembleia Nacional, não estará presente, indicou um membro da sua equipa.
A eurodeputada Sarah Knafo, do partido de extrema-direita Reconquête!, terá decidido ignorar os desejos dos descendentes de Marc Bloch e marcar presença na cerimónia. Em abril de 2025, o líder do seu partido, Éric Zemmour, foi condenado a uma multa de 10 mil euros por contestação de crime contra a humanidade, depois de ter defendido, em 2019, que o marechal Pétain "salvou os judeus franceses" durante a Segunda Guerra Mundial.