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Combater a pobreza infantil, um desafio da UE

De  Naomi Lloyd  & Fanny Gauret
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Combater a pobreza infantil, um desafio da UE
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O caso de Chipre

Ser pai ou mãe, mas não ter o essencial para dar ao bebé é uma situação desesperada. Fanny Gauret foi a Chipre, onde um projeto chamado Baby's Dowry - financiado com dinheiro da UE - está a ajudar os mais necessitados.

Em Chipre, onde a crescente economia é abalada pela crise sanitária, o caminho para erradicar a pobreza é ainda longo. Uma em cada três crianças é afetada, de acordo com a Rede Anti-Pobreza de Chipre. Um problema que Panayiota Christou, assistente social do projecto Baby's Dowry, enfrenta todos os dias. Seguimo-la para encontrar famílias em dificuldades financeiras.

"O programa Baby's Dowry é financiado tanto por Chipre, como pelo Fundo Europeu de Ajuda aos Pobres na Europa. O objetivo é ajudar as famílias com crianças menores de 2 anos, que enfrentam privação material e risco de pobreza e exclusão social", explica.

Em Temvria, perto de Nicósia, vivem Mario, soldado, e Kula, que costumava trabalhar a tempo parcial numa bomba de gasolina. A frágil situação financeira tornou-se precária com a chegada inesperada de trigémeos. Hoje recebem ajuda do programa Baby's Dowry, e sentem-se aliviados.

"Agora temos uma cama, uma banheira de bebé e um carrinho de bebé. Vai facilitar a nossa vida, para nós e para as crianças, para nos sentirmos mais confortáveis, e para o futuro, porque graças ao projeto, podemos poupar algum dinheiro e utilizá-lo quando as crianças crescerem", conta Kula.

O projeto é um passo em frente para enfrentar um problema social que continua a ser difícil de avaliar, como diz Panayiota: A pobreza infantil permanece escondida, secreta, não é óbvia, por isso devemos dar mais apoio às casas de acolhimento para melhorar as condições de vida das crianças.

A pobreza infantil permanece escondida.
Panayota Christou
Assistente social

Com um orçamento de 3,6 milhões de euros, o projeto Baby's Dowry ajudou cerca de 2000 famílias, como a de Kula e Mario. Esta família é um caso excepcional, já que muitos dos beneficiários são mães solteiras ou famílias de refugiados. Panayiota leva-nos a Nicósia, para nos encontrarmos com uma delas.

Esta família síria vive em condições difíceis. Quando chegaram a Chipre, Adel, agora entregador, teve dificuldades em encontrar trabalho. Vivia com a mulher, Heba, e o primeiro filho num apartamento insalubre: "Os objetos que recebi realmente ajudaram-me, quando não estava a trabalhar, não conseguia comprar fraldas para a minha filha", conta Adel.

Com as necessidades básicas dos filhos asseguradas, Adel foi então capaz de poupar dinheiro para a família e melhorar a sua situação profissional. Como consequência, hoje, Adel e Heba podem viver num apartamento decente, adaptado à família em crescimento: "Quando o Baby Dowry's nos deu o que precisávamos, fiquei tão feliz. É muito melhor para os nossos filhos, podem viver como as outras crianças, ter o que precisam, é muito bom para a vida deles agora e no futuro", diz Heba.

Permitir às crianças o acesso aos serviços básicos para o seu desenvolvimento e bem-estar: Este é o objetivo da Garantia Europeia para as Crianças. A ministra do Trabalho de Portugal, país que ocupa a presidência rotativa da UE, explica: "O que queremos garantir é que existe uma abordagem global integrada para abordar as diferentes necessidades das crianças, em termos de habitação, educação, cuidados e saúde, garantindo que cada Estado membro tenha um plano nacional, com um objetivo concreto, e depois um compromisso para abordar e ter uma resposta específica para as crianças necessitadas nas diferentes áreas. Só assim podemos garantir a igualdade de oportunidades a todas as crianças na Europa", diz Ana Mendes Godinho.

Cada Estado-membro tem de ter um plano nacional com um objectivo concreto (...) Só assim podemos garantir a igualdade de oportunidades a todas as crianças na Europa.
Ana Mendes Godinho
Ministra do Trabalho (Portugal)

Uma vez esta garantia adotada pelo Conselho Europeu, os Estados-membros terão de preparar os planos de ação, na esperança de acabar com a pobreza infantil.

Entrevista

O que é preciso fazer para acabar com a pobreza infantil em Chipre e em toda a Europa? Falámos com Jana Hainsworth, a Secretária-Geral da Eurochild - uma rede de organizações que trabalham com crianças vulneráveis em todo o continente.

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Jana Hainsworth com a jornalista Naomi Lloydeuronews

Naomi Lloyd, Euronews: Obrigada por estar no Real Economy. Pode dar-nos uma imagem de quanta pobreza infantil existe na Europa?

Jana Hainsworth, Secretária-Geral, Eurochild: Os únicos números que temos são de antes da pandemia e, nessa altura, havia quase uma em cada quatro crianças a crescer na pobreza na União Europeia, o que é bastante dramático numa região tão rica como a Europa.

A pandemia, evidentemente, exacerbou os níveis de pobreza infantil. Quão má é a situação neste momento?

Os nossos membros relatam dificuldades bastante significativas em toda a Europa, temos visto um aumento notável na utilização de bancos alimentares. Assistimos a problemas de desalojamento familiar e o impacto nas crianças é bastante draconiano, além de que as crianças perdem as redes. Há um grande impacto nas crianças, porque não conseguem aceder à escola.

O que pensa sobre a promessa de uma Garantia Europeia da Criança?

A Iniciativa Europeia de Garantia à Criança é muito promissora. É muito ambiciosa e penso que tem a intenção certa de dar prioridade ao investimento nas crianças. O desafio para nós é que isto não permaneça um compromisso no papel. Um bom exemplo pode ser encontrado na Irlanda, onde têm uma estratégia a longo prazo para combater a pobreza infantil e a exclusão social, têm um alvo. É também um país onde há um ministro para as crianças.

A Iniciativa Europeia de Garantia à Criança é muito promissora. É muito ambiciosa e penso que tem a intenção certa de dar prioridade ao investimento nas crianças.
Jana Hainsworth
Secretária-geral, Eurochild

Ao olharmos para a recuperação desta crise muito profunda, precisamos de pensar numa recuperação inclusiva e, se dermos prioridade às crianças, estamos a criar um futuro mais sustentável e mais inclusivo.

Nome do jornalista • Ricardo Figueira

Outras fontes • Imagem: Pierre Holland, Jorne Van Damme (Bruxelas), Vincent Kelner (Paris), Mathieu Rocher (Chipre), Samuel Andrês (Lisboa); Som: Michel Damblant (Paris)