Paris Hilton, socialite e herdeira da cadeia de hotéis Hilton, juntou-se à congressista Alexandria Ocasio-Cortez para pedir leis que protejam vítimas de pornografia deepfake com IA
Um vídeo sexual divulgado sem o seu consentimento ajudou a tornar Paris Hilton um nome conhecido no início dos anos 2000.
A herdeira do império hoteleiro e empresária comparou o que então lhe aconteceu à crise, cada vez mais grave, da pornografia deepfake com inteligência artificial (IA) que hoje visa mulheres e raparigas em todo o mundo.
Nas últimas semanas, reguladores em todo o mundo têm reagido com urgência a uma vaga crescente de deepfakes sexualmente explícitos que visam mulheres e menores sem consentimento, com o chatbot Grok, de Elon Musk, no centro da polémica.
Em resposta a pedidos de utilizadores, o Grok gerou centenas de milhares de imagens que “despem” mulheres reais e, nalguns casos, raparigas. Embora a xAI tenha afirmado ter “implementado medidas tecnológicas” para impedir o chatbot de editar estas imagens, investigadores concluíram que essas salvaguardas podiam ser contornadas.
“A pornografia deepfake tornou-se uma epidemia”, disse Hilton a uma multidão à porta do Capitólio, em Washington, na quinta-feira. “É a forma mais recente de vitimização em larga escala, às vossas filhas, irmãs, amigas e vizinhas.”
Tinha 19 anos quando um vídeo íntimo seu se espalhou na internet como fogo em mato seco, catapultando-a para a infâmia numa era marcada por tabloides predatórios que exploravam jovens mulheres sob os holofotes.
“Muita gente chamou-lhe um escândalo. Não foi. Foi abuso. Na altura, não havia leis que me protegessem, nem sequer havia palavras para o que me fizeram”, disse Hilton, falando publicamente pela primeira vez sobre o incidente de 2004.
“Perdi o controlo sobre o meu corpo e a minha reputação. Roubaram-me a sensação de segurança e a autoestima, e lutei muito para as recuperar”, acrescentou.
Aos 44 anos, disse querer agora usar a sua história para ajudar outras jovens mulheres e raparigas que estão a ser exploradas online por agressores que recorrem a ferramentas de IA.
Por isso, afirmou ter-se juntado às deputadas norte-americanas Alexandria Ocasio-Cortez e Laurel Lee para defender a lei Disrupt Explicit Forged Images and Non-Consensual Edits (DEFIANCE).
O projeto, aprovado por unanimidade no Senado na semana passada e que agora tem de ser apreciado pela Câmara dos Representantes, conferiria às vítimas de deepfakes gerados por IA uma via legal para processarem os agressores.
“Isto não é apenas tecnologia, é poder”, disse Hilton. “É alguém usar a imagem de outra pessoa para a humilhar, silenciar e tirar-lhe a dignidade. Mas as vítimas merecem mais do que pedidos de desculpa a posteriori. Merecem justiça.”
Hilton disse também ter sido visada por 100 mil deepfakes sexualizados com IA.
“Nenhum é real, nenhum é consensual. E sempre que surge um novo, regressa aquela sensação horrível, o medo de que alguém, algures, o esteja a ver neste momento e pense que é real”, disse.
Travar ferramentas de IA abusivas
A Lei DEFIANCE surge na sequência da Lei TAKE IT DOWN, promulgada em maio de 2025 como a primeira lei federal dos EUA a limitar o uso de IA de formas potencialmente prejudiciais para as pessoas.
A TAKE IT DOWN, sigla de “Tools to Address Known Exploitation by Immobilising Technological Deepfakes on Websites and Networks Act”, obriga as plataformas online a removerem imagens íntimas não autorizadas e deepfakes quando notificadas. Entra em vigor em maio de 2026.
“A TAKE IT DOWN deu-nos remoção, e a DEFIANCE dará resposta e reparação”, disse Ocasio-Cortez, copatrocinadora da Lei DEFIANCE.
“Quando a lei for assinada, e será assinada, os sobreviventes poderão responsabilizar os agressores e pedir indemnizações financeiras e por danos reputacionais pelos prejuízos causados”, acrescentou.
Bipartidária, a Lei DEFIANCE dará aos sobreviventes o direito de processar quem, sabendo-o, produza, distribua, solicite ou receba falsificações digitais sexualmente explícitas sem consentimento. Abrange também quem detenha esse conteúdo com intenção de o distribuir.
Na Europa, o Regulamento dos Serviços Digitais (DSA) e a Lei da IA oferecem alguma proteção contra deepfakes, ao exigirem que as plataformas assinalem conteúdo gerado por IA. A pornografia deepfake não é abordada explicitamente, ficando a aplicação a cargo de cada Estado-Membro.
Países como França, Dinamarca e o Reino Unido aprovaram leisque protegem as vítimas de deepfakes sexualmente explícitos – visando os distribuidores de deepfakes não consensuais com coimas elevadas e até penas de prisão.