“Seja pioneiro, não dinossauro”: explorador suíço Bertrand Piccard aposta em voos a hidrogénio para inspirar nova geração
Um avião a hidrogénio que pretende dar a volta ao mundo sem paragens e com emissões zero leva uma missão, e também uma mensagem de esperança sobre a sustentabilidade, aos mais jovens.
O explorador suíço Bertrand Piccard, que realizou o primeiro voo à volta do mundo alimentado a energia solar e foi o primeiro a completar uma volta ao globo sem escalas num balão, afirma que o seu mais recente projeto a hidrogénio está prestes a ficar concluído e que os primeiros voos de teste estão previstos para o início de 2027.
O projeto, desenvolvido através da Fundação Solar Impulse, tem duas ambições. A primeira é demonstrar que o hidrogénio pode alimentar uma volta completa à Terra sem qualquer escala e sem emitir um único grama de carbono.
A segunda é transmitir uma mensagem de esperança para o futuro: um em que se possa voar sem prejudicar o planeta.
"Queremos mostrar aos jovens que há soluções, que há futuro, mas que agora é preciso recuperar o espírito pioneiro", disse Piccard ao Euronews Next.
O explorador considera que o ambientalismo foi prejudicado pela própria mensagem e que décadas a apresentar a ação ecológica como algo caro, restritivo e baseado no sacrifício provocaram uma reação que permitiu às forças económicas e políticas empurrar as preocupações climáticas para segundo plano.
"Muita gente apresentou a ecologia como algo desagradável, caro, sacrificial, algo que faz encolher a economia, que reduz a mobilidade", afirmou Piccard.
"E ninguém quer isso. Com uma narrativa tão pouco inspiradora, é evidente que houve uma reação."
Para si, a solução não passa por abandonar a ambição ecológica, mas sim por a redefinir como um motor essencial de inovação e prosperidade.
A Fundação Solar Impulse já certificou 1 650 soluções limpas e rentáveis, como prova de que a sustentabilidade e o crescimento económico não são incompatíveis.
"Acho que temos de cortar a cabeça a essa narrativa, mas não podemos cortar a cabeça à ecologia em geral. Porque a ecologia pode ser entusiasmante. Pode ser economicamente rentável. Pode abrir novos mercados para as empresas", disse Piccard.
IA e sustentabilidade
Desde o aparecimento da inteligência artificial generativa em 2022 e com a perda de protagonismo da sustentabilidade no setor tecnológico, Piccard traça uma distinção clara entre dois futuros possíveis.
Num dos cenários, a IA pode otimizar redes elétricas e eliminar desperdícios; no outro, alimenta aplicações desnecessárias, como destacou, desde transmissões de vídeo mais rápidas a jogos com resolução ainda mais elevada.
Alertou que este último cenário exigiria enormes novos centros de dados e anularia quaisquer ganhos ambientais.
"Todo o impacto positivo que poderíamos ter no ambiente pode ser completamente anulado por utilizações desnecessárias, mal concebidas, com tecnologias poluentes", afirmou Piccard.
Sobre os centros de dados que alimentam a IA, explicou que a forma como são construídos e arrefecidos é um teste à pegada ambiental da inteligência artificial. Arrefecer servidores com ar condicionado ou água de rio desperdiça enormes quantidades de energia, mas canalizar esse calor residual para aquecer cidades próximas permitiria usar a mesma energia duas vezes e reduzir simultaneamente custos e emissões.
Mas a decisão sobre a forma como a IA é utilizada cabe, em última análise, à humanidade.
"Não é a IA que é boa ou má, é o utilizador que será sensato ou perigoso. O que fará a humanidade com ela?", questionou.
Quanto a quem deve orientar o rumo da IA, Piccard defende que sejam os governos, e não as empresas tecnológicas, acrescentando que a Europa deve e pode manter a posição, apesar das pressões por parte de parceiros comerciais.
"Os entusiastas da tecnologia irão sempre longe de mais, porque o objetivo deles é a tecnologia, não a qualidade de vida da humanidade", afirmou.
"Quem é responsável por isso são os governos, as instituições, as ONG. Têm de fazer ouvir a sua voz mais alto do que os entusiastas da tecnologia."
Passar a mensagem verde
Passar a mensagem ecológica às gerações mais novas já está em marcha.
Uma parceria com a Universidade Politécnica Mohammed VI, em Marrocos, posiciona o país como porta de entrada para estudantes de todo o continente africano, explicou Piccard. Quando o avião estiver no ar, planeia falar em direto com alunos das escolas a partir do cockpit, enquanto o aparelho circunda a Terra.
"Se, numa manhã qualquer, dissermos que queremos falar com todas as escolas, ninguém responde", explicou.
"Se dissermos que vamos falar com estudantes a partir do cockpit de um avião que dá a volta ao mundo a hidrogénio, todas as portas se abrem."
O projeto de circum-navegação acaba, no fundo, por colocar as questões nas mãos da próxima geração.
"Queres ser um pioneiro, alguém que acredita que pode alcançar algo diferente? Ou queres ser um dinossauro, a tentar viver do passado e a desaparecer?", perguntou.