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«Maior economia de sempre»? Números por trás da fanfarronice de Trump

Presidente Donald Trump profere o discurso sobre o Estado da União perante sessão conjunta do Congresso, no Capitólio, em Washington, terça-feira, 24 de fevereiro de 2026
Presidente Donald Trump profere o discurso do Estado da União perante sessão conjunta do Congresso, no Capitólio, em Washington, terça-feira, 24 fev. 2026 Direitos de autor  AP Photo/J. Scott Applewhite
Direitos de autor AP Photo/J. Scott Applewhite
De Quirino Mealha
Publicado a Últimas notícias
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Trump elogiou a “melhor economia de sempre” no discurso do Estado da União de terça-feira, tentando soar sensível aos custos de vida, mas os dados contam outra história.

No discurso do Estado da União de terça-feira, o Presidente Trump reclamou para si os aparentes grandes ganhos económicos e vitórias em política externa.

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A intervenção anual concentrou-se sobretudo na economia e, em particular, no custo de vida, algo que os republicanos saudaram como "no que ele deve mesmo insistir".

Mas os elogios à economia, combinados com a clara preocupação em responder às dificuldades financeiras do agregado familiar médio, não batem certo.

Além disso, as sondagens recentes e os dados económicos não corroboram o retrato triunfalista traçado por Trump.

A mais recente radiografia oficial da economia dos EUA chegou na sexta-feira passada, no mesmo dia em que o Supremo Tribunal anulou a maior parte das tarifas do Presidente Trump.

O Bureau of Economic Analysis (BEA) divulgou a estimativa preliminar para o PIB real do quarto trimestre do ano passado, fixando o crescimento real anualizado em apenas 1,4%, muito abaixo das previsões, que apontavam para cerca de 2,5%, e uma forte desaceleração face aos 4,4% registados no terceiro trimestre.

Em termos anuais, o PIB real cresceu 2,2% em 2025, abaixo dos 2,8% de 2024.

Mesmo assim, o próprio BEA apressou-se a assinalar uma ressalva importante: o encerramento parcial da administração federal em outubro-novembro de 2025, o mais longo da história dos EUA, retirou, por si só, cerca de 1 ponto percentual ao crescimento do quarto trimestre.

Pouco mais de meia hora antes da divulgação dos números do BEA, Trump escreveu também no Truth Social, aparentemente consciente de que os dados seriam menos favoráveis, afirmando que o impacto negativo do shutdown tinha sido o dobro do estimado.

"O encerramento provocado pelos democratas custou aos EUA pelo menos dois pontos de PIB. Chega de shutdowns!", escreveu o Presidente Trump.

O modelo de previsão GDPNow da Reserva Federal de Atlanta aponta para um crescimento de 3,1% no primeiro trimestre de 2026, sugerindo que a economia norte-americana pode estar a recuperar à medida que se diluem os efeitos do encerramento da administração.

Ano resiliente, mas pouco brilhante

Segundo dados do Bureau of Labor Statistics (BLS), a expansão do mercado de trabalho dos EUA no ano passado foi particularmente fraca. A economia criou, em média, apenas 15 000 postos de trabalho mensais no setor não agrícola em 2025, contra 168 000 no ano anterior.

A revisão de referência do BLS, juntamente com o relatório de emprego de janeiro de 2026, divulgado este mês, eliminou um total de 862 000 postos que tinham sido inicialmente atribuídos ao período até março de 2025.

Em janeiro, contudo, surgiu um número mais positivo: foram criados 130 000 empregos, bem acima da previsão consensual de 55 000 e o melhor valor mensal desde dezembro de 2024. No total, a taxa de desemprego recuou para 4,3%.

No Truth Social, Trump publicou "EXCELENTES NÚMEROS DO EMPREGO, MUITO MELHORES DO QUE O ESPERADO!" e, face a um ano em que o mercado de trabalho praticamente estagnou, o resultado de janeiro foi, de facto, um sinal encorajador.

Vice-presidente JD Vance sublinha compromisso da administração em baixar preços, aumentar salários e criar mais empregos bem remunerados no Ohio, jan. 2026
Vice-presidente JD Vance sublinha compromisso da administração em baixar preços, aumentar salários e criar mais empregos bem remunerados no Ohio, jan. 2026 Jeremy Wadsworth/The Blade via AP

Um dos pontos que Trump mencionou, mas não desenvolveu no discurso do Estado da União desta terça-feira, foi o futuro da função pública federal.

O BLS confirmou que, desde o pico atingido em outubro de 2024, o número de funcionários federais diminuiu em 327 000, o equivalente a 10,9%.

Só em janeiro de 2026, mais 34 000 trabalhadores federais saíram das folhas salariais, à medida que funcionários que tinham aceite propostas de demissão diferida em 2025 deixaram formalmente o serviço público.

Esta evolução resulta de esforços deliberados da atual administração norte-americana para cortar postos no setor público federal.

"Não me sinto mal com isso, porque agora estão a arranjar empregos no setor privado e, por vezes, recebem o dobro, o triplo do dinheiro", tem defendido Trump repetidamente.

Só que, até agora, os dados do emprego não confirmam essa narrativa.

Terramoto das tarifas

Apesar do retrato interno que Trump quis traçar no discurso do Estado da União, esse discurso ficou ensombrado pela decisão de sexta-feira passada do Supremo Tribunal, por 6 votos contra 3, contra as suas tarifas.

A decisão anulou impostos sobre importações que, segundo números da própria administração norte-americana, tinham gerado até dezembro de 2025 cerca de 129 mil milhões de dólares (109 mil milhões de euros) em receitas especificamente associadas ao IEEPA.

Além disso, continua em aberto a questão de saber se os importadores têm direito a reembolsos.

O secretário do Tesouro, Scott Bessent, afirmou no fim de semana que eventuais reembolsos terão de ser decididos pelos tribunais e que a administração Trump não avançará de forma unilateral.

Horas depois da decisão, Trump invocou a Secção 122 da Lei do Comércio de 1974, uma disposição raramente utilizada, para impor uma tarifa aduaneira geral de 10% sobre importações de todos os países. No dia seguinte, esse valor foi revisto em alta até ao máximo de 15%.

Ainda assim, a tarifa entra em vigor esta terça-feira nos 10% e mantém-se durante 150 dias, até 24 de julho de 2026, altura em que passará a necessitar de aprovação do Congresso para continuar em vigor.

Uma longa lista de isenções abrange produtos energéticos, minerais críticos, produtos farmacêuticos, veículos ligeiros de passageiros, livros e bens agrícolas, incluindo carne de vaca e tomates.

O Council on Foreign Relations, um think tank norte-americano, salientou que, sem as tarifas ao abrigo do IEEPA, os consumidores enfrentam agora uma tarifa efetiva média de 9,1%, a mais elevada desde 1946, excluindo o ano passado.

Juristas antecipam que o recurso à Secção 122 enfrente também desafios nos tribunais, uma vez que o diploma foi concebido para "emergências da balança de pagamentos" de curto prazo e não como um instrumento amplo de política comercial.

Uma sondagem da Associated Press, divulgada este mês em parceria com o NORC da Universidade de Chicago, concluiu que apenas 39% dos norte-americanos aprovam a forma como Trump está a gerir a economia.

Já 59% desaprovam, uma inversão acentuada face à vantagem política de que o então candidato desfrutava neste tema à entrada das eleições de 2024.

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