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Ahmad Salamatian: "o elemento de segurança militar prevalece no Irão"

Ahmad Salamatian: "o elemento de segurança militar prevalece no Irão"
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As nonas eleições parlamentares pós-revolucionárias no Irão vão decorrer, apesar da oposição boicotar de forma maciça o escrutínio. No entanto, mesmo sem um boicote, muitas candidaturas teriam sido rejeitadas.

Para falar da importância destas eleições, entrevistámos Ahmad Salamatian, especialista do Irão em Paris.

Euronews – Senhor Salamatian, estas eleições são, de facto, disputadas pelos grupos com representação no sistema. Tendo em conta a dinâmica das forças políticas que ideia podemos ter delas?

Ahmad Salamatian – Muito tempo antes das eleições, vários altos representantes da República Islâmica, e o próprio líder, afirmaram que o escrutínio é, acima de tudo, um desafio em termos de segurança. Tendo em conta este ponto de vista, o papel dos militares e dos organismos de segurança, muitos deles provenientes das unidades militares dos Guardas da Revolução, foi reforçado. Por isso, podemos dizer que nestas eleições, como o regime da República Islâmica ainda mantém a sua natureza fragmentária, a luta pelo poder principal é entre as forças de segurança e entre os militares que estão a organizar estas eleições e, naturalmente, a quem vai ser dada uma fatia maior em termos de resultados.

Consequentemente, podemos dizer que o futuro parlamento é, mais do que nunca, um parlamento derivado dos orgãos de segurança e das fações políticas mais próximos dos Guardas da Revolução, mais do que os outros aspetos como as tendências religiosas ou ideológicas.

euronews – O sistema parlamentar iraniano tem tido muitos altos e baixos desde que a câmara dos representantes foi fundada. Neste processo, como é que avalia as próximas eleições?

Ahmad Salamatian – Os poderes do parlamento foram reduzidos de tal maneira que até Ahmadinejad não teve quaisquer problemas em desafiar o famoso discurso do Ayatollá Khomeini e dizer que o parlamento deixou de estar acima de todos os assuntos. O Ayatollá Khomeini tem uma frase célebre em que diz que “o parlamento está a cima de todos os assuntos. Mas a experiência tem mostrado que quando o elemento de segurança militar prevalece, mesmo que seja apenas na fase inicial de formação do parlamento, tudo se torna mais problemático.

Na minha opinião, o futuro parlamento vai utilizar ferramentas e ter um comportamento de uma natureza mais militar e securitária do que política. Por isso, nos próximos meses, podemos dizer que este parlamento vai transformar-se num palco de lutas de poder entre as influentes fações apoiadas pelos militares e pelas forças de segurança da República Islâmica.

euronews – Tendo em conta a atual tensão entre o Irão e o ocidente sobre o programa nuclear iraniano, considera que o resultado das próximas eleições vai alterar alguma coisa na política externa iraniana?

Ahmad Salamarian – Infelizmente, quando os organismos militares e de segurança são levados a tomar decisões durante crises internacionais e as suas opiniões são dadas como preferenciais, a tensão acaba sempre por aumentar. Por este motivo, o potencial para que o parlamento ponha um termo a crises internacionais é menor. Isto vai criar uma situação mais complicada e perigosa em termos de ameaças existentes contra o Irão. É evidente que um parlamento com um orientação militar e securitária não tem a visão política necessária para resolver crises internacionais através do diálogo e na prática acaba por levar a um aumento dos problemas e da crise no Irão e na região.