Última hora

Última hora

Jean-Claude Juncker: "nenhum país será membro da UE se não resolver os conflitos de fronteira"

Em leitura:

Jean-Claude Juncker: "nenhum país será membro da UE se não resolver os conflitos de fronteira"

Jean-Claude Juncker: "nenhum país será membro da UE se não resolver os conflitos de fronteira"
Tamanho do texto Aa Aa

Em 2014, os lideres da União Europeia não podiam imaginar um novo alargamento, perante um forte euroceticismo, o risco do Brexit e a crise na zona euro. Quatro anos depois, em 2018, Bruxelas abre as portas à adesão de seis países dos Balcãs.

Eles sabem muito bem que não faz sentido escolher diferentes caminhos, só há um caminho.

O presidente da Comissão Europeia, Jean-Claude Junker visitou os seis candidatos e deu-nos uma entrevista em Sófia, última paragem do seu périplo.

Euronews: Vamos começar pelos dois países mais bem colocados no processo de adesão, a Sérvia e o Montenegro. Quais são as possibilidades reais de adesão à UE tendo em conta os conflitos que existem atualmente?

Jean-Claude Juncker: Não estamos a discutir datas, nem o fim das coisas, estamos a discutir o processo. Tentei explicar aos governos da região que todas as condições e critérios de adesão devem ser respeitados. Isso ainda não acontece, leva tempo.
A data referida, 2025, é uma possibilidade, não é uma promessa. É preciso perceber que na velha Europa, no oeste da Europa, há um cansaço no que toca ao alargamento da União Europeia, nomeadamente em relação à adesão da Sérvia e do Montenegro. Mas eles estão a fazer as coisas bem e temos de ajudá-los.

Euronews: Mas há outro fator. A Sérvia tem uma relação próxima com Moscovo e a Rússia está bem presente na região. O ministro Lavrov visita a região. Recentemente, esteve na Sérvia e disse que exigir uma escolha à Sérvia é repetir o erro cometido na Ucrânia. Na sua opinião, há uma escolha a fazer?

Jean-Claude Juncker: Não há comparação possível entre a Sérvia e a Ucrânia. Em segundo lugar, expliquei aos meus colegas da região que a construção europeia não se faz contra os outros. É um processo de integração. Não pedi aos sérvios para fazer uma escolha porque eles devem ter relações normais com a Rússia e têm as melhores relações possíveis com a União Europeia.

Euronews: Mas está a pedir-lhes para que alinhem a sua política externa com a da União, incluindo na questão das sanções à Rússia devido ao que se passou na Crimeia ?

Jean-Claude Juncker: Todos os parceiros na região estão alinhados com a nossa política externa mas os sérvios têm uma posição diferente porque não participam no processo de sanções. Quando ficarem mais próximos da União Europeia terão de alinhar connosco, mas, essa questão não se coloca agora.

Euronews: Vamos falar dos outros países que esperam aderir um dia à União Europeia, a Antiga República Jugoslava da Macedónia e a Albânia. Falou com os líderes dos dois países. Que mensagens recebeu?

Jean-Claude Juncker: A minha mensagem na região e, em particular, para os dois países que mencionou é que nenhum país será membro da União Europeia sem resolver os conflitos de fronteiras. Eles têm de por ordem na região. Não vamos importar a instabilidade do oeste dos Balcãs, mas, queremos exportar a nossa estabilidade. Os países que querem ser membros da União Europeia têm de resolver os conflitos de fronteiras e há muitos problemas de fronteiras na região.

Euronews: Escópia tem um velho conflito com a Grécia sobre o nome do país. Atualmente, há negociações entre os dois países. Qual é o papel da União Europeia nessa negociação? Estão a pressioná-los ? Pensa que há agora uma boa oportunidade para resolver a questão?

Jean-Claude Juncker: A pressão não faz parte das nossas ferramentas. Encorajamos os gregos e a Antiga República Jugoslava da Macedónia para que encontrem um acordo entre eles em relação ao nome. Eles estão a negociar, nós não interferimos.

Euronews: Os gregos pedem ao país vizinho que retire da sua constituição termos de cariz irredentista. Acha que é um pedido justo tendo em conta os problemas de fronteiras na região?

Jean-Claude Juncker: Não interferimos na negociação entre a Grécia e a Antiga República Jugoslava da Macedónia.

Euronews: Há a questão da influência da Turquia na região, no Kosovo, na Albânia e na Bósnia. Os interesses de Erdogan na região são compatíveis com os da UE?

Jean-Claude Juncker: A Turquia desempenha um papel mas esse papel não é tão importante como alguns pensam. Os nossos parceiros na região sabem que seguimos de perto o que passa.

Euronews: Não tem a impressão de que se não der aos parceiros algo mais, eles procurarão outros parceiros, como a Rússia e a Turquia ?

Jean-Claude Juncker: Eles sabem muito bem que não faz sentido escolher diferentes caminhos, só há um caminho.

Euronews: Há uma nova cimeira com a Turquia para melhorar as relações com a UE, que terá lugar em Varna, na Bulgária. Pensa que ainda é relevante fazer a cimeira tendo em conta os desenvolvimentos recentes e as ações da Grécia e de Chipre no oeste dos Balcãs?

Jean-Claude Juncker: Teremos, provavelmente, um encontro com o presidente Erdogan em março, em Varna, e temos de discutir várias questões com o presidente turco. Não gostaria de antecipar a condução desse debate.

Euronews: É possível que a cimeira seja cancelada?

Jean-Claude Juncker: Até agora não foi cancelada.

Euronews: Há também questões relacionadas com a segurança na região. Espera contar com o apoio dos Estados Unidos, que antes eram muitos ativos na região em relação a essas questões?

Jean-Claude Juncker: No que diz respeito à adesão dos países do oeste dos Balcãs e ao alargamento, os EUA não têm que dizer coisa alguma. Trata-se de uma decisão da União Europeia, não dos Estados Unidos. Respeitamos os Estados Unidos e eles são bem-vindos se quiserem dar um contributo, mas, não quero ter um processo em que os Estados Unidos desempenhem um papel importante, o que acarretaria como consequência um papel mais importante da Rússia. Não é essa a forma de lidar com a questão.

Euronews: Quando esteve na Bósnia, diante do parlamento, disse que o patriotismo nada tinha a ver com os nacionalismos. Isso também é relevante na União Europeia. O que tem a dizer aos cidadãos da UE sobre o alargamento quando eles vêm que há um conflito entre Este o Oeste na UE, quando há problemas relacionados com o Estado de direito e a corrupção? Nos Balcãs há muitos problemas dessa natureza.

Jean-Claude Juncker: O patriotismo não é ser contra os outros, tem a ver com a amor que votamos ao nosso próprio país. Isso não tem nada de mal. O nacionalismo opõe-se aos outros. A luta contra a corrupção e contra o crime organizado, algo extremamente importante, nada tem a ver com patriotismo. O que pedimos aos nossos parceiros é que levem a sério este compromisso, não são só palavras, eles têm assumir os compromissos e se não o fizerem as portas ficarão fechadas.