Última hora

Última hora

Nove dias na pele de um camionista

Em leitura:

Nove dias na pele de um camionista

Nove dias na pele de um camionista
Tamanho do texto Aa Aa

Nos arredores da capital polaca, Ruslan Novikov, um camionista da Ucrânia, começa a jornada a bordo de um camião com reboque.

O habitáculo do veículo é a casa de Ruslan durante vários meses. Atrás do lugar do condutor encontra-se uma cama. Debaixo dessa cama existe um espaço para armazenar produtos. Isto porque Ruslan não voltará a casa, provavelmente, antes do verão.

A semana de Ruslan começa com entregas. Leva a uma quinta caixas de maçãs vazias. Enquanto se faz a descarga das caixas, o camionista e os proprietários da quinta conversam. A descarga demora duas horas. Foram precisas mais cinco horas – entre espera e tempo de trabalho incluídos – para voltar a carregar o camião em outra quinta próxima.

Carregar e descarregar ocupou quase todo o dia, mas Ruslan pode conduzir até à meia-noite. Para num parque de estacionamento por causa do cair da noite, aquece uma refeição num fogão a gás e vê um filme no computador portátil.

De manhã cedo lava os dentes e aquece a cafeteira. Verifica se descansou o tempo suficiente.

Na estrada, nos parques de estacionamento ou nos pontos de entrega, o condutor tem de ter sempre em conta inúmeras normas para tratar de questões relacionadas com documentos e logística. Conduzir um pesado também requer muita concentração.

A viagem de Ruslan passa pela Alemanha. Conduz todo o dia com paragens obrigatórias de 45 minutos a cada três horas. O condutor usa esse tempo para cozinhar e comer. Nunca come em cafés à beira da estrada. Também preenche papéis, joga ou fala com a família e amigos ao telefone. Encontrar um parque de estacionamento livre e seguro atempadamente é muitas vezes um desafio. Acaba o trabalho quase sempre tarde. Também passa o tempo livre no camião.

Na manhã do terceiro dia atravessa a fronteira holandesa para entregar carga. Conduz pela Holanda para voltar a carregar o camião. O destino seguinte é Espanha. Pela frente tem 1420 quilómetros através da Bélgica, Luxemburgo e França.

Ao quinto dia, Ruslan chega a Espanha onde tem de fazer 45 minutos de paragem obrigatória. É proibido dormir no camião durante este período. Alguns países fecham os olhos a esta questão, outros fazem controlos apertados. A segurança também é uma preocupação.

“No momento em que o número de horas que podemos trabalhar chega ao fim podemos estar na Alemanha ou em França. Não nos podemos mover porque teremos uma multa e também não podemos parar. Temos de chegar a um hotel.O hotel custa 50 euros. É preciso um táxi para chegar lá. Também é preciso deixar o camião carregado sem vigilância. Depois, ao regressar ao veículo, a carga e o combustível podem ter sido roubados”, explica Ruslan Novikov.

A semana de trabalho de 45 horas termina. Durante esse período o condutor não viu outra coisa a não ser a estrada. Para descansar, Ruslan escolhe um parque de estacionamento não muito longe de Tarragona, em Espanha. A beira-mar fica a apenas 500 metros.

Os camionistas encontram-se em bares aos fins de semana. Alguns conhecem-se há anos apenas porque param nos mesmos parques de estacionamento. Travam-se amizades entre condutores de França, Espanha, Portugal, Reino Unido e Alemanha.

Esta pesquisa tornou-se possível graças ao programa “Reporters in the Field”, da Fundação Robert Bosch em conjunto com a organização não-governamental n-ost.