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As guitarras tradicionais no Pop Rock dos Lusitanian Ghosts

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As guitarras tradicionais no Pop Rock dos Lusitanian Ghosts

As estrelas dos Lusitanian Ghosts e da música tradicional portuguesa
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Seis guitarras tradicionais portuguesas deram o mote para um novo projeto de música que pretende promover estes poucos conhecidos instrumentos de corda através do Pop Rock cantado em inglês.

Os Lusitanian Ghosts ("Fantasmas Lusitanos", em tradução direta) partiu de uma ideia de Neil Leyton, músico luso-canadiano, que a desenvolveu com o amigo sueco Micke Ghost, a quem ofereceu há cerca de três anos uma Amarantina, uma guitarra típica da região portuguesa do Douro Litoral.

O duo começou por gravar e lançar um single com o tema "Blossom" e depois lançou-se mesmo para um álbum, que agora chega às lojas na internet em versão, para já, exclusivamente digital.

A Euronews falou em exclusivo com Neil Leyton e Micke Ghost a propósito deste disco de estreia homónimo dos Lusitanian Ghosts, um projeto que integra ainda mais quatro músicos: os guitarristas Abel Beja (Primite Reason), Vasco Ribeiro Casais (Omiri) e O Gajo, a que se junta João Sousa, na bateria e percussão.

Euronews: Qual foi a inspiração para este projeto Lusitinian Ghosts?
Neil Leyton:
Antes do meu avô, o mestre Adelino Leitão, falecer, ele passou-me um cavaquinho dos anos 60 e um banjolim, uma espécie de banjo americano, mas ao estilo português, mais pequeno e com uma afinação diferente. Aí comecei a investigar e descobri primeiro uma viola beiroa. É da zona de Castelo Branco e é interesasnte porque tem uma corda chamada 'requinta', que só vai até ao braço, nem sequer dá para tocar. Depois percebi que havia cordofones um pouco por todo o país, com afinações, feitios e sonoridades diferentes. Foi assim que surgiu a ideia.

Como é que surge um sueco no projeto?
O último disco que tinha gravado, tinha sido em Estocolmo, 'The Betrayal of the Self' (2006), como Neil Leyton. Começou por ser gravado em Toronto, mas acabou por ser gravado em Estocolmo, em fita analógica, com músicos suecos. O Mike Ghost fez parte desse projeto, fizemos várias 'tournés' pela Europa e eu decidi comprar-lhe uma viola amarantina da APC Instruments de Braga. Levei-lha para Estocolmo quando o fui visitar em 2015. Ele ficou a olhar para a Amarantina, com os dois 'coraçõezinhos', e a questionar-se como é que a iria tocar. Começou a aprender pelo Youtube e foi assim que apareceu no projeto.

É o único que não é lusitano?
Os Lusitanian Ghosts não são os músicos. São os instrumentos. Porque estiveram quase a desaparecer no século XX. Por causa das violas americanas de seis cordas e do protagonismo que o fado assumiu, os cordofones populares portugueses caíram no esquecimento ou, como diz o etnomusicólogo português Domingos Morais, caíram na desgraça total e alguns, como a Toeira, chegaram mesmo à extinção antes de voltarem a ser fabricados este século.

Há possibilidade de se introduzir num próximo disco novos "fantasmas"? A ideia foi centrarmo-nos no primeiro disco do projeto nos cordofones populares regionais que estavam mais esquecidos, os tais fantasmas lusitanos. Não sabemos o que virá do futuro até poque quando convidei o Vasco Rivbeiro Casais, o Omiri, ele não trouxe apenas a Braguesa, ele trouxe também um instrumento medieval, por coincidência sueco, a Nickelharpa. Portanto tivemos um português a tocar um instrumento medieval sueco e o mike Ghost a tocar a Amarantina portuguesa. Houve ali uma troca europeia de tocadores destes antigos instrumentos.

Alguma razão especial para terem sido estas as guitarras tradicionais eleitas?
Nós acabámos por tocar quase todas (as violas) que encaixavam nos cordofones regionais portugueses: a Terceira, a Toeira, a Braguesa, a Amarantina, a Beiroa e a Campaniça. Não fica nenhuma de fora, embora a Toeira só apareça numa música. Não existem mais do que essas.

Ponderaram convidar outras vozes para o disco?
As músicas são todas cantadas por mim e pelo Mike, e são todas em inglês. Há ali um excerto do 'Malhão, Malhão' inserido de surpresa numa música, mas não ocorreu (os convites a vozes externas). O que não quer dizer que não se possa fazer um convite desse tipo, eventualmente havendo algumas traduções. Também não é muito fácil traduzir letras porque é como traduzir poesia. Mas havendo algumas traduçôes e convidando alguém que cante em português. Eu nunca cantei em português, cantei sempre em inglês, nem acho que estaria muito confortável, mas nada está fora do leque de opções.

Não deixa de ser curioso este género de confronto entre instrumentos tradicionais portuguess e canções em inglês.
A ideia é fazer algo inédito. Primeiro, o conjugar dos diferentes cordofones na mesma obra, no mesmo disco. Em segundo, faze-lo num contexto de promoção dos cordofones a nível internacional recorrendo ao inglês, que é a linguagem do Rock internacional, em que sempre cantei. E vamos levar os cordofones através dessa linguagem a muitas pessoas, muito músicos e muitos fás que não conhecem esses instrumentos. Como disse no documentário, imagina que alguém como o Thurston Moore, dos Sonic Youth, que adora afinações variadas e diferentes, pega num destes instrumentos. Sabe-se lá o que é que ele fará a seguir com este tipo de sonoridades. a ideia é a promover a um novo público e não só ao nosso próprio povo.

Até onde querem levar este primeiro disco dos Lusitanian Ghosts? "Sendo um coletivo de artistas, o projeto Lusitanian Ghosts vai ter uma dificuldade (de agenda). Porque todos nós -- eu, o Micke Ghost, o Gajo, o Omiri, o Abel Beja, dos Primitive Reason -- temos vários projetos. Em termos grandes digressões vai ser complicado porque o calendário de cada um não permite essa agilidade. Vamos editar o disco numa primeira versão digital esta semana. Sairá uma edição em vinil, que está a ser masterizada por um especialista em vinil da Califórnia, que é o John Golden. O vinil sai em outubro, com os primeiros concertos apontados lá para final de novembro, inícios de dezembro. Mas não será uma digressão, serão concertos individuais e o mais especiais possível.

Têm concertos fora de Portugal em perspetiva?
Nós gostaríamos de fazer alguns concertos de promoção do disco em Portugal, mas eu gostaria também de tocar em Estocolmo. Aí haverá mais um intercâmbio de apresentações do disco. Eventualmente também Canadá, mas aí só na Primavera do ano que vem.

O disco sai agora em formato digital, segue-se o vinil, mas não ponderam lança-lo em CD. Porquê?
Não vamos ter edição em CD porque eu acho que esse é um formato moribundo. Entre o digital das plataformas online e o vinil, para quem gosta de um som analógico, mais orgânico e masterizado especificamente para esse formato, o CD não traz nada de novo nem de especial. O vinil tem aquela sonoridade. O CD é igual ao que se ouve nas plataformas digitais. Por isso, não vamos por aí. Acho que o CD é um formato que está mesmo a desaparecer.

Como vê o reconhecimento da música portuguesa no estrangeiro?
O nosso projeto visa mais a promoção dos cordofones do que a do projeto em si. Existem muitos projetos portugueses com imensa qualidade agora neste processo da internacionalização e acho que pela primeira vez temos uma plataforma como a WHY Portugal dedicada à exportação da música portuguesa. Por isso, acho que estamos numa boa altura para a música portuguesa e para a sua projeção internacional depois daqueles projetos primordiais com Madredeus, nos anos 90, Buraka Som Sistema, mais recentemente, e outros. Penso que estamos com muito boa música a ser produzida em Portugal e muitas boas expetativas de internacionalização.

Quando anda por fora de Portugal e se apresenta como músico português, qual é a reação das pessoas?
Quando ando por fora falo sempre inglês e considero-me mais canadiano, mas sinto que Portugal ainda padece de uma imagem desatualizada a nível musical. Conhece-se muito o fado, mas não se conhece toda a riqueza das várias estéticas que se produzem atualmente em Portugal. E isso é algo a contrariar. A plataforma WHY Portugal é uma excelente iniciativa para alterar esse paradigma.

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