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Milhares de turcos largaram tudo em nome da liberdade

Milhares de turcos largaram tudo em nome da liberdade
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A antiga cidade do norte da Grécia, Salónica, transformou-se num porto seguro para requerentes de asilo político da vizinha Turquia. Depois do golpe fracassado em Ancara de 2016, e da repressão maciça ao movimento religioso de Gülen, Salónica recebeu cidadãos turcos perseguidos, muitos deles professores, funcionários públicos ou empresários. Os vários ataques anti-Gülen na Turquia desencadearam uma fuga de cérebros: O país perde, a passos largos, uma grande parte da classe média bem instruída. Salónica é agora palco de um crescimento económico.

Milhares na Turquia perderam os empregos ou foram presos por alegadas ligações com o movimento Gülen. Outros milhares escolheram exilar-se.

Conhecemos Musa Yücel. Musa era um empresário de sucesso. Trabalhava na área da contrução civil. Estava por detrás de negócios relacionados com a compra e a venda de imóveis, tinha vários restaurantes e era conselheiro escolar numa Colégio Gülen. Depois da Golpe falhado, Musa foi alvo de perseguição, embora diz não ter participado na ação militar contra o presidente turco.

Musa e a esposa deixaram a Turquia em 2016, logo a seguir à tentativa de golpe de estado. Chegaram a Salónica e abriram um restaurante turco no centro histórico.

"Fui acusado de ser membro de uma organização terrorista e de ajudar e administrar financeiramente o movimento Gülen. Durante o processo, passei oito meses na prisão por causa dessas acusações.", conta Musa Yücel à Euronews.

Musa diz que a situação na prisão era "muito difícil" e que as celas eram muito pequenas e que cada uma "tinha umas 22 pessoas". Musa diz que não havia condições: "Não tínhamos água suficiente e não tínhamos comida suiciente. Não foram permitidos livros, nem mesmo o Alcorão.", conta.

Musa acabou por ser libertado por falta de provas.

Ahsen Safiye conta uma história parecida, a caminho de uma loja de caridade, gerida por apoiantes de Gülen. Ahsen estudou química, ingressou numa escola ligada ao movimento. Durante a tentativa de golpe, ela e o marido, ambos professores, disseram aos alunos para não se preocuparem. Mal sabiam que iriam perder o trabalho e ter de deixar o país de forma clandestina.

“Quando atravessámos o Evros, o rio da fronteira entre a Turquia e a Grécia, estava muito escuro, tivemos de segurar na nossa filha e perdemos tudo o que tinhamos trazido. Quando chegámos a Salónica, não tínhamos nada e foi aqui, neste lugar, que encontrámos algumas roupas e outros objetos básicos para pessoas necessitadas.", conta Ahen Safiye à Euronews.

Quando chegaram a Salónica, Ahsen e a filha Neda puderam contar com a ajuda do Centro de Mulheres Irida. A ONG apoia cerca de 300 mulheres de 35 nacionalidades. O número de mulheres turcas tem vindo a aumentar, segundo Christa Calbos, gerente do projeto.

“Não acho que exista um sistema de justiça imparcial na Turquia."
Ahsen Safiye
Exilada turca na Grécia

Christa conta que só no dia anterior às filmagens registaram "quatro novas mulheres turcas". Quanto a desafios diários, diz que o maior passa pela dificuldade que estas mulheres têm em "ver reconhecida" a formação ou a experiência de trabalho que trouxeram da Turquia. Christa diz também que muitas destas mulheres têm filhos e que "há uma grande dificuldade" na aprendizagem do idioma nas escolas públicas.

Recep Tayyip Erdoğan atribuiu a responsabilidade da tentativa de Golpes de Estado a Fethullah Gülen, um imã turco exilado nos EUA em 1999. O líder religioso nega qualquer envolvimento na ação.

Depois da tentativa de Golpe de Estado, Ahsen e o marido foram presos - juntamente com outros 77 mil "suspeitos de terrorismo" - Ahsen passou um ano na prisão. Teve de deixar o seu bebé de 15 meses com a família, mas conta ter assistido a situações muito piores.

“Não acho que exista um sistema de justiça imparcial na Turquia. Na prisão, a situação mais difícil foi ver uma mulher com um bebé de um mês. A mãe não tinha leite suficiente. O bebé era tão pequeno... Não havia comida para ele.”, conta Ahsen.

Quando os livros são provas de terrorismo

Encontrámos, numa vila grega, Bekir. Trabalhou como professor de informática numa escola afiliada à Gülen. Depois da tentativa de golpe, cerca de 150 mil pessoas foram demitidas dos empregos que tinham, devido a alegados vínculos com o movimento. Bekir foi um deles. A Grécia concedeu-lhe proteção e a família recebe um pequeno apoio financeiro do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados.

"Estes livros são considerados uma prova de crime agora na Turquia."
Bekir
Exilado turco na Grécia

Bekir conta-nos que foi demitido pela empresa no primeiro dia de setembro, com o decreto presidencial 672, tal como milhares de pessoas.

"Não me foram concedidos direitos para me defender. Fui exposto a um tipo de morte social. Depois de ser demitido, dois ex-advogados meus também foram presos. Na altura, liguei para onze advogados. Desses, dez recusaram-se sem rodeios a ajudar-me. Para mim a Turquia é uma ditadura.”

Bekir conhece o Alcorão de cor. A profunda fé que tem acompanha alguns dos valores ensinados por Fethullah Gülen: Prioridade à educação, oração e gestão de conflitos pelo diálogo.Bekir diz ser um homem pacífico, "incapaz de matar uma mosca".

Bekir mostrou, com orgulho, os livros sobre o profeta Maomé, escritos por Fetullah Gülen. Diz que teve de os esconder, juntamente com muitos mais, cerca de "sete sacos de livros", para não ser capturado. "Estes livros são considerados uma prova de crime agora na Turquia.", diz. "Muitas das pessoas que tinham estes livros, foram presas e continuam na prisão.”, contou.

Yasemin deu à luz em casa para não ser capturada no hospital

Ficámos a conhecer Yasemin, em Salónica. Turca exilada na Grécia. Trabalhou como gerente de uma residência para estudantes vinculada ao movimento Gulen, numa altura em que tudo era legal. Depois da tentativa de Golpe de Estado, Yasemin, grávida e com mais três filhos para criar, decidiu ter o bebé em casa com medo de ser capturada no hospital.

"Quando as parteiras chegaram, disseram-me para eu não gritar e eu sabia que não podia fazê-lo."
Yasemin
Exilada turca na Grécia

"Quando se vai a um hospital, o nosso nome está no computador e eles podem encontrar-te e prender-te. Para evitar isso, decidi dar à luz em casa.", conta Yasemin.

Estando na "lista negra", milhares de professores, gerentes, funcionários públicos ou empresários demitidos têm poucas hipóteses de viver na Turquia nos dias de hoje.

Dizem adeus ao país que os viu nascer e tentam reiniciar uma nova vida além fronteiras.

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