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Algas: o ingrediente do futuro

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Algas: o ingrediente do futuro
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O cultivo de algas marinhas pode não ser familiar para a maioria dos europeus - mas há um movimento crescente a mudar essa realidade. Em 2012, no sudoeste dos Países Baixos, uma consultora empresarial holandesa e uma advogada americana partiram numa missão para tornar a indústria alimentar mais saudável e menos dispendiosa.

Rebecca Wiering, fundadora e coproprietária da empresa Zeewaar conta que, hoje, "carinhosamente", são conhecidas como "as duas senhoras das algas marinhas". No entanto, consideram-se, acima de tudo, empreendedoras que querem "criar alimentos saudáveis para as pessoas, de uma forma responsável, e saborosos".

Ao longo dos anos, a pequena quinta que possuem cresceu melhorando métodos. Hoje, tem uma dimensão cinco vezes superior à original, mas mantém-se orgânica. É uma equipa de três homens que recolhe várias toneladas de algas marinhas todas as Primaveras, utilizando uma grua hidráulica que inventada pela empresa.

A cultura de algas marinhas é uma indústria em crescimento. A produção global de macroalgas ultrapassa os 30 milhões de toneladas por ano, quase toda proveniente da Ásia. A produção europeia contribui apenas com cerca de 1% para os números globais e essa pequena fracção não provém principalmente da agricultura, mas da colheita de unidades populacionais selvagens.

"Porque é que ninguém estava a cultivar?", pergunta, de forma retórica Rebeca Wiering, para, logo a seguir dar a resposta. "Porque, para cultivar na Europa, é preciso fazê-lo de forma sustentável. Não se pode simplesmente atirar um monte de pesticidas e coisas más para a água. Temos de o fazer de forma verdadeiramente responsável. E era exatamente isso que nós gostávamos! Pode ser difícil, mas vamos fazer com que funcione".

A Zeewaar fez da sustentabilidade a filosofia da empresa até ao ponto de venda. Ao contrário das importações mais baratas, as algas que produz são cultivadas localmente numa zona natural protegida, sem adição de produtos químicos. Aqui a alimentação fica a cargo de cada maré que traz nutrientes provenientes do Mar do Norte e das explorações piscícolas próximas.

Matthijs Stroosnijder, diretor agrícola da empresa, afirma que "o mais importante é a luz solar, a luz solar e os nutrientes. E para o resto, é tudo a natureza". Flora e fauna vivem ali numa "espécie de simbiose", o que, garante, permitiu que, este ano, houvesse uma "boa colheita".

A planta marinha cultivada, denominada saccharina latissima, ou royal kombu, tem várias utilizações possíveis, desde cosméticos e fertilizantes até aos biocombustíveis. Mas os agricultores acreditam que as qualidades sanitárias e gustativas que possui tornam esta alga marinha mais valiosa como componente alimentar.

"É tão subtil que não se consegue descrever o sabor. Teria de o experimentar para perceber o sabor às pessoas, não consigo explicar. É um pouco sedoso. Quase como uma salada", tenta descrever a coproprietária.

Os rendimentos dependem em grande medida da qualidade das plântulas plantadas em linhas de cultivo flutuantes durante o outono. A Zeewaar não produz as suas próprias plântulas; comprar material de base a uma empresa especializada em reprodução aumenta as hipóteses de sucesso.

Da amostra às grandes plantações

A Hortimare é um fornecedor holandês de plântulas que trabalha com agricultores de algas marinhas em muitos países. Ao laboratório da empresa chegam várias amostras, como a de um cliente na Noruega, que quer reproduzir os seus esporos perfeitamente adaptados às condições locais.

Jessica Schiller trabalha nas instalações como botânica marinha e explica que começam o processo por propagar as amostras, para criar a planta e enviá-la aos produtores. Na costa da Noruega, revela, "as algas marinhas crescem muito bem, do ponto de vista ecológico". A partir de uma pequena amostra, como a que chegou à Hortimare, "podemos cultivar no futuro quilómetros algas marinhas".

Durante todo o ano, a empresa realiza experiências para melhorar a qualidade e a variedade das estirpes de algas marinhas. Para ajudar as explorações agrícolas a trabalhar de forma mais eficiente, produz plântulas em bobinas de fio fino que podem ser facilmente presas às linhas de cultivo.

"O que fazemos é pintar a bobina com gametófitos e depois, ao longo de três semanas, eles vão transformar-se em algas marinhas bebés. Depois, com o tempo, vamos vender isto a diferentes clientes e eles vão deixá-las crescer e disponibilizá-las para produtos", explica o responsável pelo cultivo, Joshua Masel.

Com uma gama crescente de estirpes fiáveis e a melhoria das tecnologias de cultivo no mar, a Hortimare espera que a capacidade de produção de algas marinhas na Europa seja dez vezes maior num futuro próximo. Uma evolução que pode incentivar a indústria a investir neste setor emergente.

O diretor executivo da empresa, Haik van Exel, revela que, "para se poder produzir assim, é necessário um grande investimento em sistemas mecanizados", o que requer mais apoios. "Precisamos do apoio dos governos na legislação, mas também no financiamento, e precisamos que a indústria nos dê mais apoio, para nos ajudar a investir", defende.

Apesar de os obstáculos regulamentares poderem ter até agora dificultado a obtenção de licenças de exploração agrícola, os produtores de algas marinhas estão a depositar as esperanças na nova Estratégia "Farm to Fork" ("Da Exploração Agrícola à Mesa"), um plano da União Europeia que integra o Pacto Ecológico Europeu. O objetivo é acelerar a transição económica para sistemas alimentares justos, saudáveis e respeitadores do ambiente.

A Zeewaar não vende as algas marinhas diretamente aos consumidores. Trabalha com os fabricantes de alimentos, fornecendo-lhes flocos secos, que as fábricas podem facilmente utilizar.

Mas Rebecca Wiering lamenta ainda ser difícil convencer a indústria a integrar as algas na produção.

"É difícil o que estamos a fazer. Não estamos a ganhar muito dinheiro. Temos de fazer um grande esforço no mercado para convencer os produtores de alimentos… 'Por favor, utilizem! Experimente! Experimente, experimente nos seus molhos, nas suas especiarias, ou então na sua bebida de chocolate, como um chá, ou experimente como uma erva'... A procura está a crescer, um pouco como o oceano, vai e vem, mas sobe".

E um exemplo de como as algas podem ser aplicadas na alimentação vem de muito perto da empresa. Numa praia das redondezas, virada ao Mar do Norte e situada junto a uma reserva natural, está um restaurante onde é servido o "Dutch Weedburger", um hambúrguer produzido por uma empresa local. O _chef, _Mario De Pagter,é vegetariano e inclui na sua receita algas marinhas.

"As algas são de origem local e acrescentam o gosto umami. Também ajudam a manter melhor a forma dos hambúrgueres e substitui algum do sal adicionado, o que acho que é bom", explica.

Com os substitutos da carne a tornarem-se cada vez mais populares, os consumidores europeus vão poder em breve familiarizar-se mais com o sabor e os benefícios nutricionais das algas marinhas, mas também com formas amigas da natureza de as cultivar.

Antes de começar a atender às mesas, Tamara De Pagter, almoça a especialidade vegetariana da casa e vai explicando as vantagens de se pedir a iguaria.

"A textura é como um hambúrguer normal, é um pouco salgado e sabe muito bem! É vegano e isso é uma tendência crescente. Cada vez mais pessoas vêm aqui porque se preocupam com a natureza".