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"Estado da União": Europa pós-pandemia e racismo

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"Estado da União": Europa pós-pandemia e racismo
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Depois de vários meses de confinamento em nome do bem comum, as fronteiras internas da Europa começaram a reabrir. Para muitos, este foi o sinal mais visível de que as coisas estão a regressar. gradualmente, ao normal.

De forma preocupante, também chegaram, em simultâneo, notícias de novos surtos de coronavírus em países que pareciam ter a situação da pandemia praticamente controlada. Casos da Alemanha, Nova Zelândia e China. Na capital chinesa, Pequim, as autoridades isolaram bairros inteiros com precisão militar.

Na Ásia, precisamente, a China tornou-se mais assertiva e está a estender os músculos militares sempre que Pequim considera ser necessário. Agora, as coisas parecem estar a caminhar para um novo patamar e a NATO, pela voz do secretário-geral Jens Stoltenberg, mostrou preocupação.

"A China está a investir fortemente em novas capacidades militares de longo alcance, em mísseis que podem atingir todos os aliados da Aliança Atlântica, a modernizar as forças nucleares. Não se trata apenas de uma questão da movimento para o Mar do sul da China. Trata-se do facto de que a China se está a aproximar de nós", sublinhou Stoltenberg.

Esta semana, o Parlamento Europeu também condenou as táticas de braço forte da China em Hong Kong, em particular a polémica lei de segurança nacional para a antiga colónia britânica. A União Europeia terá muitas oportunidades de partilhar as queixas com Pequim. quando as duas partes se juntarem para uma cimeira virtual na segunda-feira.

Outro tema em destaque neste programa é o racismo. Esta semana, o Parlamento Europeu também debateu esta matéria.

O movimento "Black Lives Matter" tornou-se global e na Europa os protestos despertaram a atenção das pessoas para símbolos do colonialismo e racismo, com a vandalização de monumentos e estátuas.

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, mostrou o apoio aos manifestantes, dizendo que é tempo de ouvir essas vozes, de agir e fazendo um "mea culpa."

"Olhemos para o hemiciclo: a diversidade da nossa sociedade não está representada e sou a primeira a admitir que as coisas não estão melhores nem no colégio de Comissários nem entre os funcionários da Comissão Europeia. É por isso que digo que é preciso falar sobre racismo. Precisamos de agir. É sempre possível mudar para uma direção melhor se houver vontade para isso", lembrou a presidente do executivo comunitário.

Em entrevista à Euronews, Margaret MacMillan, professora na Universidade de Toronto e professora emérita na Universidade de Oxford, comentou os últimos desenvolvimentos relacionados com os protestos, na Europa e nos EUA.

Stefan Grobe, Euronews - É especialista em história imperial britânica, uma época em que foram erguidos muitos destes monumentos que agora foram vandalizados. Em que pensa quando vê imagens de estátuas a cair?

Margaret MacMillan, professora universitária - Depende do caso. Não gosto de ver as pessoas a decidir sobre que estátuas querem derrubar sem passar pelos processos necessários. Mas há momentos, acredito, em que queremos realmente livrar-nos de algumas estátuas. Se tivesse vivido na Europa do Leste em 1989, teria, provavelmente, querido livrar-me de todas as estátuas de Lenine e de Estaline. Houve muita animosidade em Bristol e muita discussão acerca da estátua do esclavagista Edward Coulson em particular, que foi derrubada na cidade de Bristol. Preferia vê-la no devido lugar ou num museu, como uma forma de ensinar às pessoas o peso da história. Mas por vezes as pessoas fazem justiça pelas próprias mãos.

Stefan Grobe - Não só vimos pessoas a vandalizar estátuas como vimos contramanifestantes a defendê-las. Esta é a próxima etapa da nossa guerra de culturas?

Margaret MacMillan - Espero que não. Penso que temos outras coisas com que nos preocupar. Estamos perante problemas realmente importantes no mundo, como é o caso da pandemia de Covid-19, mas também temos de nos preocupar com as alterações climáticas. Por vezes acredito que discutir sobre estátuas pode ser uma distração de todas as formas de mudança social em que precisamos de pensar. Muitas vezes, as pessoas que querem deitar estátuas abaixo são mesmas que se intitulam como defensores e são uma minoria. Por vezes, damos-lhes demasiado crédito e atenção.

Stefan Grobe - As origens deste iconoclasma foram, claro, os protestos contra a violência policial e o racismo nos EUA. Agora há o argumento de que as coisas são diferentes na Europa. Há racismo na Europa? Racismo sistémico?

Margaret MacMillan - Considero sempre o conceito de racismo sistémico dúbio, porque é difícil defini-lo exatamente. Se é um sistema que discrimina as pessoas de determinada cor ou etnia, então faz claramente parte do sistema. Mas se se tratam de exemplos isolados de pessoas que são racistas, que são desagradáveis para os outros e os discriminam nessa base, não falaria em algo sistémico. Por vezes, podemos ver instituições que dificultam o avanço de pessoas pertencentes a minorias. Mais uma vez repito que precisamos de analisar caso a caso. O que considero interessante a propósito deste pensamento sobre o racismo na Europa é que é muito estimulado pelo que está a acontecer nos EUA. Penso que é mais importante os europeus analisarem o que se está a passar nos próprios países em vez de se focarem tanto no que se passa lá fora.

Stefan Grobe - Como é que podemos melhorar as coisas?

Margaret MacMillan - Como é que melhoramos? Ao nível da educação. Penso que quanto mais educadas são as pessoas mais se compreendem mutuamente. Ao nível das políticas, para ajudar os que passaram privações no passado. A classe social também é importante. A raça, etnia podem ser um indicador importante de privações, mas a classe social também. É uma luta constante. Haverá sempre quem não seja tratado de forma justa nas nossas sociedades. Penso que precisamos de ter consciência desse facto.