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Escravidão humana na produção de champanhe em julgamento

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Escravidão humana na produção de champanhe em julgamento
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Terminou esta sexta-feira a fase de audiências do julgamento de um caso de abuso de seres humanos nas explorações do famoso vinho champanhe, em França. A defesa teve a palavra e acusou o topo da pirâmide dos beneficiados pela pressão colocada aos subcontratados.

Seis pessoas e três empresas incorrem em penas de prisão efetiva e multas por terem gerido em 2018 um esquema que beneficiou toda a cadeia superior através de um regime de trabalho de quase escravidão imposto a centenas vítimas, sobretudo migrantes africanos e afegãos.

Alors que le procès pour traite d'êtres humains dans des vignes champenoises est toujours en cours à Reims, le délibéré...

Publiée par Comité Contre l'Esclavage Moderne - CCEM sur Jeudi 2 juillet 2020

O julgamento começou na quarta-feira e ao segundo dia o procurador público afeto ao processo pediu prisão efetiva de três e dois anos, e uma multa de €200 mil, para o casal que geria a Rajviti, a empresa prestadora de serviços a vinicultores na base do esquema.

O advogado da Comissão Contra a Escravatura Moderna (CCEM) contou à Euronews que "as vítimas foram aliciadas para um trabalho pago a €10/hora, durante um período de 20 a 30 dias". O que não é mau", reconheceu Mehdi Bouzaida.

"Foi-lhes prometido também um quarto para cada dois ou três, mas quando lá chegaram, não foi nada disso que encontraram", sublinhou o advogado da CCEM.

Algumas das vítimas foram contratadas em centros de acolhimento de migrantes de Paris e transportados de carrinha para a famosa região demarcada de Champanhe, onde um hectare de videira pode valer €2 milhões.

Os trabalhadores foram acomodados pela Rajviti na vila de Oiry, no departamento francês de Marne.

O enviado especial da Euronews à região de Champanhe esteve no "antigo hotel" em Oiry onde "cerca de 80 trabalhadores ficaram instalados, em condições, descritas pelos investigadores, como indignas".

"Cerca de uma dezena de homens por divisão apenas com um chuveiro disponível em toda a casa.

A comida foi encontrada armazenada pelo chão, lê-se no relatório da polícia", conta-nos Cyril Fourneris.

Na penúria e sem contrato

Os trabalhadores, por seu lado, denunciaram penúria, trabalho duro, por vezes sem receber e sem contrato, algo que um executivo da famosa casa Veuve Clicquot, responsável por acompanhar as equipas de trabalho, disse desconhecer.

O executivo da famosa marca de champanhe admitiu ao tribunal ter sido "negligente", mas sublinhou considerar inconcebível usar trabalhadores neste tipo de regime clandestino, habitual em muitas explorações agrícolas europeias.

Esta é a terceira mais lucrativa operação de tráfico do mundo, sublinha o coronel Philippe Thuries, o chefe do Gabinete Central de Luta ao Trabalho Ilegal em França.

"Estas pessoas recrutadas têm de pagar o transporte, o recrutamento e a alimentação. Parte do salário que lhes prometem é retido pelos intermediários, as empresas prestadores de serviços a quem os donos das explorações pagam devidamente", explicou-nos Philippe Thuries, mostrando a complexidade de um esquema que protege os grandes proprietários e empresários.

A sentença é lida a 11 de setembro.