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Violência racial e atuação da polícia alimentam protestos em França

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Violência racial e atuação da polícia alimentam protestos em França
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No rescaldo da morte de George Floyd, vítima da ação da polícia dos EUA, multiplicaram-se a vozes críticas, em toda a Europa, que denunciam a violência racial imputada às forças de segurança.

Em França, por exemplo, milhares de manifestantes responderam ao apelo do comité "La Vérité pour Adama" Traoré, no passado mês de junho. O jovem francês, de origem maliana, morreu em 2016, depois de ser perseguido e preso pela polícia.

A irmã, Assa Traoré, tornou-se uma figura emblemática do movimento coletivo, cada vez mais fortalecido. Luta há quatro anos por justiça, para vingar a morte do irmão e para vencer um processo contra os polícias que o detiveram e controlaram com o peso do corpo, acusados de homicídio.

"O meu irmão suportou o peso de três polícias durante nove minutos. Atualmente exigimos que os fatos sejam requalificados como homicídio voluntário. Denunciamos a impunidade policial. Denunciamos a violência racial. Denunciamos a violência social", sublinhou Assa Traoré.

No passado dia 18 de julho, milhares de pessoas juntaram-se à manifestação organizada pelo coletivo, em memória de Adama Traoré. Familiares de outras vítimas da ação policial, como Mahamadou Camara, juntaram-se em peso ao movimento reivindicativo.

"O sistema e o Estado querem fazer com que os imigrantes sejam colocados de parte. Somos cidadãos de segunda linha. Cada vez que um jovem morre nas mãos da polícia francesa criminaliza-se a vítima. Isto não é normal porque a polícia não tem qualquer direito de matar as pessoas. A pena de morte foi abolida", lembrou Mahamadou Camara, do movimento coletivo "Vérité et Justice pour Gaye" e irmão de Gaye Camara, morto a tiro pela polícia.

Para Assa Traoré e os respetivos apoiantes, o caso Adama simboliza um problema endémico: "O meu irmão morreu vítima de um comportamento racista e violento das forças de segurança. É sistémico. Reclamamos que se faça justiça por Adama, por todos os Adama Traoré e para que as coisas mudem. Para que mais ninguém tenha o direito de morte sobre a vida de quem quer que seja."

Os polícias franceses manifestaram-se em peso contra acusações deste tipo, em junho passado. Alegam que a violência policial diz respeito a uma minoria. A direção da Polícia Nacional não respondeu às nossas solicitações de entrevista.

David le Bars dirige o sindicato francês de comissários de polícia (SCPN). Apesar de admitir exageros, recusa as acusações de impunidade entre as forças de segurança. Por outro lado, considera que a instituição necessita de uma reforma para reencontrar o seu sentido de missão. No livro "La Haine dans les yeux" descreveu de forma exaustiva a degradação das condições de trabalho da polícia. À Euronews explicou o que quis realmente dizer quando referiu que "o agente da polícia não tem nada a ganhar ao usar a carta humana."

"Atualmente existe uma elevada rigidez administrativa. Os processos administrativos e judiciais são demasiado pesados. Não há espaço para a dimensão humana, para o bom senso do agente na relação com o cidadão. Julgo que esta desumanização também tem um peso nas nossas relações com os cidadãos. Estamos sobrecarregados numa atividade vista sempre como repressiva. Penso que a população já não consegue ver o outro lado da polícia, que é o da prevenção, da presença, de assegurar e de proteger os nossos concidadãos. Estas são questões estruturais, relacionadas com a organização da polícia nacional e, em sentido mais lato, com as forças de segurança no território", referiu.

Uma desumanização que alguns dizem estar profundamente enraizada. Vários relatórios, incluindo os do observador estatal de defesa dos direitos humanos, criticaram os métodos policiais abusivos.

A Human Rights Watch lançou, recentemente, um relatório que denuncia os abusos, principalmente entre menores, em matéria de controlos de identidade.

Em 2016, o advogado Slim Ben Achour conseguiu a condenação do Estado francês por parte do Supremo Tribunal, a mais alta instância jurídica do país, em casos envolvendo controlos da polícia com base na aparência física e em critérios raciais. Os chamados "controlos faciais", com consequências graves como alerta o advogado: "Isto tem um impacto na relação destes menores ou destes jovens em relação às instituições. Para eles a República não é uma República. É irrespirável. Como tal, têm sempre medo de ser abordados quando saem, e serão abordados. Faz parte do quotidiano deles."

Reconciliar os jovens com as instituições é o objetivo da associação "Raid Aventures", criada por um antigo polícia do RAID, unidade de elite da polícia francesa.

Durante os campos de férias de verão ou em jornadas organizadas em inúmeras cidades de França, polícias voluntários apresentam a profissão a jovens e adolescentes oriundos de bairros sensíveis.

"A raiz do problema encontra-se na base, que é como quem diz na educação. Penso que temos de trabalhar fortemente neste campo. Julgo que é através deste tipo de ação que chegaremos a criar um laço social entre os jovens e a instituição, e a polícia nacional em particular", ressalvou Bruno Pomart, presidente da associação "Raid Adventures."

O diálogo nem sempre é fácil. Acompanhámos uma marcha branca na cidade de Mantes-la-Jolie, na periferia de Paris. Uma homenagem a Lamba N'Diaye, de 34 anos, pai de três filhos, que morreu no rio Sena dias antes.

A polícia local informou a esposa da morte por telefone, invocando suicídio. Mas ela não acreditou. Alega que não lhe foram dadas explicações e que não pode aceder às câmaras de videovigilância. Precipitou a abertura de um inquérito.

"Como é que podemos querer suicidar-nos parando na estrada? Ele estava de regresso a casa com pizzas para os filhos. Exijo explicações", explicou Sunay N'Diaye, esposa da vítima.

À falta de respostas às dúvidas relacionadas com a morte de Lamba N’Diaye, a dúvida depressa se espalhou pela comunidade. A confiança em relação à atuação da polícia esmorece gradualmente.

Amal Bentounsi, uma responsável de uma associação de vítimas, cujo irmão foi morto por polícias condenados a cinco anos de prisão com pena suspensa, veio prestar apoio à família do defunto. A título privado, garante: "A família não está necessariamente a dizer que é responsabilidade da polícia. Não sabemos isso. Mas quer ter a certeza do que se passou. Persiste a dúvida. Porque há muitos anos que se ouvem histórias de jovens que morrem de repente, despertando dúvidas e incoerências. É normal que esta família faça diligencias para reclamar a verdade e que se faça justiça."

Para Sunay N'Diaye a verdade é apenas o fim de um ciclo negro: "Quero apenas que me digam porque é que o meu marido está morto. Só isso. Para poder fazer o luto com os meus filhos."

Contactámos o comissário de polícia da cidade. O inquérito em curso impede-o de nos dar mais detalhes, mas assegura ter elementos que provam a tese do suicídio. O caso chegou às mãos da Procuradoria.