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Hospitais sem pessoal formado nem camas suficientes para a Covid-19

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Hospitais franceses estão a transferir doentes devido à falta de camas nas UCI
Hospitais franceses estão a transferir doentes devido à falta de camas nas UCI   -   Direitos de autor  AP Photo/Jean-Francois Badias
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Há cada vez mais "doentes Covid" hospitalizados em França e proporcionalmente cada vez menos camas disponíveis nos hospitais. A situação de rutura está a obrigar os hospitais a transferir os doentes mais graves e alguns para o lado oposto do país ou mesmo para a Alemanha.

Este domingo, o quadro da epidemia no "hexágono" indicava a existência de 30.217 doentes com a Covid-19 no diagnóstico hospitalizados. Um número agravado nos sete dias anteriores em quase 20 mil, incluindo mais três mil nos cuidados intensivos (UCI), num total de 4.527 internados em reanimação.

A segunda vaga da pandemia está a revelar-se mais grave que a primeira em França. As camas de hospital são cada vez mais um bem escasso no país e no hospital Edouard Herriot, de Lyon, que visitámos, mais de 90% das camas estão ocupadas por "doentes Covid".

O diretor da UCI do Edouard Herriot receia "estar a chegar ao momento" em que vai ser necessário "ter de selecionar os doentes de acordo com a idade e o estado de saúde".

"Não é de todo o algo que desejamos e a transferência de doentes é uma solução para amenizar a falta de camas nas UCI. Permite-nos receber mais alguns doentes", salienta Laurent Argaud.

É no entanto uma solução em jeito de "penso rápido" e que se revela também difícil de gerir para os familiares.

Desde 23 de outubro, mais de 60 doentes já foram transferidos da região de Auvergne-Rhône-Alpes, a que pertence Lyon, para outras, inclusive para a Bretanha, do outro lado da país, ou para o Grande Leste, a norte, de onde, por outro lado, têm sido transferidos alguns doentes para a Alemanha.

Nas próximas semanas, perto de 200 outros doentes de Lyon estão previstos ser transferidos. alguns estão inconscientes e têm de ser os familiares a gerir os processos, o que se revela difícil no estado atual.

Laurent Argaud diz-nos que, apesar de tudo, "o que facilita a situação é o facto de as visitas já serem interditas", deixando no ar a ideia de que o facto de já haver um certo distanciamento entre paciente e familiares ameniza a separação.

"Mesmo sem poderem visitar os doentes, os familiares têm o hábito de contactar os médicos e aqui a transferência torna-se uma perturbação para as famílias", admite no entanto o responsável da UCI do hospital Edouard Herriot.

Até há pouco, a prioridade passava por evitar transferências de doentes para muito longe. Esse processo tem vindo a alargar cada vez mais o raio para encontrar camas disponíveis e a cooperação transfronteiriça tem vindo a crescer, para já, com a Alemanha como principal destino no centro da Europa.

Anne-Claire Lukaszewicz é a cirurgiã-chefe da UCI do Edouard Herriot e é a responsável por encontrar camas disponíveis em UCI de outros hospitais.

À Euronews, Anne-Claire contou que a atual situação "é muito tensa".

Em relação ao primeiro período (de epidemia) na primavera, em que tivemos um confinamento mais severo, havia muito menos doentes urgentes.

"Agora, como o confinamento não foi igual, a cidade manteve-se ativa no exterior e existem ocorrências, é difícil responder a todos os pedidos.
Anne-Claire Lukaszewicz
Cirurgiã-chefe da UCI do Edouard Herriot

Os hospitais têm pedido a ajuda de pessoal de outras unidades médicas privadas ou de outros setores onde a pressão é menor. Muitos destes profissionais mobilizados para ajudar na linha da frente da "guerra" à Covid-19 nunca tinham trabalhado antes em UCI.

Conhecemos uma enfermeira, que preferiu manter-se anónima atrás da máscara de trabalho, que trabalhava nas forças armadas.

Cumpria o segundo dia de trabalho no hospital Edouard Herriot e admitiu-nos que a sua aprendizagem destes novos protocolos para a Covid-19 foi rápida. Talvez mesmo, demasiado rápida.

"Sente-se a pressão. Temos falta de pessoal e de camas. Agora temos a perfeita noção do impacto das camas que foram reservadas e percebemos a utilidade que têm", salientou esta enfermeira.

A profissional militar considera que "ensinar demasiado rápido pode ter consequências no pessoal a nível psicológico e obviamente também nos pacientes que são assistidos, que deviam ter um serviço de saúde de qualidade.

"Tentamos fornecer um tratamento por igual aos doentes, mas isso agora nem sempre é possível", lamentou a enfermeira.

O jornalista da Euronews que se deslocou ao hospital Edouard Herriot, de Lyon, cita o ministro da Saúde de França, Olivier Véran, para nos explicar que "esta região de Auvergne Rhone-Alpes, com cerca de oito milhões de habitantes, é agora a mais afetada de França".

"Ainda é cedo para perceber o impacto das medidas implementadas (pelo governo francês) em meados de outubro. O receio que este segundo confinamento, mais ligeiro que o de março-abril, venha a ter agora um menor impacto", conclui Guillaume Petit.

Tal como em Portugal, onde esta segunda-feira começou um estado de emergência marcado pelo recolher obrigatório imposto a cerca de 7 milhões de pessoas de 121 municípios de risco no país, também o ministro da Saúde de França garante que um confinamento nacional é uma solução em cima da mesa, mas de "último recurso" para quando "a situação se tornar crítica" no país.

Para já, a solução é a responsabilidade de cada cidadão em fazer a sua parte para cortar as cadeias de contágio, "respeitando os gestos barreira e isolando-se se ficar doente".