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"Estado da União": Um sinal de alívio chamado Joe Biden?

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"Estado da União": Um sinal de alívio chamado Joe Biden?
Direitos de autor  MANDEL NGAN/AFP
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Os EUA têm, desde quarta-feira, um novo presidente e o mundo parece ter respirado de alívio, com uma renovada esperança. O assunto está em destaque em mais uma edição de "Estado da União."

Joe Biden, o substituto do polémico Donald Trump, lembrou que "a política não tem de ser um incêndio, que destrói tudo à sua passagem." Estas palavras foram música para os ouvidos de muitos americanos, mas também entusiasmaram a classe política europeia.

A esse propósito, ninguém foi mais claro, direto e honesto do que a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que afirmou: "Há muito que aguardamos por uma nova aurora nos EUA. A Europa está pronta para um recomeço com o nosso parceiro de mais antigo e de confiança."

A nova administração norte-americana, por outro lado, está preparada para os desafios que tem pela frente.

Durante a cerimónia de tomada de posse, Joe Biden falou diretamente para o mundo. Um gesto invulgar para um presidente no discurso inaugural. Depois de anos de irritação, desconfiança e confronto, Biden procurou demarcar-se do antecessor.

"A minha mensagem para todos os que se encontram além-fronteiras é: os EUA foram testados e nós corremos atrás. Vamos reparar as nossas alianças e envolver-nos novamente com o mundo. Não para responder aos desafios do passado, mas antes aos do hoje e do amanhã", sublinhou Biden.

Muita coisa está em jogo, para os EUA e para o mundo, mas o que é que podemos esperar? Onde está a Europa, no pensamento de Joe Biden?

O jornalista Stefan Grobe esteve à conversa sobre esta matéria com Alexandra de Hoop Scheffer, diretora da representação, em Paris, do think tank German Marshal Fund.

Stefan Grobe, Euronews - Esta foi uma tomada de posse como nenhuma outra, repleta de simbolismo político. Quais são as suas impressões?

Alexandra de Hoop Scheffer, German Marshall Fund - O discurso inaugural de Biden foi bastante poderoso, mas também muito ancorado no realismo. Foi um retrato e um entendimento muito realista do estado atual da América. Um retrato bastante realista das divisões entre os americanos. Quando Biden mencionou os riscos de uma guerra incivil, fez uma declaração bastante poderosa e ao mesmo tempo deixou um aviso a todos os americanos. O discurso também foi muito realista em termos da compreensão dos desafios pesados e complexos que Biden tem pela frente. Um outro elemento importante do discurso e do dia da cerimónia de tomada de posse é, obviamente, a ausência de Donald Trump.

Stefan Grobe, Euronews - Muitos analistas acreditam que em termos de política externa, a administração Biden irá um versão Obama 3.0. Partilha essa visão?

Alexandra de Hoop Scheffer, German Marshall Fund - De todo. Para mim, o que é realmente relevante é a forma como Biden enquadrou a política externa, apelidando-a de política externa para a classe média europeia. Isso diz muito sobre a forma como ele vai articular, de forma contínua, os compromissos internacionais dos EUA com o que representam para a classe média dos EUA. Não vamos ver uma administração americana à espera de assinar imediatamente novos acordos comerciais. Vamos assistir a uma política externa americana muito mais prudente, considerando sempre o impacto, o custo para a América em voltar a envolver-se numa organização multilateral ou em assinar um novo acordo comercial.

Stefan Grobe, Euronews - Em matéria de relações transatlânticas, é difícil imaginar que Biden volte ao passado, antes de Trump. Qual será a agenda europeia de Biden?

Alexandra de Hoop Scheffer, German Marshall Fund - Penso que Biden percebe que, em termos de prioridades internacionais, a Europa é um parceiro indispensável. Quando consideramos as prioridades atuais de Biden - seja na crise da pandemia, na recuperação económica, em matéria de alterações climáticas - vimo-lo assinar uma ordem executiva para assinalar que os EUA estão comprometidos com o Acordo climático de Paris, o que é uma decisão significativa que satisfaz, naturalmente, os europeus. Mas em todas estas áreas políticas-chave, os Europeus estão no centro da agenda. O que vejo é que a Europa se poderá tornar num elemento pivot natural no design da política externa dos EUA.

Stefan Grobe, Euronews - Com o avanço do "Brexit" e com a saída de Angela Merkel, quem será o parceiro de Biden na Europa?

Alexandra de Hoop Scheffer, German Marshall Fund - Penso que não existe uma resposta única para essa pergunta. (...) Serão as relações bilaterais. Haverá um interesse dos EUA em lidar diretamente com Bruxelas, com as instituições europeias em três grandes questões que são prioritárias para Biden. Primeira, alterações climáticas, segunda, a pandemia de Covid-19 e a terceira, matérias digitais em que a União Europeia tem uma influência crescente.

O sucesso de Joe Biden no palco mundial depende, em larga medida, de ser capaz de curar uma nação dividida na frente doméstica. Isso poderá depender de Donald Trump ficar longe da vista, politicamente falando.