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Fagoterapia: Vírus que salvam cada vez mais vidas

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De  Euronews
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Instituto Eliava, Tbilissi
Instituto Eliava, Tbilissi   -   Direitos de autor  AFP

Dizer que os vírus podem salvar vidas, quando o mundo ainda luta contra uma pandemia viral pode parecer um contrassenso, mas é uma realidade científica.

Num laboratório na capital da Geórgia, Tbilisi, está em curso uma batalha entre bactérias resistentes aos antibióticos e vírus "amigáveis".

Esta pequena nação do Cáucaso foi pioneira na investigação de uma forma inovadora de lidar com o pesadelo iminente de as bactérias se tornarem resistentes aos antibióticos dos quais o mundo depende

A diretora do Instituto de Bacteriófagos Eliava, Mzia Kutateladze fala da importância da fagoterapia numa altura em que os antibióticos se revelam falíveis.

"A fagoterapia é uma das alternativas mais importantes aos antibióticos, embora não digamos, claro, que os fagos possam substituir completamente os antibióticos. Mas a fagoterapia pode tornar-se crucial quando o patogénico tiver desenvolvido resistência aos antibióticos".

A fagoterapia, que consiste emusar vírus para destruírem os agentes infecciosos, foi utilizada entre 1920 e 1940 e caiu em desuso com o advento dos antibióticos e a invenção da Penicilina.

O facto de o homem que mais investigou a técnica, o cientista georgiano, Giorgi Eliava, ter sido executado em 1937 também não ajudou ao seu desenvolvimento.

Eliava tinha trabalhado no Instituto Pasteur em Paris com o microbiologista franco-canadiano Felix d'Herelle, um dos dois homens creditados com a descoberta de fagos, e persuadiu Estaline a convidá-lo para ir a Tbilisi em 1934.

Mas a sua colaboração foi cortada quando Lavrentiy Beria, o mais notório capanga de Estaline e o chefe da sua polícia secreta, o mandou matar. O motivo pelo qual foi morto permanece um mistério.

Negligenciados durante décadas, os bacteriófagos, ou vírus comedores de bactérias, estão agora a ser utilizados em alguns dos casos médicos mais difíceis, incluindo uma mulher belga que desenvolveu uma infeção com risco de vida após ter sido ferida no bombardeamento do aeroporto de Bruxelas, em 2016.

Após dois anos de tratamento antibiótico sem sucesso, os bacteriófagos enviados de Tbilisi curaram a sua infeção em três meses.

Resistência antimicrobiana: crise de saúde global

Com a Organização Mundial de Saúde (OMS) a declarar agora a resistência antimicrobiana como uma crise de saúde global, os fagos estão a regressar, especialmente porque podem atacar as bactérias, deixando as células humanas intactas.

Um estudo recente advertiu que os super-bugs podem matar até 10 milhões de pessoas por ano quando a resistência antimicrobiana, devido ao uso excessivo de antibióticos, atingir um ponto de viragem. Isto pode ocorrer dentro de três décadas.

Embora os medicamentos baseados em fagos não possam substituir completamente os antibióticos, os investigadores dizem que têm grandes vantagens por serem baratos, não terem efeitos secundários nem danificarem órgãos ou flora intestinal.

"Produzimos seis fagos padrão que são de largo espetro e podem curar múltiplas doenças infecciosas", disse a investigadora do Instituto Eliava, Lia Nadareishvili.

Em cerca de 10 a 15% dos pacientes, contudo, os fagos padrão não funcionam e "temos de encontrar fagos capazes de matar a estirpe bacteriana específica", acrescentou.

Os fagos feitos à medida para combater infeções raras podem ser selecionados a partir da vasta coleção do instituto - a mais rica do mundo - ou ser encontrados em esgotos ou água ou solo poluído, explica Mzia Kutateladze, acrescentando uma nota de otimismo: "O instituto pode até treinar fagos para que possam matar mais e mais bactérias nocivas diferentes"."É uma terapia barata e de fácil acesso", concluiu.