ONU alerta para a ilusão da redução do tráfico humano e admite agravamento dissimulado

Access to the comments Comentários
De  Francisco Marques  & Johannes Pleschberger
Migrantes oriundos de África naufragados ao tentar chegar à Europa em abril de 2022
Migrantes oriundos de África naufragados ao tentar chegar à Europa em abril de 2022   -   Direitos de autor  AP Photo/Francisco Seco/Arquivo

O tráfico de seres humanos registou uma forte queda nos números durante o primeiro ano da pandemia, mas a realidade, no entanto, é diferente, alertam as Nações unidas num novo relatório do Gabinete de Drogas e Crime (UNODC), sediado na capital da Áustria.

As preocupações da ONU centram-se sobretudo nos países mais pobres porque o tráfico de pessoas, a prostituição e a exploração laboral têm continuado de forma dissimulada, em especial pela Internet. Aparentemente, sem controlo policial devido ao desvio dos recursos para outras prioridades.

"Houve uma explosão da exploração sexual pela Internet. Em diversos países, os serviços jurídicos e policiais simplesmente pararam de trabalhar [nestes casos] durante a pandemia porque tiveram de redirecionar os recursos para assegurar a saúde pública", explicou à Euronews Ilias Chatzis, o diretor do departamento de tráfico humano no UNODC.

A Covid-19 será responsável pela queda mundial de 11% nos casos de tráfico humano em 2020, por comparação com os números de 2019. As diferenças entre regiões ricas e regiões pobres foram enormes.

Os casos registados caíram para metade no leste da Ásia e no norte de África, mas na Europa e na América do Norte agravaram-se, o que se pode explicar, sugere o UNODC, pela maior quantidade de recursos policiais nestas regiões mais desenvolvidas.

Combate tem de evoluir

O facto de o registo oficial de casos ter caído a nível mundial pela primeira vez em 20 anos não vai manter-se como exceção, alerta o UNODC, em Viena, sugerindo uma mudança de estratégia para acompanhar a evolução deste tipo de crime.

Ao longo destes últimos anos de pandemia (2021 e 2022), os traficantes puderam expandir as respetivas redes quase sem oposição.

Exemplos disso foi o desenvolvimento de uma rede de exploração de trabalhadores timorenses com destino a Portugal além do agravamento da imigração de outros trabalhadores oriundos do Sri Lanka, da Índia, do Paquistão e de diversos países africanos para trabalhar em explorações agrícolas, sobretudo no Alentejo.

"Os números de tráfico de seres humanos diminuíram tanto que se quisermos de facto ter hipóteses de erradicar este crime temos de pensar de forma diferente", recomenda o diretor do departamento de tráfico humano no UNODC.

O correspondente da Euronews em Viena ouviu a sugestão das Nações Unidas de que "os países devem vencer os traficantes no próprio jogo deles".

"Dado que este crime está a aumentar através da Internet, os investigadores devem também estar mais ativos na Internet. Com esperança de que no futuro menos casos registados signifiquem de facto menos casos reais", conclui Johannes Pleschberger.