Um tribunal de recurso de Paris vai decidir se a figura de proa da extrema-direita francesa pode ou não candidatar-se às eleições presidenciais em 2027, numa altura em que as atenções se viram cada vez mais para o seu protegido Jordan Bardella.
A figura de proa da extrema-direita francesa, Marine Le Pen, compareceu na terça-feira num tribunal de Paris, onde os juízes começaram a ouvir o seu recurso contra uma condenação que poderá pôr fim às suas ambições presidenciais.
A líder do Rassemblement National (RN), de 57 anos, pretende anular uma sentença proferida em março de 2025 que a considerou culpada de utilização indevida de fundos do Parlamento Europeu.
O tribunal condenou-a a cinco anos de proibição de exercer cargos públicos com efeito imediato, a uma pena de quatro anos de prisão, dois dos quais suspensos, e a uma multa de 100 mil euros.
Le Pen chegou ao tribunal sem falar com os jornalistas. A audiência teve início numa sala de audiências lotada, com a presença de jornalistas e membros do público. A aprecisação deverá decorrer até 12 de feveiro, esperando-se um veredito antes do verão.
Até à condenação do ano passado, Le Pen era vista como uma das principais candidatas à sucessão do atualpresidente, Emmanuel Macron, que está impedido de se candidatar a um terceiro mandato.
No centro do processo estão acusações de que funcionários do RN utilizaram fundos da UE atribuídos a assistentes parlamentares para financiar pessoal do partido entre 2004 e 2016, em violação das regras europeias.
Os procuradores argumentaram que alguns assistentes estavam principalmente envolvidos em trabalho político doméstico e não em tarefas no Parlamento Europeu.
Le Pen e os seus co-arguidos têm negado sistematicamente qualquer irregularidade. No seu discurso perante o tribunal, na terça-feira, Le Pen disse que o seu recurso se centrava tanto nos aspetos criminais como civis do caso.
A líder da bancada parlamentar do RN argumentou que não houve intenção de cometer um crime e acusou o Parlamento Europeu de não ter levantado preocupações na altura.
"Nada foi escondido", disse ao tribunal, apontando para contratos publicamente disponíveis, organogramas e cobertura mediática.
A sua posição foi contestada por Patrick Maisonneuve, o advogado que representa o Parlamento Europeu, que rejeitou as alegações de supervisão inadequada.
No total, 11 arguidos, juntamente com o partido Rassemblement National enquanto entidade legal, recorreram das suas condenações e serão ouvidos pelo tribunal.
Bruno Gollnisch, figura veterana do partido, reiterou a linha de defesa de longa data, argumentando que os assistentes parlamentares da UE estavam necessariamente envolvidos na atividade política nacional e que "a política é um desporto coletivo".
As consequências políticas do recurso podem ser de grande alcance. Se Le Pen for impedida de se candidatar em 2027, as atenções virar-se-ão para Jordan Bardella, o atual presidente do partido, de 30 anos.
Várias sondagens já sugerem que Bardella poderá ser mais popular do que Le Pen e capaz de ganhar uma eleição presidencial.
Bardella apoiou publicamente Le Pen. Durante o seu discurso de Ano Novo à imprensa, na segunda-feira, prometeu o seu "apoio total", avisando que seria "profundamente preocupante para a democracia" se os tribunais impedissem os eleitores de escolher um candidato que, no passado, chegou duas vezes à segunda volta das eleições presidenciais.
Marine Le Pen deixou o cargo de líder do partido em 2021 para se concentrar na sua candidatura presidencial, passando o controlo para Bardella.