Estima-se que 4,8 milhões de pessoas permaneçam deslocadas internamente no Iémen, segundo o PAM, no que a ONU diz ser uma das piores crises humanitárias do mundo.
A agência das Nações Unidas para a alimentação vai encerrar as suas operações na parte norte do Iémen, controlada pelos rebeldes, na sequência de restrições e perseguições por parte dos rebeldes Houthi, apoiados pelo Irão, informaram na quinta-feira funcionários da ONU.
A decisão do Programa Alimentar Mundial (PAM) é suscetível de agravar as terríveis condições humanitárias no país empobrecido, perante a repressão dos Houthis contra os trabalhadores da ONU e os grupos de ajuda em áreas sob o seu controlo, bem como a escassez de financiamento.
De acordo com os funcionários da ONU, os 365 funcionários do PAM no norte do Iémen perderão os seus empregos até ao final de março.
Um funcionário culpou o "ambiente operacional inseguro" nas áreas controladas pelos Houthi e a falta de financiamento suficiente para a decisão.
Os funcionários, com conhecimento direto das decisões do PAM, falaram sob condição de anonimato para discutir o encerramento ainda por anunciar.
Nos últimos anos, os Houthis têm reprimido a ONU nas áreas que controlam, detendo dezenas de funcionários da ONU, bem como trabalhadores de grupos não governamentais e da sociedade civil e funcionários de missões diplomáticas.
Os rebeldes intensificaram a sua repressão nos últimos meses, entrando à força e ocupando instalações da ONU em Sana'a e noutros locais.
Alegaram, sem apresentar provas, que o pessoal da ONU detido e os funcionários de outras organizações e embaixadas são espiões, alegações que a ONU negou.
A repressão restringiu severamente as operações humanitárias nas áreas controladas pelos Houthi, que representam cerca de 70% das necessidades humanitárias no país, de acordo com a ONU.
Ramesh Rajasingham, que dirige as operações humanitárias no Iémen, disse ao Conselho de Segurança da ONU, no início deste mês, que mais de 18 milhões de pessoas no Iémen poderiam enfrentar uma insegurança alimentar aguda no próximo mês, com dezenas de milhares em risco de cair numa "fome catastrófica" e enfrentar condições semelhantes às da fome.
As operações do Gabinete de Coordenação dos Assuntos Humanitários da ONU (OCHA na sigla original) no Iémen em 2025 foram financiadas em apenas 25%.
Esta lacuna, segundo o OCHA num relatório de 4 de janeiro, obrigou as agências da ONU e os grupos de ajuda humanitária a reduzir os serviços que salvam vidas em todos os setores, em especial os programas de saúde e de proteção.
Esta situação deixou "milhões de pessoas sem cuidados essenciais e expostas a riscos acrescidos", afirmou a agência.
Guerra civil
O Iémen entrou numa guerra civil devastadora em 2014, quando os Houthis saíram do seu reduto do norte da província de Saada e tomaram a capital Sana'a, forçando o governo internacionalmente reconhecido, chefiado por Abdrabbuh Mansour Hadi, a exilar-se.
O conflito agravou-se em março de 2015, quando uma coligação liderada pela Arábia Saudita interveio para restaurar o governo, transformando um conflito civil numa guerra regional por procuração.
Os Houthis controlam atualmente a maior parte do norte do país, enquanto o governo oficial, apoiado pela coligação liderada pela Arábia Saudita, governa o sul.
Segundo o PAM, estima-se que 4,8 milhões de pessoas permaneçam deslocadas internamente em todo o Iémen, no que a ONU considera ser uma das piores crises humanitárias do mundo.