Os ministros da Cultura e dos Negócios Estrangeiros de 22 países europeus também se pronunciaram contra a concessão de uma plataforma a um país que comete crimes de guerra na Ucrânia.
A Comissão Europeia avisou que poderia retirar as subvenções europeias à Fondazione Biennale (Fundação Bienal) depois de se ter revelado que a Rússia foi convidada a participar na Bienal de Veneza deste ano, que decorre de 9 de maio a 22 de novembro em Itália.
A vice-presidente executiva da Comissão Europeia para a Soberania Tecnológica, Segurança e Democracia, Henna Virkuninen, e o Comissário Europeu para a Cultura, Glenn Micallef, "condenaram veementemente"(fonte em inglês) asações da direção da Bienal numa declaração conjunta (fonte eminglês).
"A Comissão Europeia expressou claramente a sua posição sobre a guerra ilegal de agressão da Rússia contra a Ucrânia. A cultura promove e defende os valores democráticos, fomenta o diálogo aberto, a diversidade e a liberdade de expressão e nunca deve ser utilizada como plataforma de propaganda", lê-se na declaração.
A Comissão Europeia sublinha ainda que a decisão da Fondazione Biennale é incompatível com a resposta coletiva da UE à agressão brutal da Rússia.
"Os Estados-Membros, as instituições e as organizações devem agir em conformidade com as sanções da UE e evitar dar uma plataforma a indivíduos que apoiaram ativamente ou justificaram a agressão do Kremlin contra a Ucrânia", lê-se.
A CE avisou que se a Fundação Bienal decidir permitir a participação russa, serão consideradas outras medidas, incluindo a suspensão ou o fim da atual subvenção da UE à fundação.
"O diálogo aberto, a diversidade e a liberdade de expressão são valores que não são respeitados na Rússia de hoje", afirmou o gabinete de imprensa da Comissão Europeia, num comentário enviado à Euronews.
O gabinete de imprensa também disse à Euronews que a Fondazione Biennale recebe apoio da UE para a produção de filmes, mercados cinematográficos e formação e, como parte do programa MEDIA da Europa Criativa da Comissão Europeia, tem um projeto em curso com um orçamento de dois milhões de euros para três anos.
O ministério da Cultura italiano afirmou anteriormente (fonte em italiano) que a direção da Fundação da Bienal decidiu a participação da Rússia "de forma totalmente independente, apesar da oposição do governo italiano."
"A Itália presta grande atenção à proteção do património artístico da Ucrânia, que foi destruído durante mais de quatro anos devido aos bombardeamentos russos. Isto começa com os esforços para restaurar um dos edifícios mais emblemáticos da Ucrânia, a grande Catedral Ortodoxa da Transfiguração, em Odessa, que foi gravemente danificada", refere o comunicado.
Os ministros da Cultura e dos Negócios Estrangeiros de 22 países europeus assinaram uma carta conjunta (fonte em polaco) de protesto contra o envolvimento da Rússia.
O ministério da Cultura e do Património Nacional da Polónia também se opôs categoricamente à participação da Rússia. "Um evento internacional tão prestigiado não pode servir de plataforma para reforçar o soft power de um país que decidiu demonstrar o seu poder através de uma agressão armada", refere o comunicado.
A ministra da Cultura e do Património Nacional da Polónia, Marta Cenkowska, afirmou: "um artista que serve o criminoso torna-se cúmplice do seu crime. Uma cultura que permanece em silêncio perante o assassínio torna-se uma cultura de morte e terror."
Propaganda da "cultura para além da política"
Tendo como pano de fundo a invasão da Ucrânia pelas tropas russas, que tem como uma das consequências a destruição do património cultural ucraniano e das oportunidades de criatividade, a Rússia reuniu-se na Bienal de Veneza com um projeto musical.
Mikhail Shvydkoy, representante especial do presidente russo para a cooperação cultural internacional, afirmou que, no projeto a apresentar, "a cultura prevalece sobre a política."
A arte russa em Veneza será apresentada por filhos da elite. As autoridades russas nomearam Anastasia Karneeva, filha do diretor-geral adjunto da empresa estatal russa Rostec, como comissária do pavilhão russo na Bienal de Veneza em 2021.
Devido à invasão da Ucrânia pela Rússia, a Rostec está na lista de sanções de todos os países da UE.
Karneeva é co-fundadora da Smart Art, a empresa de arte que gere o pavilhão e que co-fundou com Ekaterina Vinokurova, filha do ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov.
E na própria Rússia, a repressão dos artistas que se opõem às políticas assassinas do Kremlin está a aumentar - alguns estão na prisão pela sua posição, enquanto outros foram forçados a abandonar o país.
As artes como arma na guerra de informação
O ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andriy Sibiga, agradeceu à Comissão Europeia pelo seu apoio.
O governo ucraniano apela à comunidade internacional para que se mantenha vigilante, uma vez que a Rússia utiliza a cultura como instrumento de propaganda.
Kiev afirma que a Bienal de Veneza, sendo uma das plataformas artísticas mais conceituadas do mundo, não deve tornar-se uma plataforma para justificar os crimes de guerra que a Rússia comete diariamente contra o povo ucraniano e o património cultural da Ucrânia.