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Denúncia nos EUA associou Jeffrey Epstein aos abusos na Casa Pia em Portugal

Jeffrey Epstein condenado por tráfico sexual e abuso de menores morreu a 10 de agosto de 2019
Jeffrey Epstein condenado por tráfico sexual e abuso de menores morreu a 10 de agosto de 2019 Direitos de autor  AP Photo
Direitos de autor AP Photo
De Joana Mourão Carvalho
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Documentário da Netflix sobre o caso Madeleine McCann levou denunciante a alertar, em 2019, as autoridades dos EUA para uma possível ligação entre Jeffrey Epstein ao escândalo da Casa Pia.

Uma denúncia enviada às autoridades norte-americanas em julho de 2019 pedia que fosse investigada a ligação de Jeffrey Epstein a um alegado esquema de abuso de crianças por milionários norte-americanos em Portugal.

O e-mail faz parte dos ficheiros Epstein agora divulgados pelo Departamento de Justiça norte-americano (DOJ na sigla original) e dá conta de que tinha estreado por essa altura, na Netflix, um documentário sobre o desaparecimento de Madeleine McCann em que jornalistas falavam da presença de "milionários americanos" que voavam para Portugal em jatos privados "com o propósito de abusarem de crianças" na instituição da Casa Pia.

O título do e-mail era "Jeffrey Epstein", mas desconhece-se se as autoridades dos Estados Unidos investigaram esta possível ligação.

O autor do email, cujo nome aparece censurado, escreve: “Na temporada 1, episódio 3, jornalistas portugueses lembram o escândalo que ocorreu uns anos antes sobre abuso de crianças num orfanato português (…) Em relação ao orfanato, Casa Pia, um jornalista diz mesmo que é um facto conhecido que milionários americanos voavam para Portugal em jatos privados para abusar sexualmente destas crianças”. A mensagem termina com a indicação: “Esta pode ser uma linha de investigação que podem querer acompanhar”.

Reprodução do e-mail divulgado na mais recente libertação dos ficheiros Epstein
Reprodução do e-mail divulgado na mais recente libertação dos ficheiros Epstein Departamento de Justiça dos EUA

As afirmações referidas na denúncia dizem respeito a declarações da jornalista Felícia Cabrita, que surge no documentário a relatar ter encontrado provas de ligações entre cidadãos norte-americanos abastados e a instituição.

No filme, a jornalista afirma que, desde a década de 1960, esses indivíduos “se deslocavam a Portugal, obviamente, com a conivência de elementos de topo da Casa Pia, e que faziam com estas crianças o que bem entendiam”.

Na altura, o documentário foi alvo de críticas por apresentar poucas novidades e por não esclarecer pontas soltas do caso Madeleine McCann. Ainda assim, o denunciante considerou que aquelas referências poderiam motivar uma comunicação às autoridades.

De acordo com os ficheiros divulgados agora, esta é a única referência explícita ao processo Casa Pia na extensa biblioteca sobre Epstein disponibilizada pelo Departamento de Justiça norte-americano, embora Portugal surja noutros documentos.

Há registo de vários voos da TAP, mas também a passagem do avião privado de Epstein, conhecido como “Lolita Express” — uma referência ao romance de Vladimir Nabokov que conta a história de um homem de meia idade que abusa da enteada de 12 anos. Entre as escalas registadas encontra-se a ilha de Santa Maria, nos Açores.

Outra referência a Portugal envolve o ex-ministro dos Negócios Estrangeiros do PS, Luís Amado. O nome do antigo ministro surge no meio de outras 14 personalidades estrangeiras num outro e-mail de outubro de 2010. O remetente desconhecido propunha a Epstein que se encontrasse com 15 personalidades, sendo Luís Amado uma delas.

Epstein terá reencaminhado o e-mail para Jes Staley, ex-CEO do Barclays que também está a ser investigado pelo crime de violação após ter surgido em vários ficheiros divulgados pelo DOJ que contêm alegações graves de má conduta sexual.

Contactado pela SIC, o ex-ministro achou o assunto "ridículo", garantindo "nunca ter visto" Epstein "na vida".

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