Vídeos filmados em universidades em Teerão mostram os estudantes, enquanto se desenrolam confrontos com grupos pró-governo, chamando-os de "descarados" ou "vergonhosos" em persa.
Perante relatos de novos protestos no Irão, o presidente iraniano, Masoud Pezeshkian, afirmou que o seu país não cederá à pressão internacional, uma vez que estão em curso conversações nucleares com os Estados Unidos.
Durante um discurso transmitido em direto pela televisão estatal, Pezeshkian afirmou: "As potências mundiais estão a alinhar-se para nos obrigar a baixar a cabeça... mas nós não baixaremos a cabeça apesar de todos os problemas que nos estão a criar".
Entretanto, os meios de comunicação social locais e da diáspora noticiaram um recrudescimento dos protestos estudantis antigovernamentais em Teerão, motivados pelos milhares de mortos durante os confrontos de janeiro, bem como uma manifestação de apoio ao governo por parte de outros grupos.
Vídeos geolocalizados pela AFP, captados na principal universidade de Engenharia de Teerão, mostram pessoas a gritar "descarados" ou "vergonhosos" em persa, enquanto os confrontos decorrem.
O canal de televisão em língua persa Iran International, sediado em Londres, também noticiou os protestos na Universidade de Tecnologia Sharif, igualmente situada na capital.
Os iranianos repetiram esta semana slogans de protesto para assinalar os 40 dias desde a morte de milhares de pessoas, de acordo com a tradição xiita de luto, depois de as manifestações terem atingido o seu auge a 8 e 9 de janeiro.
A agência noticiosa local Fars informou que uma "concentração silenciosa e pacífica" planeada por estudantes para recordar os mortos foi interrompida quando alguns indivíduos começaram a entoar palavras de ordem, incluindo "morte ao ditador", uma referência ao líder supremo do Irão, Ali Khamenei.
Um vídeo publicado pela agência Fars exibia um grupo a entoar cânticos e a agitar bandeiras iranianas em frente a uma outra multidão que usava máscaras, que estava a ser contida por homens de fato. Ambos os lados pareciam estar a segurar fotografias comemorativas.
A agitação começou em dezembro, após meses de dificuldades financeiras, antes de se transformar em protestos em larga escala contra o governo. As forças de segurança contiveram as manifestações através de uma violenta repressão que, segundo grupos de defesa dos direitos humanos, matou milhares de pessoas.
As autoridades clericais iranianas admitem que mais de 3.000 pessoas foram mortas, mas atribuem a violência a "atos terroristas", alegadamente conduzidos pelos inimigos do país.
No entanto, a Agência de Notícias dos Ativistas pelos Direitos Humanos, com sede nos EUA, afirma que mais de 7.000 pessoas foram mortas na repressão, a maioria das quais manifestantes, embora o número real possa ser muito mais elevado.
Na sexta-feira, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que 32.000 pessoas tinham sido mortas durante os recentes protestos, sem fornecer uma fonte.
Na sequência dos comentários de Trump, no sábado, o ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, deixou um apelo na rede social X, pedindo a "qualquer pessoa" que conteste a "exatidão dos dados" fornecidos pelas autoridades iranianas para que partilhe "qualquer evidência".
Tensão crescente na região
Os protestos surgem num momento em que o Irão enfrenta uma pressão crescente para chegar a um acordo sobre o seu programa nuclear com os Estados Unidos, que está a posicionar as suas forças a distâncias de ataque e a aumentar a sua presença no Médio Oriente.
O presidente dos EUA, Donald Trump, já tinha ameaçado com uma ação militar contra Teerão durante os protestos contra a repressão levada a cabo pelas forças de segurança.
A Reuters noticiou que foram avistados aviões militares norte-americanos na Base Aérea das Lajes, em território português, e funcionários dos EUA disseram que os ataques ao Irão poderiam visar líderes individuais. O porta-aviões USS Gerald R. Ford também foi visto a passar pelo Estreito de Gibraltar na sexta-feira.
O Flightradar24 informou que o aeroporto de Sófia, na Bulgária, será encerrado durante algumas horas na segunda e na terça-feira, sendo apenas permitidos aviões militares. Os meios de comunicação social locais referem que este encerramento temporário coincide com a presença de aviões militares norte-americanos no aeroporto e na base aérea próxima.
O Ministério da Defesa da Bulgária afirmou que os aviões pertencem à Força Aérea dos EUA e que o seu destacamento faz parte das atividades de vigilância reforçada da NATO.
A Suécia, a Sérvia e a Austrália exortaram os seus cidadãos a abandonar o Irão e a evitar viajar para o país.
"Devido à deterioração da situação de segurança, não se recomenda aos cidadãos da República da Sérvia que viajem para o Irão nos próximos tempos", afirmou o Ministério dos Negócios Estrangeiros do país, num comunicado divulgado durante a noite de sábado.
Na sexta-feira, Trump disse que estava a "considerar" um ataque militar limitado ao Irão, durante uma conferência de imprensa na Casa Branca, caso as negociações não fossem bem-sucedidas.