Newsletter Boletim informativo Events Eventos Podcasts Vídeos Africanews
Loader
Encontra-nos
Publicidade

Paris: moradores de águas-furtadas sofrem com temperaturas extremas durante a onda de calor

À direita, Amelie Kenney, com a companheira Francesca Pilia, na varanda do apartamento no sótão que partilham em Paris, terça-feira, 23 de junho de 2026.
Amelie Kenney, à direita, e a sua companheira Francesca Pilia estão na varanda do apartamento no sótão que partilham, em Paris, terça-feira, 23 de junho de 2026. Direitos de autor  AP Photo/John Leicester
Direitos de autor AP Photo/John Leicester
De Angela Symons
Publicado a Últimas notícias
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google
Partilhar Close Button

A onda de calor histórica está a dificultar a vida de quem reside nas águas furtadas da capital francesa, expondo os moradores a riscos para a saúde.

Antes da onda de calor chegar, Amelie Kenney podia gabar-se de que tinha quase tudo: um apartamento minúsculo e barato com uma vista invejável, uma varanda pequena para os icónicos telhados cinzentos da capital francesa e até, se se debruçar o suficiente, para a basílica do Sagrado Coração, no alto de Montmartre.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Mas, com uma onda de calor histórica histórica a transformar apartamentos de sótão como o seu em potenciais armadilhas para a saúde, a recém-licenciada de 23 anos já não se sente tão sortuda.

"Tem sido a pior semana que passámos neste apartamento", disse Amelie Kenney, esta semana, numa altura em que a capital e outras partes da Europa atravessam uma onda de calor."O sol bate a tarde inteira e é impossível conseguir algum alívio", acrescentou.

Muitos dos edifícios de Paris, que à primeira vista parecem tão pitorescos, revelam-se hostis e até perigosos para a saúde durante a vaga de calor implacável e recordista, transformando os longos dias de verão e as noites curtas e abafadas numa autêntica prova de resistência.

Isso é particularmente verdade para quem vive mesmo por baixo dos telhados de Paris, muitas vezes sem meios para pagar apartamentos maiores, em andares mais baixos e menos expostos ao sol direto.

Vista dos telhados de Paris, terça-feira, 23 de junho de 2026
Vista dos telhados de Paris, terça-feira, 23 de junho de 2026 AP Photo/John Leicester

Risco de morte mais do que quadruplica nos sótãos de Paris

O calor extremo pode tornar os sótãos de Paris mortais. Um estudo sobre a onda de calor sem precedentes de 2003, à qual foram atribuídas 15.000 mortes relacionadas com o calor, concluiu que viver num sótão em Paris aumentava o risco de morte em mais de quatro vezes, indicou a agência de saúde pública francesa num relatório divulgado no ano passado.

Investigadores que analisaram as mortes associadas ao calor em cidades europeias, num estudo publicado em 2023 na revista The Lancet Planetary Health, concluíram que Paris apresentou o maior risco de mortes relacionadas com o calor entre as 30 capitais europeias avaliadas.

Quase três quartos dos telhados de Paris são revestidos a zinco, material que dá forma aos característicos panoramas cinzentos da cidade e que, ao longo dos anos, tem servido de inspiração a artistas e cineastas. O saber-fazer dos artesãos que trabalham estes telhados de zinco é reconhecido pela agência cultural das Nações Unidas, a UNESCO, como património cultural de valor para a humanidade. O zinco resiste bem às intempéries, é maleável e reciclável. Mas, sendo metal, também absorve e conduz o calor.

"As pessoas acham os telhados de Paris encantadores. Existe toda a imagem romântica do quarto de sótão. Mas, na realidade, quando vemos quem vive nesses apartamentos, são muitas vezes estudantes que pagam muito dinheiro por um quarto minúsculo", afirmou Maider Olivier, da campanha Fundação Habitação para os Desfavorecidos.

"Não só estão extremamente expostos ao calor, como também é impossível criar correntes de ar para expulsar o calor durante a noite".

Amelie Kenney, à direita, toca piano no apartamento de sótão que partilha com a companheira, Francesca Pilia, em Paris, quarta-feira, 24 de junho de 2026
Amelie Kenney, à direita, toca piano no apartamento de sótão que partilha com a companheira, Francesca Pilia, em Paris, quarta-feira, 24 de junho de 2026 AP Photo/John Leicester

Regras de preservação em Paris dificultam adaptação ao calor extremo

No sexto andar sem elevador que Kenney partilha com a companheira, Francesca Pilia, também de 23 anos, foi possível encaixar uma secretária, uma cama de casal e um pequeno piano elétrico. A única janela do apartamento, que sobressai do telhado de zinco, está virada a oeste, apanhando sol direto do meio-dia até ao anoitecer. As duas jovens dividem uma renda mensal de 735 euros.

"Era o sítio mais barato onde podia ficar", disse Kenney. "Gosto de ter vista para a praça. Consigo ver casamentos quase todos os sábados de manhã".

"Mas agora penso que, se pudesse gastar mais algum dinheiro para estar noutro sítio, fá-lo-ia".

Embora os blocos de escritórios, centros comerciais, cinemas e outros espaços modernos onde as pessoas se concentram tenham frequentemente ar condicionado, os apartamentos privados raramente têm, sobretudo no centro densamente povoado de Paris, com os seus clássicos edifícios de estilo haussmanniano – designados assim em homenagem ao urbanista do século XIX que transformou a cidade.

Olivier, a ativista pela habitação, considera que as regras de ordenamento pensadas para preservar o caráter de Paris, incluindo os seus emblemáticos telhados, travam os esforços para adaptar as habitações ao calor extremo.

"Há pessoas que não podem isolar os telhados ou instalar estores para bloquear o sol e impedir que as casas aqueçam demasiado por causa dos regulamentos de proteção dos telhados", disse Olivier. "Mas esses regulamentos, que protegem os telhados de Paris, não protegem as pessoas que vivem debaixo desses telhados", acrescentou.

Kenney, australiana, e Pilia, italiana, estão habituadas ao calor. Mas as temperaturas em Paris – com máximas recorde para junho a ultrapassar os 40 ºC durante o dia e 25 ºC à noite – têm sido difíceis de suportar. investiram num pequeno ventilador elétrico, tomam duches frios, refrescam-se com um pano molhado, bebem muita água e lutam com o dilema de manter ou não a janela aberta.

"Acordo e penso: está demasiado calor, tenho de abrir a janela", contou Kenney. "Uma hora depois volto a acordar e digo: há demasiado barulho, tenho de fechar a janela".

Ir para os atalhos de acessibilidade
Partilhar Comentários Siga a Euronews no Google

Notícias relacionadas

Calor extremo em França: 72 departamentos em alerta vermelho, trovoadas ao fim do dia

Europa enfrenta onda de calor de Londres a Madrid com máximas perto dos 39 ºC

Reino Unido regista dia de junho mais quente de sempre durante onda de calor na Europa